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BEATRIZ NASCIMENTO

Nascimento: 12 de julho de 1942

Morte:  28 de janeiro de 1995 

Luana Alvin

Graduanda em Ciências Sociais, UFRJ

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Maria Beatriz Nascimento | Foto: Arquivo Nacional

​Maria Beatriz Nascimento (Aracaju, 12 de julho de 1942 – Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1995) foi uma historiadora, professora, roteirista, poeta, intelectual negra e ativista pelos direitos de negros e mulheres. Destacou-se como uma das principais pensadoras do movimento negro no Brasil realizou pesquisas inovadoras sobre os quilombos e as formas de resistência negra. 

  1. VIDA E EDUCAÇÃO

Maria Beatriz Nascimento é natural de Aracaju (SE), nascida em 12 de julho de 1942. Seus pais eram Rubina Pereira do Nascimento, dona de casa, e Francisco Xavier do Nascimento, pedreiro. Eles tiveram dez filhos, sendo a Beatriz a oitava. Em 1949, ainda criança migrou com sua família para o Rio de Janeiro. Aos 28 anos, passou no vestibular de bacharel/licenciatura em História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concluído em 1971(72). Durante o curso estagiou no Arquivo Nacional, com orientação do historiador José Honório Rodrigues. Em meio a esse período teve um curto relacionamento e casou-se com José do Rosário Freitas, com quem teve uma filha, Bethânia. Posteriormente, Nascimento ingressou no curso de pós-graduação Lato Sensu em História do Brasil, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Iniciou sua atuação mais ativa em questões raciais e de gênero, participando como ativista e promovendo debates principalmente na esfera acadêmica. Criou o grupo de trabalho Andre Rebouça na UFF, com outros pesquisadores negros, e tambem integrou o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras, em 1975. Entre 1970 e 1980 Beatriz participou de diferentes movimentos negros, entre quais se destaca o Movimento Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), que ao longo do tempo ficou conhecido como Movimento Negro Unificado (MNU). Elaborou e participou de diversas conferências e debates em relação a negritude e política, como na Quinzena do Negro, em outubro de 1977, na Universidade de São Paulo. Foi ao continente africano algumas vezes, uma delas em Angola, em regiões que antes eram quilombos.  No dia 28 de janeiro de 1995, foi assassinada, vítima de feminicídio, no Rio de Janeiro. Até sua morte, trabalhou ativamente pela valorização da cultura afro-brasileira e pelos direitos das populações negras.

 

2. CONCEITOS E CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS

Beatriz Nascimento foi uma intelectual que construiu um pensamento próprio e original sobre a experiência negra no Brasil, articulando raça, história, corpo, cultura e resistência. Seu trabalho teórico se destacou por romper com a historiografia tradicional e propor conceitos inovadores a partir da vivência e da agência das populações negras. 

 

Um dos conceitos centrais em sua obra é a releitura do quilombo. Nascimento interpretava os quilombos como projetos políticos e sociais em curso, rompendo com a perspectiva histórica que os restringe ao período da escravidão. Para a autora, esses espaços se estruturam com base na solidariedade, na resistência e na ancestralidade, elementos que ainda hoje persistem em comunidades negras (RATTS, 2021).

 

Entendo esses lugares como sistemas sociais alternativos, que descrevem as formas de organização criadas pelas populações negras fora da lógica hegemônica da sociedade brasileira, como os quilombos, favelas e comunidades de matriz africana. Esses sistemas são espaços de autonomia, produção cultural e construção de identidades negras, onde se desenvolvem estratégias coletivas de sobrevivência e liberdade.  A partir dessa perspectiva, Nascimento compreende a construção da identidade negra como uma ferramenta de auto afirmação racial. Para ela, o corpo negro é entendido como território espaço onde se inscrevem marcas de dor, memória e luta, mas também onde se constroem formas de criação e afirmação identitária. (RATTS, 2021).

 

Essa perspectiva conecta corpo e história com as dimensões indissociáveis da experiência negra. Nesse sentido, o conceito de memória corporal, entende o corpo negro como guardião da memória histórica e cultural africana, especialmente diante dos apagamentos promovidos pela escravidão e pelo racismo. Essa memória se expressa por meio de práticas cotidianas, gestos, espiritualidades, expressões artísticas e saberes orais transmitidos entre gerações, funcionando como resistência cultural viva (NASCIMENTO, 2022).

