A tecnologia como forma de biopolítica na obra de Hannah Arendt

LARA EMANUELE DA LUZ (PUCPR)

lara.emanuele13@gmail.com

http://lattes.cnpq.br/8383449817767700

Tese de doutorado (orientador: Cesar Candiotto)

Data prevista de defesa: 01/03/2022


Fonte da imagem: https://www.jornalcruzeiro.com.br/cultura/cine-vagao-exibe-o-classico-tempos-modernos/


Hannah Arendt, teórica política que viveu durante o século XX, no início de sua obra “A Condição Humana” [1958]/(2010), afirma que devemos “pensar o que estamos fazendo”. A partir deste fio condutor, ela propõe reflexões sobre a política, sobre o regime totalitário, sobre a tecnologia, sobre a condição humana, etc., que têm como objetivo diagnosticar o que acontece na modernidade. Nesses termos, a pesquisa tem como objetivo compreender a tecnologia como forma de biopolítica na obra de Hannah Arendt. Para tanto, é necessário o entendimento de algo que chamo de a dissolução do homo faber no animal laborans. Segundo Arendt, o ser humano é constituído por três facetas: pelo homem de ação, homem político por excelência e o único capaz de agir de modo autêntico e espontâneo; pelo homo faber, indivíduo fabricante de objetos e edificante do mundo; e pelo animal laborans, cuidador apenas de seu próprio metabolismo, iniciado com o seu nascimento, e terminado com sua morte.

Com a modernidade, Arendt compreende haver uma inversão dessas facetas. O homem de ação deveria ser o mais elevado; porém, com o decorrer da história, o homo faber ganha espaço, até, finalmente, com o final da modernidade, o animal laborans atingir seu ápice. Nessas inversões, é possível identificar a dissolução de uma faceta em outra, até chegar no animal laborans, que produz e imediatamente consome os objetos produzidos. Não há mais a durabilidade da produção dos objetos fabricados pelo homo faber, mas há uma racionalidade de produção e consumo incessantes.

A partir dessa dissolução, é possível identificar o animal laborans enquanto mero produtor e consumidor incessante. Isso acontece devido à evolução da tecnologia. O ser humano pensa ser capaz de dominá-la, porém, perde o domínio, uma vez que ele é um mero trabalhador. A política já não é a capacidade por excelência, porque o que passa a dominar a modernidade é, então, o trabalho. Assim, a tecnologia serve para “capturar” o ser humano, como Arendt afirma em A Condição Humana: “a moderna motorização parecia um processo de mutação biológica na qual os corpos humanos começam gradualmente a ser revestidos por uma carapaça de aço” (ARENDT, 2010, p. 403 e 404).

Com a dissolução do homem de ação no homo faber, e, posteriormente, no animal laborans, a política perde espaço. O homem de ação ausenta-se de si. A racionalidade tecnológica impõe uma lógica de mercado em que é necessário trabalhar e consumir constantemente. Portanto, a vida do animal laborans, a mera vida, destituída de política vem à tona e ganha posição de destaque. Essa vida desprotegida politicamente está exposta e serve de base para uma reflexão da biopolítica na obra arendtiana, apesar de a politóloga nunca ter utilizado tal termo.


Bibliografia referida

ARENDT, H. A Condição Humana. 11ª ed. São Paulo: Forense Universitária, 2010.

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