GT FILOSOFIA E GÊNERO
SUELI CARNEIRO
Nome de nascimento: Aparecida Sueli Carneiro
Nome adotado após o casamento: Aparecida Sueli Carneiro Jacoel
Data de nascimento: 24 de junho de 1950
Local de nascimento: São Paulo

Raiane Oliveira
Graduanda em Ciências Sociais, UFRJ
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Sueli Carneiro (Foto por Caroline Lima)
Aparecida Sueli Carneiro, popularmente conhecida como Sueli Carneiro, é uma renomada filósofa e escritora brasileira. Uma das principais intelectuais na discussão entre gênero, raça e classe social no Brasil, sobretudo o lugar das mulheres negras na sociedade brasileira. Enquanto ativista, buscou denunciar a dominação de homens brancos dentro dos espaços sociais, econômicos e políticos de poder, trazendo à luz a ausência e apagamento das vozes de mulheres negras nesses ambientes. Carneiro também utilizou seus conhecimentos para propor alternativas e soluções que atenuassem esses cenários.
1. FASE INICIAL DA VIDA
No dia 24 de junho de 1950, nasce na cidade de São Paulo, mais precisamente no bairro da Lapa de Baixo, a primogênita de José Horácio Carneiro e Eva Camargo Alves, registrada como Aparecida Sueli Carneiro. Seu nome foi escolhido em razão da devoção de sua mãe a Nossa Senhora Aparecida e passou a fazer parte de uma promessa: após alguns problemasde saúde enfrentados por Sueli ainda muito pequena, todas as filhas nascidas depois dela receberiam o nome Aparecida.
Sueli Carneiro nasceu saudável, mas, ainda com pouca idade, começou a definhar, tornando-se uma criança frágil que, segundo sua genitora, não conseguia sustentar o próprio corpo. Sua mãe não suportava vê-la em pé no berço, devido à sua debilidade. No entanto, não desistiu de tentar salvar a sua filha, que, após uma série de tratamentos alternativos, não apenas sobreviveu como se tornou uma criança cheia de vitalidade – sendo descrita por ela mesma como uma “velocista”.
Sua recuperação foi considerada pela mãe um grande milagre. Em agradecimento, ela honrou a promessa feita e deu àsoutras filhas os nomes Aparecida Solange, Aparecida Solimar e Aparecida Suelaine. Além delas, Sueli também tem três irmãos: Antonicelmo, Gérsio e Geraldo.
Pertencente a uma família proletária, seu pai, um homem natural de Minas Gerais, migrou para São Paulo ainda jovem, em busca de melhores condições, estabelecendo-se posteriormente como ferroviário. Sua mãe, natural de Campinas, seguiu o mesmo caminho em busca de oportunidades, mudando-se para a capital paulista e trabalhando como costureira até o casamento, mesmo após ter começado um curso de datilografia.
Primeira filha entre sete irmãos, Carneiro passou os quatro primeiros anos de sua vida como filha única, vivendo no bairro da Lapa. À medida que a família crescia, a renda de seus pais diminuía gradativamente, os forçando a mudar-se para bairros mais acessíveis financeiramente, como a Vila Bonilha, localizada em Pirituba na cidade de São Paulo.
Apesar de não se envolverem ativamente em organizações antirracistas, os pais de Carneiro cultivavam uma forteconsciência racial no ambiente familiar. Esse conhecimento era passado através da educação e da preparação para o enfrentamento de discriminações cotidianas. No caso de Sueli, ela foi alfabetizada em casa por sua mãe e passou a vidaestudando em escolas públicas, tendo que lidar, desde muito cedo, com o racismo. Diante dessas situações, a orientação da matriarca para seus filhos era direta: não voltar para casa chorando e aprender a se defender das ofensas. Esse conselho foi essencial para moldar uma certa atitude de resistência por parte de Sueli, que, ao responder às discriminações, acabourecebendo a fama de “briguenta” na escola.
A filósofa conta, no livro Pensamento Feminista Negro, da autora estadunidense Patricia Hill Collins, que seu envolvimento com a militância surgiu da indignação diante das práticas racistas e sexistas recorrentes na sociedade brasileira, com as quais teve que lidar durante grande parte de sua vida. Para a filósofa, era praticamente impossível coexistir com essas situações sem lutar ativamente contra elas.