 

No documentário Ôrí, lançado em 1989, dirigido pela cineasta e socióloga Raquel Gerber, Nascimento articula sua trajetória pessoal com a história da resistência negra no Brasil, recuperando o papel das religiões de matriz africana, dos quilombos e da mobilização política negra nas décadas de 1970 e 1980.  A ideia de quilombo enquanto movimento, a centralidade do corpo, da oralidade e da ancestralidade negra são visualmente narradas. Além disso, a própria estrutura do filme (fragmentada, circular, subjetiva) reflete sua crítica à linearidade da história oficial.  

 

Em sua crítica à historiografia branca, Beatriz Nascimento desafiou os mecanismos da branquitude enquanto projeto de poder, que busca invisibilizar as contribuições africanas na formação do Brasil. Sua denúncia ao apagamento histórico das populações negras se articula com seu compromisso com uma reescrita da história a partir do ponto de vista dos sujeitos negros (NASCIMENTO, 2022). Por fim, seu pensamento oferece uma perspectiva relevante da diáspora africana como experiência ativa, recusando a ideia de passividade ou trauma puro. Para ela, mesmo sob condições violentas, os sujeitos negros criaram novas formas de vida, cultura e resistência, revelando a potência da continuidade africana no Brasil e nas Américas.

 

3. ALGUMAS DAS PRINCIPAIS OBRAS

A produção intelectual de Beatriz Nascimento foi publicada majoritariamente de forma póstuma e está reunida em obras como Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento (2006), Uma história feita por mãos negras(2021) e O negro visto por ele mesmo (2022).

Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento (2006)

A obra Eu sou Atlântica, organizada por Alex Ratts, reúne diferentes registros da trajetória de Beatriz Nascimento, incluindo textos teóricos, relatos pessoais e entrevistas. A coletânea permite um mergulho em sua produção intelectual e em sua vivência como mulher negra, historiadora e ativista. O livro oferece um diálogo solidário com a trajetória de vida e a produção intelectual de Beatriz Nascimento, uma figura fundamental na luta pelos direitos e pela história do povo negro no Brasil. Dividido em duas partes, a obra inicia com uma introdução cuidadosa ao contexto e às ideias de Beatriz, enfatizando sua importância como pesquisadora, ativista, poeta, professora e pensadora. A Parte I, intitulada “Quantos caminhos percorro”, apresenta textos e citações de Beatriz, refletindo sua visão do mundo e suas preocupações acerca do racismo, dos quilombos e da história negra brasileira. A Parte II, por sua vez, intitulada "É tempo de falarmos de nós mesmos” reúne artigos e escritos publicados por ela, marcados por uma narrativa subjetiva e crítica, que abordam temas como o racismo, a condição da mulher negra, e a construção de uma identidade afro-brasileira. Além de servir como material para práticas educativas e políticas de organizações negras, a obra busca reconstituir sua memória e a responsabilidade social. Assim, Ratts contribui para que sua trajetória seja reconhecida e valorizada, destacando sua importância para o fortalecimento da história e identidade negra.

Uma história feita por mãos negras (2021)

É uma obra que mergulha na história, cultura e resistência do população negro no Brasil e na África, especialmente através do fenômeno dos quilombos. Beatriz analisa esses espaços como símbolos de resistência, autonomia e afirmação da identidade negra, destacando sua importância na luta contra a opressão e o racismo ao longo do tempo. O livro está dividido em três partes principais: a primeira aborda a intelectualidade, as relações raciais e de gênero; a segunda trata do escravismo, das fugas e dos quilombos, explorando suas dimensões sociais, políticas e culturais; a terceira discute o quilombo como um sistema alternativo de organização social e resistência cultural. Beatriz Nascimento dedica-se a resgatar a história dos quilombos, especialmente Palmares, relacionando-os às tradições africanas e às formas de resistência que perduram até hoje. Ela também discute a continuidade dos quilombos após a abolição, sua relação com as favelas e os espaços urbanos negros, além de refletir sobre a importância simbólica desses espaços na construção da identidade nacional e na luta por direitos civis. Enfatiza como a memória viva dos quilombos constrói a ideia de resistência tanto política quanto cultural e como essa resistência é fundamental para a preservação e valorização da cultura afro-brasileira.​

O negro visto por ele mesmo (2022)

Coletânea publicada pela editora Ubu, a partir de artigos, entrevistas, e falas públicas da autora, com o objetivo de difundir seu pensamento para o público mais amplo. Ela aborda temas centrais da história, cultura, corporeidade, representação racial e memória do povo negro no Brasil e na diáspora africana. A obra está dividida em três partes: Ensaios, Entrevistas e Prosa. O volume explora a produção de Nascimento desde os anos 1970 até sua morte em 1995, destacando seu interesse pela estética negra, os estereótipos na mídia, a memória dos quilombos, a violência racista, e a relação entre imagem, território e identidade. Além disso, discute a importância do cinema, da literatura e das manifestações culturais na resistência e afirmação da identidade negra, evidenciando seu papel como ativista e intelectual militante. A obra também traz reflexões sobre a construção de uma estética negra transnacional e o impacto dos símbolos e imagens na formação da consciência racial e na luta por direitos.

