Tabu e crença: o lugar da proibição do incesto e da religião na construção do psiquismo em Freud

ISABELA BETINA FERREIRA (UFLA)

isabela.ferreira3@estudante.ufla.br

http://lattes.cnpq.br/2502649893699655

Dissertação de mestrado

Data prevista de defesa:11/06/2021



O objetivo dessa dissertação é a compreensão da importância do tabu do incesto para a construção do psiquismo, segundo a teoria freudiana, e, consequentemente, a desvinculação de uma suposta origem religiosa desse tabu. Essa associação, em nossa cultura predominante, ocorre devido às passagens bíblicas que condenam as práticas incestuosas, como pode ser observado no terceiro livro da Bíblia hebraica e do Antigo Testamento cristão, intitulado de Levítico.


Considerando-se que o Antigo Testamento foi escrito por volta de 1500 a.c., é possível inferir que a proibição do incesto seria um dos pilares estruturantes da cultura ocidental. Essa hipótese pode ser encontrada em obras freudianas, como, por exemplo, em Totem e Tabu, escrita em 1913, na qual o autor investiga o tabu e o totemismo, criando, através de estudos antropológicos, um mito científico (o mito da horda primeva) de como teria sido originada a primeira constituição de civilização e as primeiras religiões. Na mesma obra, Freud acaba estabelecendo uma ligação entre cultura e psicanálise a partir da articulação dos conceitos de sentimento de culpa e tabu do incesto, ambos denominados pelo autor como constituintes da civilização e responsáveis por sua manutenção. Portanto, a partir dessa obra de 1913 é possível observar que, na teoria freudiana, os conceitos de incesto, religião e cultura parecem estar estritamente interligados, ficando subentendido, de certa forma, que o tabu do incesto seria uma construção cultural.


Segundo Razon (2007), para Freud, existem dois tabus que são estruturantes, tanto para a constituição do indivíduo, quanto da cultura: o interdito do assassinato (e do canibalismo) e a proibição do incesto. O que explica o lugar de extrema importância de ambos os tabus para a construção dos indivíduos e de seus grupos sociais é o fato de que, primeiramente, para que algo venha a ser instituído como um tabu deve ser fundamentalmente desejado pelos indivíduos, ou seja, ambos os desejos (o assassinato/canibalismo e o incesto) são provenientes das pulsões, e, em 1920 ao escrever Além do princípio do prazer, Freud irá supor que esses desejos são originários da pulsão de morte, já que se trata de pulsões que podem colocar em risco a vida em cultura.


Contudo, como o tabu do incesto pode ter sua origem na cultura sendo, ao mesmo tempo, a própria base mantenedora dela? Tal conexão, se estabelecida desse modo, não produziria uma petição de princípio? Quer dizer, na mesma medida em que a cultura fosse remetida a esse tabu, ele, por sua vez, seria remetido à cultura? E se o tabu do incesto, como muitos acreditam, realmente tivesse sua origem na religião? Assim sendo, se em algum momento da história, a religião viesse a ser extinguida, o tabu do incesto acabaria também?


Freud escreve uma obra em 1927, O futuro de uma ilusão, na qual afirma acreditar na possibilidade de um desvencilhamento entre os homens e a religião, mas sem que isso acarrete a destruição da cultura. Em sua argumentação, o autor aborda a insatisfação dos indivíduos com a cultura; insatisfação decorrente das inúmeras renúncias pulsionais que a vida em cultura exige. Em virtude dessas renúncias pulsionais, segundo Freud, os indivíduos possuem atributos psíquicos que alvejam defender a cultura e indenizar os homens pelos sacrifícios feitos em seu nome. Como exemplo desses patrimônios temos o Supereu, o narcisismo, a arte e as ilusões (ou ideias religiosas).


Para Freud, a religião seria o patrimônio cultural com mais peso na vida dos indivíduos, por ter a função de desvendar os mistérios do universo e por oferecer a ilusão de recompensas pelas renúncias pulsionais. Contudo, na realidade, ela é também o patrimônio que possui a base mais frágil. O autor pretende mostrar que manter a postura atual da sociedade em relação à religião pode ser mais perigoso para a cultura do que abandoná-la. Claro que Freud admite a dificuldade que seria retirar a doutrina religiosa da vida dos indivíduos; porém, ele também é otimista em acreditar que com os avanços da ciência, chegaria o momento em que as falhas irracionais cometidas pela religião seriam percebidas.


Como vimos, a proibição do incesto é uma das bases para se viver em cultura e é comum assumir-se que essa proibição seja de cunho religioso. A cultura teria, assim, origem a partir de um fato que favorece a religião. Contudo, como mostra em O futuro de uma ilusão, Freud aposta que é possível nos desvencilharmos da religião, preservando a cultura e nos permite chegar ao problema que será o centro desta pesquisa: a proibição do incesto poderia, nos termos do próprio Freud, se articular no psiquismo sem implicar na crença religiosa?



Bibliografia

Freud, S. (1913). “Totem e Tabu”. Em: Freud – Obras completas (1912-1914) Vol. 11. Companhia da Letras, 2012.

Freud, S. (1920). “Além do princípio do prazer”. Em: Freud – Obras completas (1917-1920) Vol. 14. Companhia da Letras, 2010.

Freud, S. (1927). “O futuro de uma ilusão”. Em: Freud – Obras completas (1926-1929) Vol. 17. Companhia da Letras, 2014.

Freud, S. (1930). “O mal-estar na civilização”. Em: Freud – Obras completas (1930-1936) Vol. 18. Companhia da Letras, 2010.

Mezan, R. (1985). Freud, pensador da cultura. 7ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Razon, Laure. (2007). Enigma do incesto: da fantasia à realidade. Rio de janeiro: Cia de Freud, 2007.


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