PRO MEMORIA DAS FILÓSOFAS

O NASCIMENTO COMO QUESTÃO FILOSÓFICA

CHRISTINE DE PIZAN: APRENDIZ E MESTRE DA CIDADE DAS DAMAS

Projetos de Pesquisa, UNB

Coordenação: Ana Miriam Wuensch

anawuensch@gmail.com

Pro memoria das filósofas

Iniciado em 2002, este projeto buscava por referências que autorizassem as mulheres como filósofas, para então selecionar, traduzir e produzir uma antologia de textos com biografias, de modo a situar e apresentar suas existências. Encontramos a pesquisa de Giulio de Martino & Marina Bruzzese, na tradução espanhola Las filósofas (1996), entre outros livros da Colección feminismos, da Ediciones Cátedra; e a Colección Biblioteca de Mujeres, da Ediciones del Orto. Posteriormente, juntamos o trabalho monumental de Mary Ellen Waithe, A History of Women Philosophers (v.2, 1989), publicado pela Kluwer Academic Publishers; e a edição de Linda Lopez McAlister, Hypatia's Daughters, Fifteen Hundred Years of Women Philosophers(1996), pela Indiana University Press. Por muito tempo, a necessidade consistiu em produzir materiais didáticos para subsidiar disciplinas de graduação, pós-graduação e cursos de extensão, entre outras atividades que realizamos no período, com a colaboração de colegas estudiosos do feminismo, Hilan Bensusan e Wanderson Flor do Nascimento, e as parcerias de Carla L. Bordignon e Graziela de Oliveira. O objetivo, na época, consistia em reunir evidências para sublinhar que, ao contrário do que aprendemos e ensinamos nos currículos tradicionais de filosofia, existem filósofas, e delas temos obras em todas as áreas do conhecimento e da cultura, nos mais diversos espaços e tempos. Aquelas filósofas de exceção que conhecemos, portanto, são apenas a ponta do fio de Ariadne; basta um pouco de paciência para descobrir que onde há uma, há muitas outras. 

             

 As várias edições dos cursos de extensão - "As pensadoras: sujeitos invisíveis, mulheres esquecidas na história da filosofia" (2003-2005); a "Exposição PENSATRIX, Musas para um novo tempo" (2003-2005); e "Pensadoras da educação: Nísia Floresta, Maria Montessori, Hannah Arendt, Emília Ferreiro e Madalena Freire" (2006) - indicaram, também, a necessidade de avançar na pesquisa de modo a incluir filósofas brasileiras e latino-americanas. O que vem ocorrendo até o presente, quando, junto com a ampliação cultural de uma coleção de pensadoras, os objetivos tornam-se mais precisos. Agora, trata-se de investigar mais atentamente a obra de algumas filósofas, do Norte e do Sul, examinar seus próprios conceitos e problemas; também cabe aproximá-las, por semelhanças ou diferenças específicas, a fim de estabelecer diálogos possíveis entre elas, e aprimorar fios condutores para novas narrativas filosóficas. A questão fatual da existência de filósofas ramificou-se em uma série de problemas acerca das condições de existência e memória das filósofas, no plural. 

 

Trabalhos publicados: 

1. WUENSCH, A.M. Sobre as mulheres, pensadoras e currículos de filosofia. In: RIBAS, M.A.C. et al. (organizadores). Filosofia e ensino: a filosofia na escola. Ijuí: Editora Unijuí, 2005, p. 93-110. (Coleção Filosofia e Ensino n.7)

2. WUENSCH, A.M. Acerca da existência de filósofas no Brasil e na América Latina. In: Problemata - Revista Internacional de Filosofia v.6, n.1 (2015). Edição Especial Filosofia desde América Latina, p. 113-150. Publicação Digital do GP Hermes/PPGF/UFPB/CNPq. 

Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/problemata/issue/view/1590

 

3. COSTA, A.A.; WUENSCH, A.M.; TOLENTINO, J. Um banquete para Diotima - apresentação à tradução. Revista Digital Em Construção n.5 (2019), Dossiê Gênero e Conhecimento: Saberes localizados e poder. Periódico do PPGFIL - UERJ, Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/emconstrucao/article/view/41242/29784

O nascimento como questão filosófica

Este projeto, iniciado em 2005, especificava um tópico do projeto maior "Pro memoria das filósofas", na medida em que se buscava reunir fontes e estudar a questão filosófica do nascimento em duas filósofas do século XX: Hannah Arendt e María Zambrano. O fato fundamental de termos nascido, de existirmos no mundo pelo nascimento, é uma questão poucas vezes examinada com atenção pela filosofia. Mais em Platão, menos em Heidegger, encontramos referências que nos remetem a uma perspectiva de gênero e sexo plural,  implicados neste tema. Hannah Arendt e María Zambrano têm contribuições importantes para a investigação do que significa nascer, ter nascido, ser nascente. Em Hannah Arendt, o exame fenomenológico e existencial da "vita activa" resulta no estabelecimento da "condição da natalidade", inseparável de outras condicionantes da existência humana, tais como: mortalidade, pluralidade, vida, Terra, mundo. A natalidade, em Arendt, é uma categoria política por excelência, e signo da liberdade no agir com os outros. Natalidade e mortalidade atravessam toda a nossa existência biográfica como seres vindos ao mundo, que o deixam pela morte. María Zambrano, por sua vez, oferece-nos uma reflexão poética, por meio de metáforas geradoras de sentidos sobre a vida humana, nascida e nascente. Para esta autora, "o ser humano não nasce de todo", sendo seu nascimento sempre incompleto, e por isso tornar-se alguém constitui um "parto de si mesmo" que se realiza ao longo da vida, por meio de renascimentos decisivos. Seguimos identificando as múltiplas referências ao nascimento em suas obras, comparando suas ideias, e reunindo interpretações do tema nas autoras. Isto permite avaliar o alcance da consideração do nascimento em diversas subdisciplinas da filosofia (ética, política, educação, estética e metafísica, p.ex.). Mais recentemente, em colaboração com Julio Cabrera e Jan Helge Solbakk, ampliamos a pesquisa incluindo a bioética e a ética médica, especialmente o âmbito das questões relativas ao "início da vida", para pensar a vida humana no mundo como um início: contingente e novo, imprevisível e irreversível. Neste aspecto, destacam-se alguns tópicos do debate entre "natalistas" (Mary Warnock e Giovanni Berlinguer, p.ex.) e "antinatalistas" (David Benatar e Julio Cabrera, p.ex.). Especialmente aqueles relacionados aos  pressupostos das noções usuais de "procriação" e "reprodução". Aqui, o recurso às reflexões de Arendt e de Zambrano tornam-se mais relevantes, na medida em que a questão ampliada sobre os sentidos do nascimento possa apresentar-se como um preâmbulo à pergunta que, todavia, as autoras não enunciam: devemos fazer nascer novos seres no mundo?  

Trabalhos publicados:

 1. WUENSCH, A.M. Hannah Arendt e María Zambrano: pensadoras do nascimento. In: SILVA, U.R; MICHELON, F.F.; SENNA, N. C. (organizadoras). Gênero, arte e memória. Ensaios interdisciplinares. [II Seminário Internacional Gênero, Arte e Memória- SIGAM] PPG Memória Social e Patrimônio Cultural/ICH/UFPel, e FAPERGS. Pelotas: Ed.UFPel, 2009, p. 131-150. 

 

2. WUENSCH, A.M. Sentidos da "natalidade" em Hannah Arendt. In: NASCIMENTO, P.;BREA, G.; MILOVIC, M. (organizadores). Filosofia ou Política? Diálogos com Hannah Arendt. [Publicação de trabalhos do Simpósio Internacional "A vida como amor mundi: Hannah Arendt entre a Filosofia e a Política". Brasília, UnB, 08 a 14 de outubro de 2006.] São Paulo: Annablume, 2010, p. 21-33.

 

3. WUENSCH, A.M. Considerações sobre natalidade e educação em Hannah Arendt. In: TOMAZETTI, E.M. (organizadora). Ensino de filosofia: experiências, problematizações e perspectivas. Curitiba: Appris, 2015, p. 37-54.