2. TRAJETÓRIA INTELECTUAL E POLÍTICA
Aos 22 anos, Sueli Carneiro trabalhou como auxiliar em um escritório da Secretaria da Fazenda, localizado no centro de São Paulo. A convivência cotidiana com esse espaço urbano possibilitou que ela conhecesse e participasse de algumas reuniões do Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN), associação voltada ao ativismo negro, fundada pelos intelectuais Thereza Santos e Eduardo de Oliveira e Oliveira. Ocontato com o CECAN ajudou Carneiro a compreender que o debate racial era um eixo do qual mulheres e homens negros se organizavam politicamente para estruturar uma frente antirracista contra a opressão ditatorial.
Naquela época, a filósofa descobriu um outro lado da cidade de São Paulo, onde novos desejos e possibilidades passaram a fazer parte de seu universo. Foi então que decidiu prestar o vestibular para ingressar no ensino superior. No ano de 1972, passou a cursar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Foi dentro da Universidade que Sueli teve os primeiros contatos com os movimentos estudantis e com notórios integrantes do movimento negro, como Rafael Pinto, Hamilton Cardoso, Vanderlei José Maria e Milton Barbosa.
Naquele período, muitas das bases de militância se encontravam dentro de universidades. O contexto em que esses militantes estavam inseridos – especialmente a influência do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos e a revolução anticolonial nos países africanos – foi crucial para fortalecer seus ideais de resistência e de combate à opressão ditatorial.
Um dos atos marcantes organizados por esses nomes ocorreu em resposta às violências raciais que vinham acontecendo e resultou na criação do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR). Os principais motivos que levaram à realização desse ato foram a prisão, tortura e assassinato de um homem negro, Robson Silveira da Luz,ocorridos no 44° Distrito Policial de Guaianases, e o impedimento de quatro meninos negros de treinarem no time infantil de vôlei do Clube de Regatas Tietê.
Com a sugestão de grandes nomes da emancipação negra do país, como Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez – queparticiparam ativamente do ato –, foi incluído o termo “negro” ao nome do movimento, que passou a se chamar Movimento Negro Unificado (MNU), denominação que permanece até os dias atuais.
Abdias e Lélia foram figuras centrais na vida da escritora. Ao mencioná-los em entrevista, ela afirmou que Abdias Nascimento “nos ensinou a pensar negro, ter um pensamento afrocentrado”. Sobre Gonzalez, a filósofa expressou sua admiração ao destacar que Lélia lhe ensinou “a pensar o lugar da mulher negra, a pensar como uma mulher negra”.
Embora Carneiro não tenha sido uma participante ativa do Movimento Negro Unificado, ela esteve presente nos atos como apoio de base. Esse convívio foi muito importante para a formação de seu pensamento negro e antirracista, especialmente na compreensão da relação entre racismo e capitalismo no Brasil.
No entanto, Carneiro percebeu que o sexismo ainda era algo muito presente dentro do movimento. É evidente que o contato com o movimento e seus integrantes foi crucial para a formação do pensamento racial da intelectual, articulando as questões de raça e classe. Contudo, foi somente com a filósofa Lélia Gonzalez que essas questões ganharam um delineamento mais complexo, ao relacionar raça, classe e gênero.
Após entrar em contato com os pensamentos e os escritos de Lélia Gonzalez, Carneiro afirma que ela foi sua principalreferência, com quem compreendeu a subjetividade do que é ser uma mulher negra. Em entrevista à Revista Boitempo (2016), a filósofa declara que “conhecer Lélia Gonzalez me deu o caminho, foi quando descobri o que queria ser quando crescesse!”.
A partir desse momento, Carneiro passou a desenvolver seus pensamentos a partir da condição da mulher negra, reconhecendo a importância de levantar uma frente militante que aborde a questão de gênero na luta antirracista, assimcomo construir uma frente racial na luta feminista.
