Descrição e palavra muda: a escrita sem sujeito em Rancière

DANIELA CUNHA BLANCO (USP)

danielablanco27@gmail.com

http://lattes.cnpq.br/1817948518149103

Tese de doutorado

Orientador: Celso Fernando Favaretto

Data prevista para a defesa: 31/08/2023


Fonte da imagem: https://rascunho.com.br/noticias/jacques-ranciere-analisa-a-proposta-estetica-da-literatura-moderna/


A tese pretende dar continuidade à pesquisa de Mestrado (BLANCO, 2019)—que foi dedicada a pensar a noção de escrita em Jacques Rancière—a partir de alguns deslocamentos e encontros. Em primeiro lugar, trata-se de compreender o modo por meio do qual Rancière transforma o estatuto da descrição ao apontar como a literatura do século XIX teria operado uma revolução sensível, cujas consequências são, ao mesmo tempo, estéticas e políticas. Marcando a passagem do regime representativo ao regime estético, Rancière (2017a, 2017b, 2010) percebe como a descrição teria passado de um papel apenas auxiliar—em que muitas vezes mais atrapalhava a ordenação da linearidade causal do que a auxiliava—para um papel em que aponta para a liberdade do gesto da escrita. A descrição deixa de servir ao encadeamento causal, regrado desde o pensamento de Aristóteles (2017), e passa a ser indício da possibilidade de uma experiência sensível heterogênea.


Em segundo lugar, trata-se de traçar um paralelo entre aquilo que Rancière (2017c) denomina de crime do livro—um perigo sempre a ser recolocado pelo excesso descritivo—e o modo como alguns dos autores de uma geração anterior a de Rancière teriam, também, apontado para os perigos da escrita. Roland Barthes, Jacques Derrida e Michel Foucault teriam percebido, cada um à sua maneira, como a escrita, por sua capacidade de fazer circular a palavra sem o pai do discurso, teria sempre se apresentado como um perigo a ser evitado. Pretendemos, com isso, afirmar que haveria um fio comum entre Rancière e esses autores, qual seja, o esforço por afirmar esse perigo da escrita justamente como sendo seu aspecto político, sua capacidade de reconfigurar o sensível, de transformar nossos modos de ver, pensar e nos relacionar com o mundo. Assim, podemos afirmar que nossa hipótese é a de que Rancière, ao pensar o tema da escrita a partir da ideia do crime do livro e do excesso descritivo, estaria se inserindo em um debate já aberto anteriormente por Barthes, Foucault e Derrida; aquele do pensamento da escrita para além das categorias metafísicas de sujeito e de representação.


Ao longo dos diversos livros e textos de Rancière (2010, 2017b) surgem figuras como: letra órfã, palavra muda e letra desincorporada. Essas figuras apontam para a ideia da ausência de consciência que precede a escrita, ou seja, para a ausência de um pai do discurso capaz de acompanhá-lo impedindo qualquer desvio de sentido. Pretendemos aproximar esse tema do pensamento de Foucault (2002, 2009), a partir da noção de desaparecimento da categoria de humanidade, morte do sujeito e morte do autor, bem como de Derrida (2011, 2015), a partir da noção de letra órfã, silêncio da palavra, escritura, e, finalmente, de Barthes (2016, 2012), a partir da ideia de vazio de fala, de descentramento do sujeito e da substituição do texto pela obra. Com o intuito de traçar esses diversos paralelos, a partir do fio comum da escrita ou, ainda, da escrita como perigo, propomos pensar como a noção de escrita nesses autores se relaciona com um pensamento que recusa os pressupostos metafísicos, como a categoria de sujeito e de representação.


Referências bibliográficas


ARISTÓTELES. Poética. Trad. Paulo Pinheiro. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2017.

BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

BARTHES, Roland. O império dos signos. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2016.

BLANCO, Daniela Cunha. Rancière, bordas da escrita. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2019.

DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. Trad. Rogério da Costa. 1ª reimp. São Paulo: Iluminuras, 2015.

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Trad. Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. 2ªed. 4ª reimp. São Paulo: Perspectiva, 2011.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor?. In: _______. Estética: literatura e pintura, música e cinema (Ditos e escritos, v. III). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

RANCIÈRE, Jacques. La parole muette. Paris: Librairie Arthème Fayard/Pluriel, 2010.

RANCIÈRE, Jacques. O fio perdido: ensaios sobre a ficção moderna. Trad. Marcelo Mori. São Paulo: Martins Fontes, 2017a. RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. Trad. Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2017b.

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