O Estatuto da Sensibilidade no Processo de Atualização Intelectiva: a noção de materia causae

BRENDA OLIVEIRA DO ESPÍRITO SANTO (UFBA)

brenda.oliveira.fsa@hotmail.com

http://lattes.cnpq.br/6011742363998249

Dissertação de mestrado

Orientador: Prof. Dr. Marco Aurélio Oliveira da Silva (PPGF/UFBA)

Data prevista de defesa:30/07/2021



Fonte da imagem: https://www.meisterdrucke.pt/kunstwerke/500px/Sandro%20Botticelli%20-%20StThomas%20Aquinas%20%20-%20%28MeisterDrucke-293380%29.jpg



Tomás de Aquino, em sua teoria a respeito do conhecimento, é claro em admitir a necessidade e a importância do conhecimento sensível para que a atividade intelectiva ocorra. Para o Aquinate, o processo de conhecimento sensível estabelece através dos sentidos a primeira interação entre um sujeito (cognoscente) e a coisa extramental (coisa sensível), garantindo, por assim dizer, a alteração e a atualização da potência sensível. Nesse sentido, a estrutura da atualização sensorial, por se tratar de um processo de assimilação da coisa externa e material, exige, do cognoscente, condições materiais e imateriais para que dela se obtenha como resultado uma espécie sensível que corresponda à presença formal da coisa sensível (externa). Assim, a atualização da potência sensível, na perspectiva do Aquinate, é a primeira etapa do processo de conhecimento, por isso mesmo necessária para a realização do processo de conhecimento.


No desenvolvimento teórico do Aquinate, encontramos na atividade intelectiva – segunda etapa do processo de conhecimento – a produção de uma espécie inteligível que corresponde a uma semelhança imaterial da coisa corpórea. Isso porque é em virtude de um processo abstrativo diante dos phantasmata (fantasmas) que o intelecto agente abstrai a espécie inteligível das condições da matéria. Isso justifica a necessidade de um agente, em razão do intelecto possível se encontrar em potência para o seu objeto próprio de conhecimento. Nesse sentido, o intelecto agente, ao voltar-se para os fantasmas, abstrai as espécies inteligíveis, imprimindo-as, no intelecto possível, de modo a atualizá-lo. De acordo com essa estrutura, o conhecimento intelectivo, por não conhecer a natureza da coisa sensível diretamente, mas apenas indiretamente, só pode ser atualizado através de um processo abstrativo. Nesse contexto, na questão 84, artigo 6 da Suma Teológica (Aquino 2001), o conceito de materia causae, cuja tradução temos adotado nessa pesquisa como “matéria causal”, é admitido por Tomás de Aquino para qualificar a relação de causalidade entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectivo, de modo que os sentidos, mais precisamente os fantasmas, sejam tomados como causa necessária para que a atividade intelectiva possa ocorrer.


O conceito de matéria causal é admitido pelo autor obedecendo a orientação de que uma coisa cuja natureza é dita corpórea não pode agir sobre uma coisa cuja natureza é incorpórea. Tal compreensão fundamenta e autoriza nosso questionamento quanto à natureza causal, a qual explica a relação entre a potência sensível e a atividade intelectiva, apoiando-se na afirmação do Aquinate, em seu comentário ao livro V da Metafisica de Aristóteles - de que a noção de causa implica em um certo influxo em relação ao causado. Se assentimos que a noção de casual, ora admitida no conceito de matéria causal, assume a mesma natureza da afirmação supracitada, isso nos conduziria a ter que admitir que o conhecimento sensível exerce uma ação sobre o intelecto. Assim sendo, a noção de matéria causal apontada pelo Aquinate deve preservar o limite da ação de uma coisa corpórea e de uma coisa incorpórea, porque os sentidos, ainda que contribuam para o processo de conhecimento intelectivo, não podem ser tomados como os responsáveis diretos ou determinantes da atividade intelectiva ou a causa total e perfeita da atualização intelectiva.


Dessa forma, devido ao limite da relação entre os sentidos e o intelecto, a noção de causa é privada de uma relação direta, não determinando, portanto, o processo de conhecimento intelectivo, pois se assim não o fizesse ocorreria que as teses tomistas da imaterialidade da atividade intelectiva, bem como a da natureza do conteúdo intelectivo, nos conduziriam a ter que admitir elementos materiais participando da atividade intelectiva. Essa incerteza quanto à natureza causal apresentada no conceito de matéria causal é o que nos possibilita investigar a maneira como a relação entre os fantasmas e o conhecimento intelectivo é construída pelo Aquinate, uma vez que, na referida questão, o filósofo não deixa claro como a noção de causa é aplicada nessa etapa do processo de conhecimento. Em suma, nosso estudo a respeito do conceito de matéria causal busca compreender a natureza em que a noção de causa é aplicada para qualificar a relação entre o conhecimento sensível, especificamente o fantasma, e a atividade intelectiva. Assim, a falta de melhores esclarecimentos a respeito da noção de matéria causal é a razão que motiva a investigação em curso.


REFERÊNCIAS


AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. 3ª ed. coord. Carlos Josaphat Pinto de Oliveira, OP. Trad. Aldo Vannuchi et al. São Paulo: Edições Loyola: 2001. .htm __________.In Metaphys. Thomas Aquinas in Enslish. Org. Joseph Kenny. Dominican House of Phylosophy, 1963. Versão eletrônica. Disponível em: <https://web.archive.org/web/20180625214740/http://dhspriory.org/thomas/english/Metaphysics.htm>. Acesso em 20. mar. 2020.


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