No ano de 1983, durante o processo de redemocratização do Brasil, o governo do Estado de São Paulo lançou o ConselhoEstadual da Condição Feminina. No entanto, a ausência de uma mulher negra entre as 32 integrantes não passou despercebida. Insatisfeita com esse cenário, Carneiro se engajou ativamente na campanha da radialista Marta Arruda para que fosse aberto esse espaço no Conselho, uma ação que obteve sucesso.
Em 1988, a filósofa fundou o projeto de maior significado para ela: o Geledés - Instituto da Mulher Negra, a primeira organização feminista e negra independente no estado de São Paulo. Em vista disso, alguns meses depois, foi convidada aintegrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, sediado em Brasília. O instituto também foi responsável pela criação do único programa de orientação em saúde física e mental voltado especificamente para mulheres negras.
No ano de 1992, a organização Geledés atendeu às queixas de um grupo de músicos da periferia de São Paulo que haviam sido vítimas de agressão policial por expressarem, por meio da arte, denúncias sobre marginalização social, racismo, preconceitos e violências policiais. Em resposta, foi criado o Projeto Rappers, que apoiou diversos jovens nesse processo de denúncia e contribuiu para ampliar a consciência de cidadania entre os participantes e a sociedade em geral.
Foi esse percurso que a levou a retornar, vinte e sete anos depois, à universidade, desta vez à Faculdade de Educação da USP, para defender sua tese de doutorado, com o título A construção do outro como não ser como fundamento do ser (2005), sob orientação da professora Roseli Fischmann. A referida tese foi publicada como livro em 2023, pela Editora Zahar, com uma pequena mudança no título: Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser.
Apesar da extensa e brilhante carreira acadêmica, Sueli Carneiro sempre frisou, em diversos momentos, que “não devo nada à universidade, quem me formou foi o movimento negro!”.
3. GELEDÉS - INSTITUTO DA MULHER NEGRA
A palavra Geledé possui um significado muito relevante para o contexto, pois originalmente se refere a uma forma de sociedade feminina existente nas comunidades tradicionais iorubás, com foco religioso. Nessas sociedades, expressa-se opoder feminino relacionado à fertilidade da terra, à procriação e ao bem estar comum de toda a comunidade.
O Geledés - Instituto da Mulher Negra foi inaugurado no dia 30 de abril de 1988. É constituído como uma organizaçãopolítica de mulheres negras, com uma missão institucional de grande relevância, presente ao longo da trajetória de Carneiro: a luta contra o racismo e o sexismo no Brasil, além da promoção da valorização das mulheres negras e de toda a comunidade negra.
Com o intuito de atender às demandas urgentes relacionadas às necessidades contemporâneas das mulheres negras, o instituto vem, há mais de 30 anos, ampliando os debates sobre a inclusão dessas mulheres nas pautas de gênero do país.Além disso, impulsiona as discussões sobre a adoção de políticas públicas inclusivas, visando o cumprimento do princípio de igualdade de oportunidades para toda a sociedade.
Ao longo de sua trajetória, o Geledés tem contribuído para o registro de intervenções políticas nos âmbitos nacional, regional e até mesmo internacional, com o propósito de denunciar os casos de racismo que ainda assolam a sociedade brasileira. Por meio dessas denúncias, busca promover discussões com os governos e com a sociedade civil sobre os processos de exclusão e marginalização de populações pobres, negras e de indivíduos discriminados ao redor do mundo.
4. VISÃO GERAL DE TEMÁTICAS E CONCEITOS
4.1. DISPOSITIVO DE RACIALIDADE
Em 2023, Sueli Carneiro lançou uma edição em livro de sua tese de doutorado em Educação defendida em 2005 na Universidade de São Paulo (USP), sob o título Dispositivo de racialidade: A construção do outro como não ser como fundamento do ser. Mesmo já tendo circulado e sido utilizada como referência por diversas organizações sociais, a novaversão da tese contribui para uma expansão ainda mais significativa ao dialogar com outras obras recentes sobre o racismo no contexto brasileiro.
