As assimetrias de gênero e o encolhimento acadêmico das mulheres em tempos de pandemia



Juliana Pantoja Machado

Mestranda em Direito, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (CESUPA). Integrante do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito – FilPED.


Loiane Prado Verbicaro

Professora da Faculdade de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Coordenadora do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito – FilPED.


Em tempos de remodulação das formas de opressão com o avanço do capitalismo financeirizado e suas consequências deletérias à proteção social e à realização de uma agenda igualitária, as assimetrias de gênero avançam, colocando as mulheres à disposição do sistema capitalista de maneira brutal, especialmente no contexto de uma pandemia. Desde a caça as bruxas, como nos alertou Federici no livro “Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva”, a divisão social entre mulheres e homens foi desenhada para que mulheres não prosperassem, limitadas a crescerem apenas dentro do isolamento de gigantescos muros do campo doméstico, permeado pelos interesses na sua capacidade de reprodução da vida e da mão de obra.


Encolher as mulheres tem sido uma abordagem metodológica do sistema capitalista desde o seu nascimento. Federici nos mostrou que o isolamento de mulheres, de acordo com a história medieval, foi pensado para castrar a potência feminina que dava a elas um poder político essencial. Mulheres no poder despertam à lógica dominante um medo visceral. No contexto brasileiro, pensar esse medo o traz associado necessariamente ao racismo. Mulheres negras potentes causam verdadeiros pesadelos para aqueles que buscam a manutenção da estrutura hegemônica e segregacionista.


Por consequência, a manutenção social depende do trabalho exaustivo e não reconhecido de mulheres, historicamente educadas a existirem enquanto ferramenta, socializadas para movimentarem a economia do cuidado. São, portanto, ferramentas de afazeres do lar, satisfação sexual, doação e exploração. Instrumentos disponíveis a arcar com os custos que os homens não estão dispostos a assumir. Sustentam uma sociedade que as precariza de toda as formas disponíveis, principalmente as mulheres cujas vulnerabilidades se misturam com demais formas de opressão.


Por essa razão, o método de construção do campo público/político e, consequentemente, também acadêmico, alimenta o desaparecimento das mulheres em tempos de crise. Uma ode ao célebre e conhecido manifesto de Beauvoir sobre a sempre presente possibilidade de desmonte das conquistas das mulheres: “[...] basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”. Acrescentemos à essa crítica também as oportunidades. Não apenas os direitos positivamente conquistados estremecem, as oportunidades de pertencimento e participação social, acadêmica e pública também são usurpadas das mulheres, sempre que possível.


Na vivência pandêmica brasileira, os dados disponibilizados por Candido e Campos (2020) demonstram o percentual anormalmente mais baixo de submissão de artigos acadêmicos assinados por mulheres para este período. Apenas 28% dos textos pertencem a autoras. No mesmo caminho, o estudo feito pelo projeto brasileiro Parent in Science mostrou que 52% das mulheres pesquisadoras com filhos não conseguiram concluir seus artigos, além disso, a produção acadêmica feminina caiu 70% do início do ano até o momento em que a pandemia se instalou. Quando analisamos através da perspectiva também de raça, de forma não surpreendente esses dados são ainda mais desiguais, demonstrando em tal pesquisa que entre aqueles que estão conseguindo produzir de forma compatível com a qual faziam antes da pandemia apenas 8,1% são mulheres negras e 3,4% mulheres negras mães. Dos dados analisados, detém-se ainda que enquanto 65,3% de homens com filhos conseguiram submeter artigos científicos como o planejado, 47,4% das mulheres deram a mesma resposta. Além disso, 70,4% dos homens brancos entregaram trabalhos, e ao mesmo tempo, 47,3% das mulheres negras submeteram.


Essa queda na produção científica de mulheres no Brasil traz consigo a representação de todos os obstáculos impostos à participação acadêmica. Há, por consequência, o apagamento das formulações, leituras, estratégias e percepções dessas mulheres. Nesse sentido, Kilomba (2019, p. 50) reforça que “[...] o centro acadêmico não é um local neutro.”, uma vez que funcionaria como um repositório de privilégios, colocando mulheres negras a sua margem. Collins (2019, p. 131) disserta ainda sobre as condições de “isolamento e obscuridade” em que muitas intelectuais afro-americanas trabalharam, sem reconhecimento.


Chandra Mohanty (1991) nos alertou ainda para as práticas acadêmicas de colonização discursiva na América Latina, cuja universalização de epistemologias - no seu estudo sobretudo as feministas coloniais - tendem a impulsionar, como uma produção monolítica dos assuntos estudados. Na visão da autora, o privilégio epistêmico existe no sentido de admitir uma escala de participação baseada no acesso histórico e injusto de uns em detrimento de outros.


