Ensaio, um outro modo de dizer amigo: escrita e amizade na filosofia

Atualizado: Out 9

JESSICA DI CHIARA (PUC-Rio)

jessica.dichiara@gmail.com

http://lattes.cnpq.br/0569004015713502

Tese de doutorado

Data prevista de defesa:31/03/2023



Fonte da imagem: https://www.franceculture.fr/emissions/les-chemins-de-la-philosophie/philosophes-et-amis-14-montaigne-et-la-boetie-parce-que-cetait-lui-parce-que-cetait-moi.



É possível dizer que quando o assunto é o da origem da Filosofia nos contentamos, muitas vezes, com o enunciado que diz surgir na Grécia, por volta dos séculos VI e V a.C., um modo de conhecimento que nomeia a si mesmo como amigo do saber. Nesse mesmo cenário, os diálogos de Platão tomam forma – diálogos esses que, no mais das vezes, simulam conversas entre amigos. Talvez dizer que um diálogo é uma espécie de conversa entre amigos seja uma redundância, já que, para que o diálogo aconteça, é necessário que se estabeleça uma disposição afetiva favorável entre aqueles que conversam – com os inimigos guerreamos, disputamos ou simplesmente os ignoramos: não lhes damos a oportunidade seja da convivência, seja da conversa. Aristóteles, ainda na antiguidade clássica, dedicou-se a pensar a amizade não só em termos políticos (no sentido da boa convivência na polis), mas sobretudo em termos ontológicos: o amigo seria aquele que, sendo um outro de si mesmo (um heteros autos), completaria a unidade do humano fora de si. Assim, na amizade, dois formariam um, e um só seria um quando em relação com um outro – o amigo. Interessado na relação entre a amizade e a filosofia, no ensaio “O amigo”, Giorgio Agamben procura iluminar alguns momentos na história da filosofia que expõem essas relações – seja entre filósofos, seja entre filosofias.

Quando olhamos para a história do ensaio, impressiona que justamente o momento de surgimento do gênero também coincida com uma relação de amizade – a amizade específica estabelecida entre Michel de Montaigne e Etienne de La Boétie, autor do Discurso da servidão voluntária –, e que o desenvolvimento posterior de sua teoria, entre os séculos XVIII ao XX, também esteja atrelado a relações entre amigos. Se Montaigne, em 1580, escreve o livro Ensaios como parte do luto pela morte de La Boétie numa espécie de diálogo com o amigo agora ausente, a amizade entre Friedrich Schlegel e Novalis, já na virada dos séculos XVIII para o XIX, parece apontar para o “supremo acordo” não somente que um amigo tinha com o outro, mas sobretudo daquele que poesia e filosofia, numa relação amorosa, guardavam entre si, e que foi a base da experiência de todo o grupo do primeiro Romantismo Alemão. No século XX, a história de entrelaçamento do ensaio e da filosofia pela amizade permanece especialmente ativa. Tanto que, em 1910, Georg Lukács, ao decidir justificar a unidade formal do livro de ensaios A alma e as formas, o faz justificando-se a um amigo, Leo Popper, por meio de uma carta – trata-se do texto seminal “Sobre a essência e a forma do ensaio”. E, atravessando décadas, a correspondência entre Walter Benjamin e Theodor W. Adorno será nomeada por eles mesmos como uma “camaradagem filosófica”, que foi decisiva para o pensamento de ambos.

Assim, merece atenção e investigação o rebatimento entre amizade biográfica e aquela que parece acontecer entre os diversos saberes e a filosofia na forma da escrita ensaística. Nesse sentido, não deixa de ser surpreendente, porém esclarecedora a sentença proferida por Lukács, que diz ter sido Platão o primeiro ensaísta. Diante disso, é possível vislumbrar uma relação, pelo viés da amizade, entre ensaio e filosofia, ao ler esse gênero como um modo próprio de a filosofia, espécie de amizade continuada e constante entre o desconhecido e os saberes diversos e distantes (no tempo, no espaço, nos livros, na história e na vida), acontecer. Por isso, esta pesquisa é dedicada a investigar de que modo tais relações de amizade (entre Montaigne e La Boétie; Schlegel e Novalis; Lukács e Leo Popper; Walter Benjamin e Adorno) fundamentam uma afinidade eletiva entre a forma do ensaio (que, em sua natureza interdisciplinar, solicita a amizade entre diversos saberes) e a forma da filosofia (o conhecimento que deseja ser amigo do saber).

BIBLIOGRAFIA:

ADORNO, Theodor W. e BENJAMIN, Walter. Correspondência, 1928-1940. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.

AGAMBEN, Giorgio. “O amigo” In: O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Ed. Argos, 2009.

LUKÁCS, Georg. “Sobre a essência e a forma do ensaio: uma carta a Leo Popper” In: A alma e as formas. Autêntica, 2015.

MONTAIGNE, Michel. Ensaios. São Paulo: Ed. 34, 2016.

SCHLEGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos. São Paulo: Iluminuras, 1994.



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