Articulando com um conceito elaborado por Michel Foucault, Carneiro propõe a ideia de racialidade como um dispositivo, sendo o racismo uma de suas manifestações. Seu principal argumento defende que, na sociedade brasileira, existe um dispositivo hierárquico que organiza as relações raciais. Seguindo a linha intelectual fomentada pelo filósofo francês, o dispositivo é compreendido como algo heterogêneo – um conjunto de táticas estratégicas que operam para que uma determinada forma de poder funcione em um dado momento histórico, sendo gradualmente substituído quando deixa de ser eficaz. Esse conjunto envolve aspectos linguísticos e não linguísticos, sendo constituído por discursos, leis, proposições filosóficas, instituições, medidas administrativas, entre outros elementos.
O dispositivo, conforme analisado por Foucault, estabelece o funcionamento de determinadas formas de poder que são utilizadas para legitimar a sujeição de determinados indivíduos na sociedade. Ele é produzido de modo a induzir os sujeitos à submissão aos padrões sociais vigentes em determinado momento histórico.
Partindo dessa premissa, Carneiro compreende a racialidade como: "uma noção relacional que corresponde a uma dimensão social, que emerge da interação de grupos racialmente demarcados sob os quais pesam concepções históricas e culturalmente construídas acerca da diversidade humana. Disso decorre que ser branco e ser negro são consideradas polaridades que encerram, respectivamente, valores culturais, privilégios e prejuízos decorrentes do pertencimento a cada um dos polos das racialidades" (CARNEIRO, 2023, p.22).
Em vista disso, o racismo transparece na sociedade multirracial e multiculturalista como um dispositivo de poder que tem sua origem no passado escravocrata do país, no qual a discriminação opera de maneira disciplinadora, estruturadora e ordenadora na ordem social. Essa dinâmica expressa que o racismo possui uma função contínua na sociedade brasileira, advinda desde o período colonial, no qual estruturou as classes sociais, marginalizando os grupos não brancos nas camadas mais baixas e privilegiando a população branca do país.
Em uma entrevista concedida ao podcast Mano a Mano, do rapper Mano Brown, a escritora declara que “nós somos pobres porque somos negros” (Mano a Mano, 2022). A pobreza, segundo a mesma, é “parte da estratégia racista de naturalização da inferioridade social dos grupos dominados – negros ou afrodescendentes e povos indígenas” (CARNEIRO, 2023, p. 20). Ou seja, os aspectos que constituem a riqueza e a pobreza são racializados.
Além de utilizar o conceito de dispositivo elaborado por Foucault, Carneiro também se debruça sobre a ideia decontrato racial, desenvolvida inicialmente pelo filósofo afro-americano Charles Mills. Esse contrato racial refere-se a um “acordo” entre os grupos “racialmente homogêneos” (os brancos), que sustentam uma ordem social excludente. O dispositivo de racialidade se estabelece nesse pacto, sendo ativado quando é necessário distinguir indivíduos brancos de não brancos, reforçando a lógica de diferenciação entre superiores e inferiores.
A filósofa também contempla o conceito de biopoder de Foucault, utilizado para analisar a experiência do holocausto na Alemanha, lançando o racismo como objeto de análise. O biopoder se materializa na política de morte como “legitimador do direito de matar, que será exercido pelo Estado por ação ou omissão, de forma direta ou indireta” (Carneiro, 2023, p. 62). O racismo, nesse caso, torna-se um grande validador dessa política, que, além disso, contribui para a criação de divisões de “raças”, nas quais se decide quem deve viver ou morrer na sociedade. É relevante ressaltar que, o conceito de“morte”, pode ser compreendido como uma morte indireta, que se dá por meio da exposição de indivíduos não brancos a condições precárias de vivência (ausência de saneamento básico, moradias em lugares perigosos, entre outros). A negritude é inscrita, nas palavras de Carneiro, “sob o signo da morte”.
De acordo com a autora, o biopoder produz alguns efeitos específicos, especialmente quando relacionamos gênero e raça. Carneiro destaca um debate importante ao longo de sua análise, que afeta diretamente a vida de diversas mulheres, principalmente mulheres negras e não brancas. O biopoder se manifesta por meio de controles de reprodução, como violências obstétricas, ausências de um tratamento adequado de pré-natal e, em alguns casos, a morte materna acontece por pura negligência médica. No caso de homens negros, o biopoder se manifesta principalmente por meio da violência polícial que, no contexto brasileiro, é utilizada para amendrontar e punir a população periférica, composta majoritariamente por pessoas negras.