4. CONTRIBUIÇÕES PARA.O FEMINISMO NEGRO E OS ESTUDOS DECOLONIAIS

Beatriz Nascimento é uma das precursoras do feminismo negro brasileiro, mesmo sem se identificar formalmente com esse rótulo. Sua obra valorizou as vivências das mulheres negras, denunciando as violências raciais e de gênero sofridas por elas, especialmente nas relações de trabalho, na marginalização educacional e na invisibilidade histórica. Ao afirmar a memória, a subjetividade e a agência das mulheres negras, antecipou discussões centrais do feminismo interseccional. Também se destaca nos estudos decoloniais, ao propor formas de conhecimento baseadas na oralidade, na corporeidade e na ancestralidade africana, em contraposição às epistemologias eurocêntricas.

   

5. LEGADO E RELEVÂNCIA ATUAL

O pensamento de Beatriz Nascimento segue sendo fundamental para os estudos sobre raça, gênero, história e resistência no Brasil. Sua abordagem da história negra como produção ativa de saberes e formas de vida segue inspirando pesquisadores, ativistas e movimentos sociais. Seu legado se conecta diretamente com as lutas contemporâneas por justiça racial e educação antirracista, e continua sendo redescoberto por novas gerações que buscam epistemologias negras, decoloniais e feministas.

6. BIBLIOGRAFIA

LOPES, Helena Theodoro; SIQUEIRA, José Jorge; NASCIMENTO, Maria Beatriz. Negro e cultura no Brasil: pequena enciclopédia da cultura brasileira. Rio de Janeiro: UNIBRADE; UNESCO, 1987.

NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosas. Organização de Alex Ratts. São Paulo: Ubu, 2022.

NASCIMENTO, Beatriz. Quilombos, raça e conhecimento: o pensamento de Beatriz Nascimento. Organização de Alex Ratts. São Paulo: Dandara; Fundação Rosa Luxemburgo, 2023.

NASCIMENTO, Beatriz. Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento. Organização de Alex Ratts e Bethânia Gomes. Salvador: Editora Ogum’s Toques Negros, 2015.

ÔRÍ. Direção: Raquel Gerber. Brasil: Raquel Gerber Produções, 1989. Documentário (81 min).

RATTS, Alex. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Instituto Kuanza, 2006.

RATTS, Alex. Uma história feita por mãos negras: Beatriz Nascimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

 

Trabalhos importantes publicados em revistas e periódicos

NASCIMENTO, Beatriz. “Por uma história do homem negro.” Revista de Cultura Vozes, v. 68, n. 1, p. 41–45, 1974.

NASCIMENTO, Beatriz. “Negro e racismo.” Revista de Cultura Vozes, v. 68, n. 7, p. 65–68, Petrópolis, 1974.

NASCIMENTO, Beatriz. “A mulher negra no mercado de trabalho.” Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, domingo, 25 de julho de 1976.

NASCIMENTO, Beatriz. “Culturalismo e contracultura.” In: Cadernos de Formação sobre a Contribuição do Negro na Formação Social Brasileira. Niterói: ICHF-UFF, 1976. p. 02–06.

NASCIMENTO, Beatriz. “Nossa democracia racial.” Revista IstoÉ, 23 de novembro de 1977, p. 48–49.

NASCIMENTO, Beatriz. “Kilombo e memória comunitária: um estudo de caso.” Estudos Afro-Asiáticos, n. 6–7, Rio de Janeiro: CEAA/UCAM, p. 259–265, 1982.

NASCIMENTO, Beatriz. “O conceito de quilombo e a resistência cultural negra.” Afrodiáspora, n. 6–7, p. 41–49, 1985.

NASCIMENTO, Beatriz. “Daquilo que se chama cultura.” Jornal IDE, n. 12, Sociedade Brasileira de Psicanálise – São Paulo, dez. 1986, p. 8.

NASCIMENTO, Beatriz. “O quilombo do Jabaquara.” Revista de Cultura Vozes, maio-junho.

NASCIMENTO, Beatriz. “A mulher negra e o amor.” Jornal Maioria Falante, n. 17, fev.–mar., 1990, p. 3.

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