A importância de oficinas de pensamentos para a promoção de uma experiência filosófica

SILENA DA FONSECA PIMENTEL PAIZAN (UFSCAR)

silenapaizan@hotmail.com http://lattes.cnpq.br/7823938501967237 Dissertação de Mestrado (PROF-FILO) Orientadora: Paula Ramos de Oliveira Data de defesa: 15/12/2020


Fotografia de Eduardo Kobra, na fachada do SESC Tatuapé. Fonte da imagem: https://www.facebook.com/senactatuape/photos/a.856453324365455/1091432414200877/?type=3&is_lookaside=1

A pesquisa teve como discussão central a questão: “É possível valorizar a experiência, em meio ao empobrecimento da sociedade da informação, rumo ao filosofar?” A investigação incluiu um aspecto empírico/prático, de aplicação em sala de aula, junto aos alunos da rede pública estadual do estado de São Paulo. O objetivo foi a promoção da experiência filosófica dos educandos através de uma oficina de pensamentos que foi realizada como um projeto interdisciplinar, utilizando como ponto de partida a disciplina de filosofia. Nas aulas de filosofia analisamos temas que ilustram a realidade dos adolescentes que frequentam o ensino médio e esse conhecimento foi tomado como base das oficinas. Com a contribuição da atitude filosófica compartilhada nas oficinas de pensamento, foi possível produzir experiências filosóficas não apenas na comunidade escolar, mas no espaço social em que os discentes estão inseridos.


Jorge Larrosa Bondía, Walter Benjamin e Walter Kohan, compuseram o embasamento teórico para o trabalho. Esses pensadores, cada qual dentro de suas características e contextos históricos e sociais próprios, analisam as contribuições das experiências ou da ausência de experiências na formação dos sujeitos. Com essas reflexões em mente e partindo de uma experiência docente de mais dez anos, pude perceber que grande parte dos discentes, a princípio, parece ter certo preconceito em relação à disciplina de filosofia. Percebi ainda, que os currículos oficiais não promovem a práxis da experiência filosófica. Ao contrário, descontextualizam a disciplina de sua totalidade, fraturam e, como enxerto, oferecem legislações, ementas e interstícios que buscam uma obrigatoriedade legal, o que distancia ainda mais a disciplina de sua característica motriz: a reflexão.


No primeiro semestre foi feita uma sondagem diagnóstica junto aos discentes através de questionários objetivos, com a finalidade de verificar se os conteúdos oferecidos em anos anteriores ainda representavam uma aprendizagem significativa e gradativamente a disciplina de filosofia foi revisada por meio da história da filosofia. Entretanto, toda história da filosofia seria objeto de uma contextualização, a princípio fruto da experiência da docente. Porém, após um a dois meses, as contextualizações partiram voluntariamente das experiências discentes. Eles recorriam a situações de seu cotidiano para ilustrar o conteúdo das aulas, buscavam músicas, filmes, charges, histórias em quadrinhos, memes e construíam paródias. Aos poucos, as aulas de filosofia, a princípio consideradas desinteressantes, cansativas e desconexas por muitos, foi passando a ser um momento de descontração, de construção de experiências e de construção de vínculos. Passou a ser um momento no qual as experiências filosóficas fluíam e, ao serem compartilhadas, reconstruíam-se e continuavam em perpétua reconstrução. Com o auxílio do referencial de Walter Kohan, percebi que construímos uma oficina de pensamentos. Parafraseando a obra O mestre ignorante, percebo que fui “uma mestre ignorante” e com essa atitude consegui mostrar aos discentes, cada qual a seu momento, o caminho da atitude filosófica.

As oficinas foram realizadas no segundo semestre letivo, surgiram com o embasamento da obra de Walter Kohan e em suma partimos de temas que ilustravam as realidades discentes, dentre esses temas podemos citar: amor, amizade, solidão, saudades, morte e etc. Buscamos uma contextualização que foi expressa pelos discentes oficineiros através de músicas, fotos, imagens, charges, poemas e uma relação com o embasamento filosófico que fora revisado durante o primeiro semestre. Por fim, os próprios discentes sugeriram a gravação de pequenos vídeos, onde seria oferecido o conhecimento científico fruto das aulas de filosofia e sua contextualização, que partira das experiências dos sujeitos discentes, através de fotos, filmes, vídeos, músicas e reflexões feitas em grupos dentro de cada sala. Nesses vídeos foi possível perceber a ressignificação, auxiliada pelo filosofar, que partiu de espontaneidades colaborativas. Ao término das produções cada grupo mostrou seu vídeo para sua sala, explicou sua produção e, de maneira geral, toda a escola se interessou pelas projeções. Assim, num dia previamente agendado junto a direção da escola, fizemos uma mostra de todos os vídeos que foram criados na oficina de pensamentos.


Penso que através da experiência filosófica o docente de filosofia poderá orientar os educandos rumo ao exercício da cidadania; porém, para o êxito nesse processo, os caminhos potentes e frutíferos poderão perder-se nas entrelinhas do currículo. Cada educando poderá construir sua definição tanto do termo cidadania quanto do exercício dela, entretanto, nessa construção será necessário - além das experiências dos sujeitos – criar um espaço para a experiência filosófica.

Entendo ser oportuno sinalizar que a Filosofia não poderá resumir-se à transmissão de conteúdos ou conceitos prontos, mas sim à utilização, análise e função que os conceitos recém-conhecidos representam para o sujeito partindo de sua reconstrução racional e crítica. Com as Oficinas de Pensamento, se visou mostrar não apenas para os alunos do ensino médio, mas para a comunidade escolar, comunidade acadêmica e mesmo para os gestores da política administrativa do país, que a Filosofia chegou à escola e que nós sabemos sim o que fazer com ela. Não apenas sabemos, como fazemos filosofia.

Referências bibliográficas:

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_________. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. Coleção: Experiência e Sentido.


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Ban Zhao