Construção do gênero em Freud e Butler: entre bissexualidade originária e identidade de gênero

PETRA BASTONE (UFRJ)

petra.bastone@hotmail.com

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0464150571138825

Tese de doutorado

Data Prevista de defesa: 05/08/2024




O caminho de Freud, no que concerne ao psiquismo feminino, foi árduo e repleto de incertezas. Muitas foram as hipóteses freudianas sobre a sexualidade feminina, a formação da feminilidade e a passagem da menina pelo complexo de Édipo. Ele afirma que a anatomia é o destino e, ao mesmo tempo, que ninguém é inteiramente feminino ou masculino. Como se dão os processos de identificação na teoria freudiana? Como as disposições femininas e masculinas influenciam na consolidação do gênero? Quais os possíveis destinos para uma mulher na medida em que ela recusa sua feminilidade? E para um homem quando recusa sua masculinidade? Para tentar uma conversa entre psicanálise e teoria queer, introduzirei o estudo de Problemas de gênero. Feminismo e Subversão da Identidade (2017), originalmente publicado em 1990, principal obra da autora americana Judith Butler. Com a análise da obra, irei expor, além da crítica que a autora reserva à psicanálise, o que é e como se dá a construção do gênero no indivíduo para, então, tratar da construção do feminino em ambas as teorias.

Na seção denominada "Freud e a melancolia de gênero", da obra mencionada, Judith Butler expõe as identificações que ocorrem mediante a perda de um objeto amado na melancolia. Com isso, a autora afirma que não é apenas o caráter do indivíduo que está sendo construído por meio de tais identificações, mas também a aquisição de uma identidade de gênero. Segundo Butler, apreendemos melhor a ideia da construção da identidade de gênero se tivermos em vista que o tabu do incesto é a primeira perda que o ser humano vive. Além disso, é também a primeira identificação com o objeto perdido pela qual o indivíduo passa. Nesse caso, ele internaliza o objeto do tabu. Em uma relação heterossexual, o curso “positivo” do Édipo é que a menina se identifique com a mãe e o menino com o pai. Para Butler, o problema reside no fato de que, quando Freud postula a bissexualidade primária, ele admite que existem desejo e identificações com ambos os sexos. Porém, não é isso que ocorre. Para o menino, deve haver duas escolhas: entre os objetos e entre as duas predisposições sexuais, femininas e masculinas. Se o menino escolhe a predisposição feminina, ele estaria assumindo uma conduta passiva e bastante repudiada.

A feminilidade na obra freudiana é, por diversas vezes, um objeto de repulsa. Seria o pai, por isso, no caso do menino, punitivo ou objeto de desejo? É pelo repúdio à mãe que Freud assegura se instaurar a consolidação de gênero na criança. Ao renunciar à mãe como objeto de amor, o menino a internaliza em si através de traços de identificação. Com isso, juntamente com a disposição heterossexual, ele estabelece também disposições femininas. Mas, no interior da teoria freudiana, qual é a origem das predisposições femininas e masculinas? Quais seriam as consequências das identificações ocorridas? Seria a bissexualidade, na verdade, uma série de internalizações das perdas de objetos de amor? Acaso haveria, no interior da obra freudiana, possíveis encaminhamentos para tais questionamentos?

Para Freud, o processo de construção da mulher é um caminho de descobertas, rejeições e opressões. A mulher, tão logo descobre que não possui um pênis, descobre também sua inferioridade, é condenada a viver uma inveja do órgão masculino que pode, como consequência, levá-la a rejeitar sua feminilidade. No que concerne ao seu prazer, a mulher deve abandonar o prazer clitoridiano para que possa dar lugar à vagina (órgão que é responsável pelo prazer feminino e pela reprodução). A teoria freudiana é influenciada por uma matriz heterossexual do desejo, como afirma Butler. Interessa-me investigar como se dá a aquisição de gênero no interior da obra de Freud e analisar a crítica que a autora endereça à psicanálise. Se, para Freud (1924), “a anatomia é o destino”, acaso seria possível, a partir de seu próprio pensamento, pensar a identidade de gênero de um modo tal que ela não se enraíze na anatomia do indivíduo?

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução: Nuno Quincas. Lisboa: Orfeu Negro, 2017.


FREUD, Sigmund. "A dissolução do complexo de Édipo". (J. Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIX, pp. 215-226). Rio de Janeiro: Imago, 1974 (Originalmente publicado em 1924)



A coluna Em curso divulga as pesquisas de pós-graduandas na filosofia para contribuir para a visibilidade das pesquisas de filósofas no Brasil. Quer publicar a sua pesquisa? Basta preencher o formulário. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #emcursofilósofas #filosofasbrasil #temadatese #mulhreresnapesquisaemcurso #autora


191 visualizações

Quer divulgar uma notícia sobre mulheres e filosofia? Escreva para noticias.filosofas@gmail.com

Dúvidas? Escreva para filosofas.brasil@gmail.com

©2019 por Rede Brasileira de Mulheres Filósofas