 

4.  WUENSCH, A.M. Pensar o nascimento: contribuições política e poética de Hannah Arendt e María Zambrano para a bioética. [Tese] Faculdade de Ciências da Saúde, PPG Doutorado em Bioética- UnB, 2017. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/31653

 

5.  WUENSCH, A.M.; CABRERA, J. Bioética e condição humana: contribuições para pensar o nascimento. Revista Bioética [CFM], v. 26, n.4 (2018), p.484-493. Disponível em: 

http://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/view/1569/1948

 

6. WUENSCH, A.M.  Natality between Philosophy and Medicine. 33rd European Conference on Philosophy of Medicine and Health Care: "Philosophy and Ethics at the Edge of Medicine". University of  Oslo, 2019. Abstract booklet, p. 104-105. Disponível em: https://www.espmh.org/wp-content/uploads/Abstract-booklet-final-Oslo.pdf

 

7 . WUENSCH, A.M. Ser natal: Arendt, natalidade e pluralidade. In: BENSUSAN, H.; CABRERA, J.; WUENSCH, A.M. A moral do começo - Sobre a ética do nascimento. Posfácio Ondina Pena Pereira. Livro Digital pela Editora Fi, 2019. Disponível em: https://www.editorafi.org/catalogo

Christine de Pizan: aprendiz e mestra da Cidade das Damas

Outro subprojeto de pesquisa derivado do projeto "Pro memoria das filósofas" começou em 2012, comparando as edições espanhola (tradução Marie-José Lemarchand, La Ciudad de las Damas, 2001) e brasileira (tradução Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne, A cidade das damas, Editora UFPB e Editora Mulheres, 2012) da obra Le livre de la Cité des Dames [1405], da escritora medieval Christine de Pizan. O estudo desta obra foi conteúdo de diversas ofertas da disciplina de graduação Ideias Filosóficas em Forma Literária, pelo Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (2012-2017), em um curso justamente intitulado "Christine de Pizan: aprendiz e mestra da Cidade das damas". Em uma direção, a obra desta autora "laica",que escreve e publica seus manuscritos, apresenta uma série de temas e problemas para pensar filosoficamente, em seu próprio contexto medieval, tais como: os preconceitos dos filósofos, poetas e moralistas em relação às mulheres; uma teoria das virtudes (no feminino); a educação das mulheres; Natureza e Deus; cidade e governo; a história das mulheres e seu papel civilizador, violência, martírio e morte de mulheres, por exemplo. Entretanto, a sua existência como filósofa não cabe na historiografia filosófica tradicional do medievo. Trata-se, então, de empreender novas narrativas que desenhem espaços filosóficos para Christine de Pizan, assim como para tantas autoras medievais redescobertas. Em outra direção, a filósofa foi protagonista na querela das mulheres, e sua fortuna crítica atravessou os séculos, sendo ainda mencionada por Simone de Beauvoir, em O segundo sexo [1949]. Portanto, cabe  retomar mais atentamente as relações entre a literatura e a filosofia - das mulheres. Deste modo, a pesquisa prossegue explorando possibilidades de leitura da Cidade das damas, junto aos eventos do Grupo de Pesquisa Christine de Pizan (CNPq), e por meio de orientações. 

Trabalhos publicados:

1. WUENSCH, A.M. O que Christine de Pizan nos faz pensar. In: Revista Graphos, v.15, n.1 (2013) Estudos Medievais. Periódico Digital do PPGLetras/UFPB. Disponível em:

https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/view/16315/9344

 

2. WUENSCH, A.M. O que Christine de Pizan nos faz pensar. In: DEPLAGNE, L. E.F.C. (organizadora).  As Intelectuais na Idade Média: pensadoras, místicas, cientistas e literatas. João Pessoa: Editora da UFPB, 2015, p. 69-90. 

 

3. WUENSCH, A.M. A cidade-mundo de Christine de Pizan. In: BROCHADO, C.C.; DEPLAGNE, L.C. (organizadoras). Vozes de mulheres da Idade Média. João Pessoa: Editora da UFPB, 2018, p. 112-131. 

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