O apelo à vulnerabilidade como alternativa à racionalidade neoliberal no pensamento de J. Butler

LÍLIAN GABRIELA RODRIGUES LOBATO (UFBA)

http://lattes.cnpq.br/0868008129362937

lilian.g.r.lobato@gmail.com

Dissertação de mestrado

Orientadora: Loiane Prado Verbicaro; Coorientadora: Juliana Aggio

Data prevista de defesa: 01/03/2023



Fonte da imagem: https://www.redebrasilatual.com.br/wp-content/uploads/2018/03/dc9c29bc-166f-4cc7-9e1b-523cdd393a47.jpeg



O estudo pretende investigar como o apelo à vulnerabilidade pode constituir-se como recurso ético-político em direção a novas ontologias corporais orientadas pelo direito de todos os corpos coexistirem em sua pluralidade e singularidade. O fio condutor será as reflexões de Judith Butler em torno do luto como descritor da inteligibilidade da vida e sobre as responsabilidades globais que a nossa interdependência primordial nos impõe para que a vida seja possível de ser vivida. Para alcance do referido objetivo, pretende-se evidenciar as ambivalências que atravessam a abertura do ser humano ao mundo e fundamentam, simultaneamente, as condições de sua emergência como sujeito e de seu assujeitamento, mas que também criam condições para uma alteridade radical, uma vez que, nosso corpo é exposto por definição e nossa sobrevivência não depende unicamente de nós mesmos, mas, sobretudo, da recepção do mundo ao nosso corpo. A filósofa destaca, no entanto, que a perspectiva relacional não seria suficiente para expressar como não apenas somos constituídos pelo outro e, por isso, aponta para a necessidade de formulação de outros enunciados linguísticos capazes de expressar como há tanto do outro em nós que da mesma forma que nos fazemos, também nos desfazemos nesse encontro.

Essa disposição de nós mesmos fora de nós conduziria a impossibilidade de discernir com clareza os limites entre o eu e o outro e, portanto, de conhecer inteiramente a si mesmo, tornando-nos mais opacos. No sentido inverso das teorias éticas clássicas que pressupõe o conhecimento de si como condição necessária para a ação moral, Butler identifica que a incognoscibilidade do sujeito poderia atuar na reconfiguração dos vínculos ético-políticos por nos confrontar com nossa condição de despossessão, bem como para a necessidade da proteção dos elos de interdependência que tornam a vida possível de ser vivida. Nesse sentido, a atualidade e relevância desta pesquisa se encontra na recusa do argumento neoliberal da moral da responsabilização por meio do reconhecimento de nossa interdependência. É importante destacar que o reconhecimento de que a vulnerabilidade emerge com a própria vida não dilui as diferenças, desigualdades e hierarquias históricas que tornam determinadas vidas mais suscetíveis a violência do que outras. Apesar de inerente a todos nós, Butler observa, sobretudo, em “Vida precária” e “Quadros de guerra” que a vulnerabilidade se distribui desigualmente pelos corpos ao redor do mundo. Mulheres, negros, pobres, indígenas, pessoas encarceradas, LGBTQIA+, populações de países alvos do neocolonialismo têm suas vidas mais precarizadas e as violências que experimentam são facilmente justificadas eticamente. Raça, gênero, orientação sexual, situação geopolítica são, portanto, alguns dos marcadores sociais que operam na produção de enquadramentos que delimitam o que se compreende por vidas vivíveis e mortes enlutáveis. A filósofa ressalta que apesar das molduras pelas quais apreendemos a vida pretenderem-se estabilizadas, na verdade, encontram-se politicamente saturadas, eivadas de contradições e limites internos que as conduzem a um autorrompimento, uma vez que, a moldura não determina de fato que pretende ilustrar e a vida excede as condições normativas de reconhecimento.

Trata-se, portanto, de identificar o que torna uma vida inteligível, evidenciar como os esquemas raciais, de gênero, classe, etc. operam para decidir quais vulnerabilidades e sofrimentos nos identificamos e acolhemos como nossos e quais nos distanciamos. Em outras palavras, trata-se de compreender os processos de produção de enquadramento que instituem quem são os sujeitos de direito, portadores da condição de vidas vivíveis e mortes enlutáveis e quem, ao contrário, nos acostumamos a naturalizar a morte. É neste ponto que Butler aponta o luto como descritor da inteligibilidade da vida, pois, como a filósofa ressalta, se o valor da vida humana reside na sua capacidade de enlutar, então essas perdas que não são sentidas, não são choradas, sequer são reconhecidas e sequer ganham o estatuto de vida. E, mesmo quando se encontram vivas, não são vidas, estariam reduzidas a um resto de vida, suspenso e espectral. (BUTLER, 2019c). Por isso, para que uma morte seja passível de luto, é necessário que antes ela tenha sido considerada uma vida vivível.

Em face desse contexto de indução de precariedade da vida, Butler reflete sobre as possibilidades de reconfiguração dos esquemas de inteligibilidade que definem quem são os sujeitos de direito, aqueles que tem direito a viver dignamente. Não se trata, porém, de ampliar o direito a sobrevivência com base em critérios de identificação que incluem na mesma proporção em que produzem exclusão, mas sim de assentar as normas de reconhecimento em um fundamento negativo: a vulnerabilidade - traço constitutivo da condição humana e condição de abertura para a alteridade. A filósofa sugere ainda que a experiência de estar fora de si que experimentamos no luto, esse sentimento de despossesão que nos leva a refletirmos sobre o que resta de nós após a perda do outro nos confrontaria com a nossa própria vulnerabilidade e poderia mobilizar um esforço produtivo para proteção dos elos de dependência. Butler (2020) aposta ainda que por meio da percepção de nossa vulnerabilidade e interdependência primordial poderíamos acolher a vulnerabilidade do outro como a nossa própria vulnerabilidade, independentemente de critérios moralizadores. A hipótese levantada nesta pesquisa não vislumbra um horizonte com um desfecho seguro, mas nos exige, como Butler propõe em “The force of non-violence” um esforço contrarrealista de alargamento dos limites que delineiam aquilo que entendemos como real e possível, nos reorientando na construção de narrativas que não aspire a negação e eliminação do outro, mas que acolha nossa dependência fundamental, radicalizando o princípio de igualdade em direção a responsabilidade coletiva.


Referências bibliográficas

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2019a.

_____. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2019b.

_____. The force of Nonviolence: na ethical-political bind. London: Verso, 2020.



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