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  • Em curso

O quasi-realismo cético de David Hume


CARLOTA SALGADINHO FERREIRA (PUC-RIO)

csalgadinho92@hotmail.com

http://lattes.cnpq.br/8354133525893193

Tese de Doutorado

Orientador: Prof. Dr. Danilo Marcondes de Souza Filho

Coorientadora: Profa. Dra. Célia Cristina Patrício Teixeira

Data de defesa: 19/11/2020



Desde os primeiros comentários às teorias da causalidade e dos valores (moral e estético) de David Hume foram interpretadas como formas de anti-realismo – que para este filósofo, a causalidade e os valores (moral e estético) não se encontram nos objetos aos quais essa propriedade é atribuída, independentemente da existência de mentes (de seres humanos). No início dos anos 1980, surge a interpretação de que Hume defenderia uma forma de realismo (causal, moral e estético).


Determinar o alcance possível do nosso conhecimento da causalidade e se os valores podem constituir uma forma de conhecimento, também são questões que ocuparam os comentadores e dividiram as suas opiniões. Relativamente à causalidade, a sua resposta unânime é que mesmo admitindo a possibilidade de a causalidade ultrapassar o campo da regularidade observável, não é possível conhecê-la para além deste. Em relação à possibilidade de que o valor possa oferecer alguma forma de conhecimento, as respostas dos comentadores sempre foram divergentes. Apesar disso, a posição mais antiga que os comentadores assumiram é que tais juízos não podem oferecer nenhum tipo de conhecimento ou ter valor de verdade.


Sobre a possibilidade de se considerarem os juízos causais descritivos, nunca houve dúvidas de que sim (apesar da sugestão muito subtil de Stroud de que eles expressariam uma crença). A controvérsia é sobre a sua referência – a causalidade, restrita ou não à regularidade. Neste sentido, os proponentes da inovadora interpretação designada por realismo cético reivindicam a pertinência da segunda. Neste sentido, indaga-se sobre qual delas Hume aceitaria. Por seu turno, a resposta à mesma questão em relação aos juízos sobre valores depende daquela que se oferecer à questão anterior: se se aceitar que os valores oferecem alguma forma de conhecimento, então os juízos são, pelo menos em parte, descrições de um facto; se se defender que não, os juízos não serão descritivos, mas apenas expressarão um sentimento de quem o profere.


Assim, divido em três os capítulos construtivos do presente trabalho: discussão relativa à causalidade (2), discussão relativa aos valores (3) e a contribuição que julgo ser a mais justa sobre estes tópicos, apesar de merecedora de algumas alterações (4). Estes subdividem-se em secções relativas a diversas questões dos âmbitos que designo metafísico, epistêmico e semântico. As componentes metafísica, epistêmica e semântica da teoria causal de Hume que são objeto desta discussão são: i) a redução ou não da causalidade a uma regularidade observável de eventos; ii) o estatuto ficcional ou não da crença na existência de uma causalidade para além dessa regularidade; iii) o sentido ou significado da ideia e dos juízos sobre relações causais. Por seu turno, componentes metafísica, epistêmica e semântica da teoria dos valores de Hume que são objeto desta discussão são: i) a existência ou não de valores independentemente da mente; ii) o papel da razão na determinação dos valores, dada a constatação do sentimentalismo; iii) o sentido ou significado dos juízos de valor.


Entretanto, apesar de, numa leitura atenta à organização da obra de Hume, se perceber que o filósofo trata separadamente as questões sobre a causalidade e sobre os valores, a separação que Hume estabelece entre os temas ultrapassa a dimensão da organização do texto. Por um lado, as questões que Hume coloca em relação aos valores são as mesmas que colocara relativamente à causalidade: em que consiste e qual a origem da sua ideia. Porém, nos textos em que aborda as questões epistemológicas, o(a) leitor(a) é deixado com uma conclusão cética em relação à natureza provisória do conhecimento empírico e à existência dos objetos que se supõe conhecer. E Hume não se mostra preocupado com as repercussões desta conclusão cética no tratamento das questões relativas à dinâmica das paixões e aos valores – por exemplo, se compromete a justificação e a verdade da crença na existência de outras mentes e/ou pessoas e a concatenação causal entre as paixões e os seus objetos. O filósofo discorre sobre esta concatenação como se nunca tivesse questionado o caráter definitivo do conhecimento empírico e a justificação da crença na existência dos seus objetos.


Diante deste cenário, a perplexidade mais imediata que pode surgir perante este trabalho refere-se à justificação de um paralelo entre as teorias humeanas sobre a causalidade e sobre o valores – que é o que pretendo explorar –, e pode ser respondida com recurso a uma explicitação de como tem vindo a ser tratado pela literatura de comentário ao filósofo. Se é verdade que estes tópicos se mantêm maioritariamente separados na literatura de comentário ao filósofo, alguns(mas) ocupam-se do paralelo entre os três tipos de juízo (Stroud e Coventry). Com efeito, Stroud nota que se é verdade que se tem uma ilusão ou ficção de que os valores constituem propriedades objetivas, também é verdade que a mente constrói a mesma ilusão ou ficção relativamente à causalidade para além do campo da regularidade, e que dadas as considerações sobre o caráter sensitivo da crença, se se considerar que os juízos morais são expressivos, também se deve admitir um elemento expressivo nos juízos causais. Além disso, destaca uma série de outros elementos que estes tipos de juízos teriam em comum, e, posteriormente, estende o paralelo aos juízos estéticos.


Embora o meu interesse nesta questão tenha surgido a propósito dos comentários de Stroud, pode perguntar-se: num cenário em que as discussões sobre os três tipos de juízos se desenvolveram de forma maioritariamente isolada, qual é a pertinência dos seus comentários, ou quão longe nos podem levar no exame da compreensão que Hume tinha destes juízos? Mais importante: levado a sério, este paralelo mostra que a filosofia de Hume é internamente consistente, ou será que se a olharmos mais de perto, se encontrará algum elemento que até agora passara despercebido, ou mesmo alguma inconsistência interna no pensamento de Hume? Assim, o meu principal objetivo é mostrar que apesar de os avanços interpretativos de Coventry nos movimentarem na direção correta para compreender este paralelo, merecem algumas alterações, para que um maior leque de evidências textuais de Hume seja incluído na interpretação que proponho – que designo por quasi-realismo cético.


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