Em suma, a intelectual entende que “onde não há para o biopoder interesse em disciplinar, subordinar ou eleger osegmento subordinado da relação de poder construída pela racialidade, ele passa a atuar como estratégia de eliminação do Outro indesejável. O biopoder aciona o dispositivo de racialidade para determinar quem deve morrer e quem deve viver” (Carneiro, 2023, p. 61).
Compreende-se que, em um contexto pós colonial no Brasil, o imaginário colonial é mobilizado e legitimado para excluir a população negra e não branca, colocando-a nas camadas de subalternas da sociedade e estipulando até mesmo os processos de vida e morte que atravessam a racialidade.
4.2. EPISTEMICÍDIO
Outro conceito importante que aparece na obra da filósofa é denominado Epistemicídio, importado do professor e sociólogo português Boaventura Sousa Santos. No entanto, é importante frisar que Abdias do Nascimento já discutia essa questão no país, utilizando o termo genocídio cultural.
O epistemicídio apresentado por Carneiro é a tentativa contínua de apagamento do conhecimento de outros povos, sendoa principal ferramenta de dominação dos colonizadores que perdura ao longo do tempo. Ela cita alguns dos aspectos que essa prática produz: “negação ao acesso à educação, sobretudo a de qualidade; pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e pelo rebaixamento da sua capacidade cognitiva; pela carência material e/ou pelo comprometimento da sua autoestima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo” (Carneiro, 2023, p. 83)
O epistemicídio integra-se ao dispositivo de racialidade ao tentar anular a racionalidade dos sujeitos não brancos. Essa prática amputa a capacidade de aprendizado e produção de conhecimento, além de sustentar instituições que exercem diferentes formas de violências sobre a população negra. Trata-se de um processo que busca aniquilar esses indivíduos de diversas formas, o que ajuda a justificar as condições adversas, precárias e racistas às quais os grupos não brancos são submetidos.
4.3. MITO DA DEMOCRACIA RACIAL
Assim como outros intelectuais brasileiros, Sueli Carneiro também se aprofundou na teoria da “democracia racial”,elaborada pelo sociólogo Gilberto Freyre. Essa teoria refere-se à ideia de uma relação de igualdade e harmonia entre senhores e escravizados, em que a miscigenação seria um elemento que fortaleceria e uniria o povo. No entanto, o que Freyre desconsidera em sua análise é que essas relações eram marcadas pelo medo e pela coerção. Essa teoria, infelizmente, contribuiu para a construção de uma falsa ideia de que existe igualdade racial no Brasil.
De acordo com a filósofa, “o discurso que molda as relações raciais é o mito da democracia racial. Sua construção e permanência até os dias atuais evidencia, por si, sua função estratégica, sobretudo como apaziguador das tensões étnico-raciais” (Carneiro, 2023, p. 47). O intercurso sexual entre pessoas negras, pardos, brancos e indígenas contribui para a falsa ideia de uma tolerância racial na sociedade brasileira. Para a autora, esse argumento omite o abuso sexual sofrido por inúmeras mulheres negras e indígenas ao longo do período colonial – algo que pode ser observado na obra de Freyre.
Ademais, Carneiro argumenta que a miscigenação é uma ferramenta eficaz para o embranquecimento do Brasil, oferecendo aos sujeitos um tipo de “benefício simbólico” que os aproxime de um ideal físico, no caso, o branco. Esse cenário afeta diretamente as pessoas negras, pois ajuda a criar um imaginário social que torna as pessoas com tons de pele mais claros como aceitáveis em comparação com aquelas de tons mais escuros. Como consequência, pessoas negras e pardas frequentemente recorrem a expressões como “moreno escuro”, “marrom bombom”, “moreno jambo”, “mestiço” ou “mulato” para se autodefinir, ajustando a tonalidade da própria pele.
A partir dessa noção, a autora argumenta que “diferenciações como essa vêm funcionando com eficácia como elemento de fragmentação da identidade negra e coibindo que esta se transforme em elemento aglutinador no campo político, para reivindicações coletivas por equidade racial” (Carneiro, 2023, p. 50).