Nesse cenário em que mulheres são a ponta expoente da subjugação, o encolhimento durante a pandemia é um resultado do círculo de exclusões materiais e de oportunidade que marcam a existência das mulheres, sobretudo aquelas que carregam as intersecções das formas de opressões como as negras, índias, periféricas, LGBTQI+ e transexuais. Afinal, como já nos instigou Spivak (2010) – ao questionar a legitimidade de ocupação do discurso apenas pelos sujeitos dominantes – pode o subalterno falar?


Lembremos que para a autora, o subalterno é quem pertence “[...] às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 12). Considerando que a estruturação do conhecimento foi sistematicamente pensada para a exclusão feminina, tal qual o espaço público – pois o conhecimento é poder e como já sabemos, dar poder às mulheres é um perigo na sociedade patriarcal – parece razoável perceber as mulheres como subalternas. Nessa perspectiva, poderiam, então, as mulheres produzir academicamente no período de pandemia?


Os números respondem um sonoro e contínuo não! Na busca pelas justificativas tropeçamos na representação ideológica da cultura patriarcal, com as já conhecidas amarras que por meios diversos priva mulheres de uma participação social ativa, universaliza os sujeitos sociais a partir de perspectivas discriminatórias e marginaliza a produção intelectual daqueles que estão fora do circuito de dominação.


Como sustenta Tiburi (2019, p. 59) “[...] qualquer sistema de privilégios é feito para que uns usufruam deles enquanto outros devem trabalhar para que o sistema seja mantido”. Nessa perspectiva, sobra às mulheres, por imposição, manter o sistema através dos estereótipos do cuidado – como norte universal – edificado em bases opostas à parentalidade revolucionária sugerida por Hooks (2019, p. 209), em que haveria uma divisão equitativa das necessidades de cuidado com os filhos. Ou mesmo, uma divisão familiar equitativa do cuidado de forma mais abrangente, levando em consideração que essa tarefa é imposta responsabilizando as mulheres pelo cuidado para além da sua prole.


De todo modo, não apenas o cuidado figura nessa perspectiva de encolhimento da participação feminina, a legitimidade, o questionamento da capacidade, do pertencimento e a validação do conhecimento também funcionam como instrumentos de controle dos espaços públicos, proporcionando sempre aos mesmos atores o protagonismo em disputa, marcando assim, relações desiguais de poder. O campo acadêmico reflete, então, a incapacidade social de se pluralizar as elaborações científicas, pois centraliza a sua construção por meio do reflexo social desigual vivido na sociedade, muito embora, seja papel desse meio específico repensar essa estruturação e promover as críticas necessárias para a sua desconstrução.


Não soa como novidade, portanto, o fato de termos sido achatadas enquanto curva produtiva, tal qual a curva de desenvolvimento da epidemia deveria ter sido, através do isolamento. Porém, na nossa realidade, a única curva que realmente cedeu foi a da nossa produção formal. Informalmente permanecemos aqui, produzindo para o mundo capitalista através do trabalho doméstico não valorizado, através da lógica do cuidado e de toda a alimentação ao sistema dos privilégios, do qual não fazemos parte de diferentes formas e o qual sustentamos sem reconhecimento. A participação política/pública das mulheres nunca foi pequena, mas sempre foi encolhida por apagamentos estratégicos que perpassam pelo campo acadêmico, cujo desenvolvimento não tem lugar de acolhimento para mulheres em sua pluralidade, como as mães, negras, índias, LGBTGI+, transexuais e periféricas.


REFERÊNCIAS

CANDIDO, Marcia Rangel; CAMPOS, Luiz Augusto. Pandemia reduz submissões de artigos acadêmicos assinados por mulheres. Portal Geledés, São Paulo, 16 de mai. 2020. Disponível em: < https://www.geledes.org.br/pandemia-reduz-submissoes-de-artigos-academicos-assinados-por-mulheres/>. Acesso em 19 de mai. 2020.

COLLINS, Patricia Hills. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

GARCIA, Janaina. Produção científica de mulheres despenca na pandemia – de homens bem menos. Portal Uol, São Paulo, 26 de mai, 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/05/26/pandemia-pode-acentuar-disparidade-entre-homens-e-mulheres-na-ciencia.htm. Acesso em 21 dez. 2020.

HOOKS, Bell. Teoria feminista: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019.

KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: memórias de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019.

MOHANTY, Chandra Talpade. Under western eyes: feminist scholarship and colonial discourse. IN: MOHANTY, Chandra Talpade; RUSSO, Ann; TORRES, Lourdes (Eds.). Third World women and politics of feminism. Indiana: Indiana University Press, 1991.

PARENT IN SCIENCE. Produtividade acadêmica durante a pandemia: efeitos de gênero, raça e parentalidade. Disponível em: https://327b604e-5cf4-492b-910b-e35e2bc67511.filesusr.com/ugd/0b341b_81cd8390d0f94bfd8fcd17ee6f29bc0e.pdf?index=true. Acesso em 22 dez. 2020.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar?. Trad. Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.

TIBURI, Marcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. 10 ed. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2019.

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