A natureza-cultura em construção: histórias de filosofia e ciência sobre corpos e feminismos

Atualizado: 29 de mai.

MARIA HELENA SILVA SOARES (UERJ)

http://lattes.cnpq.br/5226143244188576

helenastraub@gmail.com

Tese de Doutorado

Orientador: Antonio Augusto Videira

Data de defesa: 16/12/2021


Fonte da imagem: acervo pessoal da autora (La vague de Camille Claudel)


A tese nasce da pretensão de pensar, uma vez mais, sobre a objetividade científica a partir de um ponto de vista feminista. O encontro com a vasta bibliografia dedicada ao tema me levou, no entanto, a mobilizar algumas outras páginas da história da filosofia, da ciência e do feminismo. Essas leituras exigiram a análise de noções igualmente importantes, como a natureza, a cultura e a situação da sexualidade na tríade que constitui a própria base do conhecimento ocidental: natureza-cultura-objetividade.


A separação dessas três noções, como defendemos, é tão artificial quanto orgânica quando analisada através das lentes estabelecidas desde as luzes modernas. Apontar as fraturas que também caracterizam as fronteiras entre essas noções, como afirma Donna Haraway (1985), é um desafio para quem ambiciona uma análise feminista sobre conceitos tão caros à ciência e à filosofia. Para isso, analisamos a autoridade da natureza quanto à descrição e prescrição acerca do feminino na história da filosofia e da ciência.


Dispomos de textos filosóficos e científicos que tinham em comum o detalhamento da natureza humana, corpos e mentes, fundamentados e permitidos pela autoridade da natureza sobre suas características sexual, fisiológica, psicológica e moral. Por esta análise, se verifica como, atualmente, a objetividade opera como uma ferramenta alternativa à natureza. Desse modo, a objetividade prolifera, simultaneamente, como um mecanismo de produção e produto da ciência que a instituiu. Para melhor entendê-la, analisamos o percurso das epistemologias feministas ocidentais através de seus questionamentos e tensões, que passam pelo reconhecimento de seu caráter plural e da compreensão da ciência como situada e parcial. Dentre suas muitas vozes, optamos por explorar os trabalhos de Harding e Haraway que revolucionaram, cada uma a seu modo e com diferenças significativas entre si, os estudos feministas sobre ciência.


Harding pensa a objetividade à luz dos estudos pós-coloniais, que ela defende como uma maneira responsável de fazer ciência, e defende a proposta de uma “objetividade forte”. Esse conceito toma como ponto de partida a diversidade, que antes era desconsiderada por refletir demandas de grupos historicamente subalternizados. De outro modo, o tecnofeminismo de Haraway implode a fronteira natureza-cultura, erguida inicialmente pela ciência moderna. Seu conceito de ciborgue e de identidades fraturadas marcam a superação das fronteiras entre fabricado e orgânico, homem e animal, real e virtual e sexo e gênero. Haraway, enquanto bióloga, filósofa e feminista, entende que o mundo que habitamos excede e contradiz o que as explicações modernas tentaram delimitar. Por isso, sua “testemunha modesta” é localizada e seu olhar, como o de todo e qualquer olhar, bem como sua produção, é sempre parcial.


Por fim, miramos o passado “pelo que foi, e contra o que foi” a fim de anunciar o que será: a revolução feminista que desejamos ver na ciência e nas categorias em que ela se fundou (natureza-cultura-objetividade) será plural ou não será. Através de duas experiências feministas na educação, buscamos demonstrar como tais propostas se aproximam ou se afastam do feminismo como “luta contra a opressão sexista” que entende as relações de gênero, raça e classe como igualmente fundamentais para esse projeto político.


Referências bibliográficas

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.), Pensamento feminista: conceitos fundamentais, RJ: Bazar do Tempo, 2019[1985].

___. Modest_Witness@Second_Millennium. FemaleMan_Meets_OncoMouse: Feminism and Technoscience. 2. ed. Second edition. New York, NY : Routledge, 2018. The title is an email: Routledge, 2018. Disponível em:

<https://www.taylorfrancis.com/books/9780203731093>. Acesso em: 6 set. 2021.

___. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, SP, n. 5, p. 7–41, 2009. Disponível em:

https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1773. Acesso em:

06 set. 2021.

HARDING, S. Objetividade mais forte para ciências exercidas a partir de baixo de Sandra Harding. Revista Em Construção: arquivos de epistemologia histórica e estudos de ciência, ano 3, n. 5, 2019.

___. Objectivity and Diversity: Another Logic of Scientific Research. University of Chicago Press, 2015.

___. A instabilidade das categorias analíticas na teoria feminista. Revista Estudos Feministas. n. 1, p. 7-31, 1993.

___. The Science Question in Feminism. Ithaca: Cornell University Press, 1986.


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