4.4. FEMINISMO NEGRO: O LUGAR DA MULHER NEGRA NO MOVIMENTO
Como já foi dito anteriormente, a aproximação de Carneiro com os movimentos sociais ao longo da sua trajetória, tantona universidade quanto fora dela, foi essencial para a articulação de temas como raça, classe e gênero. Vivendo o cotidiano desses movimentos, ela percebeu que as principais lideranças eram exercidas por homens negros que, apesar de lutarem pelo que acreditavam e sofrerem com o racismo e os preconceitos de classe, reproduziam ideias e comportamentos machistas.
Com essa realidade em curso no interior do movimento, os debates giravam em torno das pautas do homem negro, enquanto a questão entre raça e gênero sequer chegava a ser mencionada, o que acabava excluindo as mulheres negras das demandas discutidas.
Ao mesmo tempo que eram excluídas dos movimentos negros, as mulheres negras também não encontravam espaço no movimento feminista, que pouco se interessava em debater suas pautas. O protagonismo era direcionado quase exclusivamente às mulheres brancas de classe média e alta que, embora sofressem com a violência de gênero,reproduziam outras violências simbólicas contra as mulheres negras, como o racismo e o preconceito de classe.
A hegemonia presente no movimento feminista reproduziu uma perspectiva eurocêntrica sobre o que significa ser mulher, o que contribuiu para a exclusão das pautas relacionadas à realidade das mulheres negras. Um exemplo disso é a ideia de “fragilidade feminina”, utilizada historicamente para justificar uma suposta proteção exacerbada dos homens sobre as mulheres. No entanto, tal concepção não incluía as mulheres negras que, ao contrário das mulheres brancas, eram vistas como naturalmente mais resistentes e designadas para trabalhos pesados, ficando fora dessa idealização.
Uma das primeiras bandeiras do feminismo, que defendia o direito das mulheres de ingressar no mercado de trabalho, não correspondia à realidade das mulheres negras, cuja condição precária e desumanizada no trabalho sequer fazia parte das reivindicações feministas da época. Como destaca Carneiro (2003): “Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e desenhores de engenho tarados.”
Em suma, as discussões relevantes tanto do movimento negro quanto do movimento feminista não contemplavam as pautas e urgências das mulheres negras. Apesar de sofrerem discriminações e violências diversas, as duas lutas não se estruturaram de forma eficaz para superar as desigualdades internas aos próprios movimentos. No caso do movimento negro, não foi possível romper com os ideais machistas e a desigualdade histórica marcada pela hegemonia masculina. Já no movimento feminista, os recortes raciais e de classe não foram levados em consideração, ainda que fossem nuances fortemente presentes no sistema de opressão.
Incorporar um novo olhar e direção no movimento feminista, que constitua um aspecto antirracista e de classe, tornou-se algo essencial para um melhor andamento dessas organizações, o que auxiliou o movimento a ser mais inclusivo e a reconhecer as condições específicas vividas pelas mulheres negras no Brasil.
Ao trazer a articulação entre raça, gênero e classe no movimento, promove-se a junção das lutas históricas apresentadas pelos movimentos negros e de mulheres no país. De um lado, nas palavras de Carneiro, há o “enegrecimento do feminismo”, que passa a ampliar suas demandas para as mulheres negras, tornando-se um movimento mais representativopara uma grande camada da população; de outro, incorporam-se as reivindicações do movimento negro, direcionando-as para as condições específicas das mulheres negras e periféricas.
Com base nessa premissa, Carneiro argumenta que: "Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e institur na agenda domovimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzira discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área da saúde" (Carneiro, 2003).
A luta feminista de mulheres negras vem, ao longo dos anos, abrindo espaço para um campo político e militante degrande valor para o cenário brasileiro, traçando novos caminhos contra a opressão de gênero, raça e classe. Observa-se, cada vez mais, o fortalecimento de suas vozes, que passam a ocupar espaços antes negados a elas e a ampliar arepresentatividade do que significa ser mulher brasileira na contemporaneidade. Como afirma Sueli Carneiro (2003), essa luta diária é “pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade”.
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