A Dança como Encarnação da Virtude no Quattrocento

Atualizado: 5 de Dez de 2020

IZIS DELLATRE BONFIM TOMASS (UFPR)

izis.tomass@gmail.com

http://lattes.cnpq.br/0895885797532923

Tese de doutorado

Orientador: Paulo Vieira Neto

Coorientadora: Cristiane do Rocio Wosniak

Data prevista de defesa: 01/03/2022



Fonte da imagem: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/9c/Ballet_1582.png/800px-Ballet_1582.png



Ao nos atentarmos para o processo de civilização da sociedade ocidental, através de uma observação mais cuidadosa em relação às artes do corpo e, mais especificamente à dança, podemos encontrar já no período quatrocentista e quinhentista italianos uma aprimorada técnica de viés civilizatório. Em uma época e lugar onde se era levemente sensível a ascensão da classe burguesa, ou Popolo Grosso, os ambientes de corte, abrigando agora um misto de indivíduos da antiga aristocracia combinados à nova classe alta (RUGGIERO, 2015), demandavam um maior refinamento dos costumes para que aqueles obtivessem excelência entre os seus espaços. Operando de forma dialética, era do êxito da negociação de identidades destes indivíduos em suas interações sociais que dependiam, por vezes, decisões políticas a nível de cidade-estado (LOCKWOOD, 2009) e (BAXANDALL, 1998).


Essa negociação dava-se através de um ponto convergente: o discurso da Virtu (BURKE, 1997). Tal discurso incorporava-se visualmente nos indivíduos através de regras e manuais de etiquetas já bem delineados, como podemos ver nos escritos de Matteo Palmieri (Della Vita Civile, 1430), Baldassare Castiglione (Il Cortegiano, 1528) e Giovanni della Casa (Il Galateo, 1558), onde termos como Medida, Displicência, Graça e Harmonia perpassam as obras em uma constante reafirmação de suas indispensáveis presenças naqueles que desejassem o pertencimento ao ambiente de corte. Não à toa, é precisamente no século quinze italiano o momento em que os considerados, até a presente data, primeiros tratados da dança ocidental foram escritos. Estruturados a partir de uma fundamentação teórica que alia uma justificação filosófica às regras de etiqueta do período, as obras de Domenico da Piacenza (De la arte di ballare et danzare, 1455) e Guglielmo de Ebreo (De pratica seu arte tripudii, 1463) determinam tanto a origem do dançar quanto a sua importância e propósito como ferramenta essencial no processo de materialização da Virtu nos corpos daqueles indivíduos.


Como esperado, nestes tratados, assim como nos escritos já citados de Palmieri, de Castiglione e della Casa, a Medida (ou Misura) desempenha um papel central e originário. Os mestres da dança italiana, a partir do entendimento à época da música como uma Arte Liberal, portanto, originada e dotada de Medida, determinam que os movimentos do dançar têm a sua gênese no momento em que uma “bem medida” melodia entra em contato com o intelecto humano. Tal encontro produziria, em nosso afectos, “doces comoções”, gerando assim “movimentos espirituais” que lutam para serem exteriorizados em ato no todo corporal (PISAURIENSIS, 1463), (PIACENZA, 1455). Estes atos ou movimentos, por sua vez, a partir do momento que foram originados de uma música “bem medida”, desenham nos corpos dos bailarinos e no todo dançante formas geométricas, isto é, figurações racionais advindas, consequentes de uma melodia composta segundo estes mesmos parâmetros. Tal prescrição geométrica na dança ocidental é perceptível ainda hoje nas produções de balé clássico, dança moderna e também, em alguns casos, na dança contemporânea.


Entretanto, o que ocorreria de modo “natural” precisa ser, com efeito, bem esculpido. Em várias seções dos tratados, ambos os mestres de dança prescrevem modos e meios de como se deve executar um “bem dançar”, assemelhando-se as obras, nestes aspectos, aos já citados manuais de etiqueta cortesã que apareceriam no século posterior. Não bastava, por conseguinte, que o intelecto humano travasse contato e se harmonizasse, moralizando-se de acordo com a Medida presente sonoramente nas produções musicais: era preciso que se adequasse a execução de tais movimentos a uma rígida lista de regras sociais dos ambientes de corte. Para tanto, era imprescindível o treino constante do dançar para que se pudesse dançar publicamente em sociedade. Concomitantemente, tal prática acaba por auxiliar a racionalizar os corpos de corte para outras situações sociais que não o dançar. Operava-se então, a uma só vez, de modo dialético, a determinação de uma orientação racional no sujeito dançante do ocidente, ao passo que o próprio dançar serviu como importante ferramenta para a operação do processo civilizatório, racionalizante, nos corpos dos indivíduos de corte.


Por fim, é possível rastrear também nestes tratados as origens de uma exclusividade corporal e racial na dança ocidental, uma vez que o sujeito de corte italiano fora universalizado em suas regras. Tanto no tratado de Domenico, quanto no de Guglielmo, é denotado explicitamente que esta arte serve apenas àqueles dotados de “perfeição” corporal, isto é, que possuam um corpo simétrico, bem-medido, para que assim as formas racionais possam ser nele exteriorizadas de modo “excelente”. Ademais, nas apresentações de dança durante os espetáculos de corte, os quais tinham lugar em eventos importantes a nível de Estado, não raro as figuras do “civilizado” e do “selvagem” apareciam como personagens, e por vezes tendo, este último, o rosto pintado de preto.


Tal foi acima descrito o meu objeto de pesquisa quando no mestrado, o qual resultou em uma dissertação e nas traduções dos tratados de Domenico da Piacenza e de Guglielmo de Ebreo. No momento, a dissertação e as traduções passam por revisão e edição para fins de publicação. A pesquisa continua agora em andamento no doutorado por duas linhas paralelas: uma, a de explorar melhor os conceitos racistas presentes nos tratados mencionados, e outra, a de analisar e traduzir o considerado "primeiro balé de corte francês", o Ballet “Comique de la Reine”, cuja montagem e execução ocorreram cerca de um século após a escrita destes tratados, em 1581 mais precisamente, e onde as prescrições deles são observadas de modo ainda mais nítido e detalhado.


Referências

BAXANDALL, Michael. Painting and experience in fifteenth century Italy: a primer in the social history of pictorial style. 2nd ed ed. Oxford [Oxfordshire] ; New York: Oxford University Press, 1988.

BURKE, P. As Fortunas d'O Cortesão. São Paulo: Unesp, 1997.

LOCKWOOD, Lewis. Music in Renaissance Ferrara, 1400-1505: the creation of a musical center in the fifteenth century. Pbk. ed. ed. Oxford ; New York: Oxford University Press, 2009.

PIACENZA, Domenico. De la arte di ballare et danzare. Manuscrito, Ducado de Milão. Biblioteca Nacional da França. Departamento de manuscritos. Identificador: Italien 972.

PISAURIENSIS, Guilielmus Hebraeus. De pratica seu arte tripudii. Manuscrito, Biblioteca Sforza. Biblioteca Nacional da França. Departamento de manuscritos. Identificador: Italien 973.

RUGGIERO, Guido. The Renaissance in Italy: a social and cultural history of the Rinascimento. New York: Cambridge University Press, 2015.


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