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A meditação como impulso dionisíaco e apolíneo na estética existencial de Friedrich Nietzsche

ROBERTA SOARES DE MELO (UERJ)

betafilosofia@gmail.com

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Tese de doutorado

Orientadora: Maria Helena Lisboa da Cunha

Data prevista para a defesa: 29/11/2024



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Na pesquisa em questão pretendo desenvolver uma justificativa possível para a concepção da vida como fenômeno estético em Nietzsche através da prática meditativa realizada em diversas tradições orientais.


Partindo do olhar do Ocidente sobre a noção de um “eu” que se estende pela ideia de um ego e de uma consciência bem determinado, o projeto ocidental pensa uma identidade determinada por um “eu” atômico e independente. Ao mesmo tempo, constrói uma moral fixa conectada fortemente à definição desse “eu”, substância imóvel e isolada. A união desses dois pontos - “eu” isolado e moral fixa - foi capaz de produzir uma das tendências mais deletérias da condição humana – a permanente insatisfação com o que se é; e mais ainda, a não aceitação do que se foi.


Nietzsche apresenta ao longo de sua filosofia uma perspectiva que se afasta tanto do modelo de moral fixa como de um “eu” permanente e único. Apesar de perspectivas diferentes, a Filosofia Oriental, sobretudo a indiana, reconhece o sentido do “eu” também como algo não fixado, em um sentido que ultrapassa o sujeito consciente e delimitado. O “eu” aqui é afirmado não como algo isolado, mas em conexão. Entende-se que é importante uma correção na percepção do “eu”, pois as distorções decorrentes de uma compreensão falha podem se tornar fontes de contaminação na maneira como vemos o mundo e a nós mesmos. Na prática, isso constitui em abandonarmos a instância do “eu” e do “meu” para que aquilo que é objeto de manipulação torne-se o que se é, ou seja, mais um fenômeno que compõe a vida.


Do lado Ocidental, Nietzsche traz à tona a questão do “tornar-se quem se é” e para compreendermos isso podemos partir da definição nietzscheana de vida como um fenômeno estético. Segundo ele, o mundo e a própria existência só podem ser justificados como um fenômeno estético. Com isso, Nietzsche substitui uma ótica moral sobre a vida para dar sentido à existência pela ótica de uma estética existencial fazendo uso da simbologia dos deuses Apolo e Dioniso.


Na perspectiva da estética existencial nietzscheana, apolíneo e dionisíaco se integram formando dois aspectos vitais pelos quais o ser humano é modelado: o impulso apolíneo, baseado em critérios de harmonia e perfeição formal, vincula-se a uma necessidade humana de sobriedade, equilíbrio de conduta, respeito pela ordem pública. E o impulso dionisíaco, negador de qualquer limite, conduz à exaltação desmedida nas ações, à supressão da individualidade pelo êxtase, à embriaguez como libertação existencial. Para ele, Dioníso e Apolo são, respectivamente, símbolos de vida e de morte, força vital e racionalidade, saúde e doença, instinto e intelecto, escuridão e luz, devir e imobilidade, embriaguez e sonho. Diante dessa leitura nietzscheana podemos identificar o papel de uma dupla de impulsos que não lutam contra si, mas se complementam no indivíduo humano. Essa dupla relação foi muito bem explorada por Nietzsche na junção de uma ordem estabelecida pela razão, que configura a busca por um princípio lógico, com a arte como possibilidade de liberação e equilíbrio do instintivo inconsciente humano.


A meditação, por sua vez, pensada a partir da respiração, indica que em cada ser humano há um duplo ritmo respiratório. Um ligado à vida de relação ou consciente e o outro à atividade vegetativa e inconsciente. A primeira, que todos conhecem, é superficial e a outra, profunda. Aquela se liga a atividades conscientes, características do eu superficial e consciente e a outra é própria dos mecanismos inconscientes e involuntários, ligada, portanto, ao “eu” profundo. A integração que se atinge no plano respiratório é estendida ao plano psíquico e a sua prática, levada em última instância a uma meditação na ação, pode trazer os mesmos efeitos da dupla relação de impulsos apresentada por Nietzsche.


Considerando as análises do conceito de apolíneo e dionisíaco em Nietzsche e o princípio da meditação, pretendo justificar a meditação como um mecanismo capaz de executar os dois impulsos, apolínio e dionisíaco. A proposta é estabelecer, através do corpo, um equilíbrio do indivíduo humano que a essa prática se conduzir criteriosamente.


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