(Re) pensar a divisão sexual do trabalho em tempos de pandemia

Adriana Souza Simões

Mestranda em Educação do Programa em Linguagens e Saberes da Amazônia da Universidade Federal do Pará, integrante do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito e do Grupo de Pesquisa: Núcleo de Estudos em Educação, currículo, formação de professores e relações étnico-raciais (NEAFRO).

Loiane Prado Verbicaro

Professora da Faculdade de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Pará. Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito.

A pandemia expõe a precariedade da vida, mas, ao mesmo tempo, a maior vulnerabilidade das pessoas já afetadas pelas nossas assimetrias históricas e estruturais. Ela nos afeta a partir das nossas vicissitudes, agravando-as. A pandemia não cria, mas desnuda, com novas lentes e tintas mais nítidas, os problemas da divisão sexual do trabalho. É um fato que a vida de todos sofreu mudanças disruptivas em decorrência da pandemia de COVID-19 e, com isso, surge a necessidade de adequação ao novo e de conciliação desta nova forma de viver com as mais variadas preocupações sociais, não apenas com os rumos futuros da economia e da saúde. Com a crise sanitária sem precedentes e a recomendação de isolamento social, os problemas da divisão sexual do trabalho são escancarados, levando-nos a (re) pensar a importância da persistência da luta feminista pela igualdade.


O momento acentua as consequências das forças conservadoras que cultivam um apego a uma história mítica, na defensa de uma sociedade hierarquizada e patriarcal, que promove uma demonização às questões de gênero e a tantas outras pautas sociais e inclusivas, com o reforço de que as mulheres devem assumir, em razão de um dom natural, o dever do cuidado tanto no lar quanto na sociedade, o que reforça as desigualdades de gênero, merecendo uma reflexão especial desses desequilíbrios naturalizados.


É urgente trazer à tona, em tempos de crise sanitária, o debate de gênero e a noção de “papel da mulher” para que se possa desmistificar o que se nomeou como trabalho, competência e lugar de mulher para evidenciar as consequências dessas divisões impostas. Federici (2017, p. 52-53) demonstrou que, historicamente, nas sociedades pré capitalistas a divisão sexual do trabalho apresentava-se com menos evidência, pois as mulheres exerciam tanto as atividades agrícolas, quanto as domésticas e estas não eram desvalorizadas e nem socialmente diferentes das exercidas pelos homens. Com a economia monetária, o trabalho doméstico deixou de ser visto como verdadeiro trabalho, relegado à subvalorização e ao desprestígio.


A divisão sexual do trabalho é a forma como as sociedades se estruturam e delegam funções para as mulheres, tendo por destinação colocá-las nos espaços privados exercendo funções como os afazeres domésticos e, dentre outras, o cuidado com os filhos e familiares, tarefas essas que são socialmente rotuladas e naturalizadas como “função de mulher”, as quais tem por consequência (e intenção) a liberação dos homens desses ônus, pois assim, cabe a eles, majoritariamente, o exercício de funções na esfera pública, ocupações de forte valor social agregado, a exemplo do exercício de lideranças religiosas, cargos militares e mandatos políticos. Desse modo, a sociedade capitalista se estrutura e consegue se desenvolver às custas do trabalho doméstico não remunerado exercido pelas mulheres, em conformidade com tal evidência, dados do IBGE (2019) revelam que as mulheres dedicam o dobro do seu tempo, em relação aos homens, exercendo afazeres domésticos, dedicando, em média, 21,3 horas por semana, em comparação às 10,9 horas exercidas pelos homens.


Nesse sentido, embora evidenciada a desigualdade de gênero, é importante que se interseccionalize a reflexão para uma perspectiva a partir da raça e classe dessas mulheres que se dedicam ao trabalho doméstico. Dados do IPEA (2019) revelam que das 6,2 milhões de pessoas que exercem trabalho doméstico, 3,9 milhões são mulheres negras, as quais correspondem à 63% do total de trabalhadores domésticos no país. Os mesmos dados demonstram que a cada 100 trabalhadoras negras, 14 são jovens, ao passo que, entre as brancas, 11 são jovens, evidenciando que a saída é mais intensa entre as brancas, pois estas conseguem alcançar maiores níveis de escolaridade e melhores condições de emprego. Percebe-se, portanto, que o trabalho doméstico é alimentado pela desigualdade e pelo racismo estrutural, Davis (2016, p. 17) afirma que o enorme espaço que o trabalho ocupa hoje na vida das mulheres negras reproduz um padrão estabelecido durante os primeiros anos de escravidão.


Diante da pandemia da Covid-19, a questão relacionada ao exercício de trabalhos domésticos suscita especialmente duas perspectivas de análise. A primeira, a evidência de que, em decorrência do racismo estrutural, o trabalho doméstico, no Brasil, é exercido em sua maioria por mulheres negras, pertences a classes econômicas inferiores e com índices de escolaridade baixos, de modo que, diante da necessidade de realizar o isolamento social recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, encontram-se em situações ainda mais difíceis, pois sem o exercício do trabalho, não conseguem receber seus salários e arcar com a subsistência própria e de seus familiares, tendo em vista que muitas exercem a profissão na informalidade, sem carteira de trabalho assinada – menos de 30% são formalizadas (IPEA, 2019) – ou exercem na modalidade de diaristas, as quais só recebem mediante a conclusão da jornada de trabalho. A segunda perspectiva é a que afeta as mulheres de classe média e alta, empregadoras, que precisam dispensar suas empregadas domésticas, passando então, a exercer as atividades domésticas que antes eram delegadas. Neste momento, a divisão sexual do trabalho também evidencia-se. Muitas mulheres se depararam com a necessidade de desempenhar múltiplas atividades, tais como a realização dos afazeres ligados à família, o cuidado com a casa, o auxílio nas atividades escolares dos filhos, dar conta de exercer sua profissão através do home office, com exigências de produtividade, dentre outras tarefas.


A sobrecarga mental e laboral que incide na vida das mulheres intensifica-se nesse momento de crise epidêmica, pois as principais responsabilidades familiares, domésticas, relativas à economia do cuidado, ademais das dificuldades financeiras, aumento da violência física, psicológica e emocional, e do acúmulo de atividades profissionais, incidem, de modo desproporcional, sobre a mulher, fazendo com que elas sejam afetadas de forma brutal e silenciosa, como pontua Federici (2019, p. 40) “eles dizem que é amor, nós dizemos que é trabalho não remunerado”.

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REFERÊNCIAS

BIROLI, Flávia. Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

BUTLER, Judith. El capitalismo tiene sus limites. In: Sopa de Wuhan: Pensamiento Contemporáneo en Tiempos de Pandemias. Buenos Aires: Pablo Amadeo Editor. Editorial ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Trad.: Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Trad: Coletivo Sycorax. São Paulo: Editora Elefante, 2017.

FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Trad: Coletivo Sycorax. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Os desafios do passado no trabalho doméstico do século XXI: reflexões para o caso brasileiro a partir dos casos da PNAD contínua. Rio de Janeiro: Ipea, 2019.

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