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Crise climática e desigualdade de gênero: e as filósofas com isso?

Atualizado: Fev 27

Nos últimos anos, as mudanças climáticas têm se acelerado a velocidades estonteantes.

Como se sabe, o discurso público sobre este fato é terreno de diversas disputas que variam desde a contestação dos fatos por parte de negacionistas espalhados (mas nem sempre desarticulados) pelo mundo, até a discussão sobre quanto tempo temos para agir de modo efetivo contra o colapso e quais são as melhores vias de ação individual, mas sobretudo coletiva. São inúmeros os aspectos sob os quais a crise climática pode ser analisada, muitos dos quais podem e devem ser inter-relacionados para que se possa compreender e (re)agir diante do colapso: aspectos éticos, econômicos, políticos, psicológicos, sociais, antropológicos etc..


Do ponto de vista da filosofia, é certo que existem muitos trabalhos sobre e em torno de temas e problemas relacionados às experiências humanas em meio ao avanço da exploração de recursos naturais, e da destruição mesma de nosso planeta. No Brasil, talvez o filósofo mais estudado no campo da ética ambiental ainda seja o alemão Hans Jonas.

De outra parte, vale destacar o recente trabalho da filósofa brasileira Déborah Danowski, que publicou, em coautoria com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, um livro seminal intitulado Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins (Desterro-Florianópolis: Cultura e Barbárie/Instituto Socioambiental, 2014).


Ora, nesse contexto em que se explora a impossibilidade de futuro para a vida humana e não humana no planeta, um dos aspectos que têm sido destacados diz respeito à desigualdade de gênero. Em vários momentos e por parte de diferentes setores da Organização das Nações Unidas, o fato de que os efeitos da crise climática são indissociáveis de condições sociais – e, portanto, da desigualdade de gênero – está reconhecido. Um par de textos sobre o tópico pode ser lido aqui (em português) e aqui (em inglês).


No âmbito da filosofia que fazemos no Brasil, colegas têm desenvolvido trabalhos na temática do ecofeminismo, como se pode consultar aqui e aqui (para referir a apenas dois dos trabalhos apresentados no Seminário Internacional Fazendo Gênero de 2017!). Entretanto, cremos poder afirmar que o ponto não tem sido suficientemente discutido entre nós, filósofas e filósofos do Brasil. Especialmente se pensarmos não somente em termos de desenvolvimentos conceituais e teóricos – de pesquisa – , mas em termos de ações de ensino e extensão: o que nós, filósofas e filósofos teoricamente preocupados com a crise ambiental, estamos fazendo?


Há pouco tempo descobrimos* por meio do Twitter uma iniciativa que pode ser inspiradora para aqueles que querem agir. É o grupo Philosophers for Sustainability – Filósofos/as pela Sustentabilidade. De acordo com a breve apresentação que se encontra no site, trata-se de


um grupo internacional de filósofos que visa incentivar nossa profissão a tomar iniciativas diante das mudanças climáticas e pela sustentabilidade ambiental. Concordamos com o consenso científico atual de que a mudança climática é real, causada em grande parte pela atividade humana, já tendo efeitos significativos, impactando desproporcionalmente muitos dos grupos sub-representados na filosofia e prestes a piorar dramaticamente em nossas vidas. Acreditamos que todos têm um papel a desempenhar no combate às mudanças climáticas e na garantia de um futuro sustentável. E acreditamos que os filósofos, apesar de nossas pegadas de carbono desproporcionalmente grandes, estão bem posicionados para pensar, ensinar e tomar iniciativas efetivas com respeito às complexas questões ambientais que temos que enfrentar agora. Estamos tentando integrar questões ambientais em nosso trabalho como filósofos, não apenas em nossa pesquisa, mas, mais imediatamente, em uma ampla gama de cursos de filosofia e em nosso serviço à profissão.


Tendo entrado em contato com os co-fundadores, Rebecca Millsop (da University of Rhode Island) e Eugene Chislenko (da Temple University), manifestamos nosso interesse em auxiliar na divulgação da iniciativa nas redes sociais e em nossos locais de trabalho, na Alemanha e no Brasil (e em mais países de Língua Portuguesa). Nossa mensagem foi bastante bem recebida, sobretudo porque a equipe que coordena o grupo tem muito interesse em saber mais sobre a situação em nosso país (e na América Latina – sabemos que há pelo menos uma colega argentina que demonstrou interesse em colaborar). Eles querem ouvir sobre nossas ideias, experiências, iniciativas e sugestões sobre como ampliar e qualificar o projeto ao redor do mundo.


Nossa primeira ação está sendo a divulgação do projeto no site da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas.


Um segundo passo foi a proposição de uma tradução da seção “Sustentabilidade” do Guia de Boas Práticas da APA (a American Philosophical Association), que foi elaborado pelo grupo. Aliás, vale muito a pena ler as demais seções do Guia, em especial a segunda, que é sobre as “Formas contemporâneas de viés e discriminação”.


Quem sabe se a gente se articula para construção de um Guia similar feito por brasileiros? E quem sabe alguém se anima a propor alguma modalidade de discussão sobre o tema Sustentabilidade e Gênero no próximo encontro da ANPOF? (Pela sondagem que realizamos, a proposta seria muito bem-vinda!)


Gostaríamos então de convidar a todas e todos para considerar a possibilidade de dialogar com essa iniciativa dos colegas estadunidenses – é possível torna-se membro do grupo preenchendo este formulário – mas, sobretudo, para contar-nos das iniciativas que já realizam em seus locais de vida e trabalho, ou das ideias que porventura alimentem acerca dessa tão importante empreitada.


*Esta postagem foi escrita a quatro mãos por Maria Eugênia Zanchet, brasileira radicada na Alemanha, onde atualmente é doutoranda do

Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Bayreuth e por mim

(que atualmente estou passando

um ano sabático na França).





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