Platão Passado e Presente: caminhos para pensar justiça nas relações de gênero

VÂNIA DOS SANTOS SILVA (Universidade de Coimbra)

vania21santos@gmail.com

http://lattes.cnpq.br/0521238711222079

Tese de doutorado

Orientador: Delfim Leão

Co-orientador: Gabriele Cornelli

Data de defesa: 17/04/2020



Fonte da imagem: https://artsandculture.google.com/asset/in-the-studio/yAH-3Yj__3R80w


A tese tem como eixo a discussão do conceito de justiça platônico e seus desdobramentos para as discussões dos estudos de gênero atualmente. Para pensar o conceito de justiça tomamos como base a República, que é uma obra filosófica complexa tanto pelo seu estilo quanto pelos vários temas que traz, dentre eles as propostas de igualdade social e política para homens e mulheres. Essas propostas foram consideradas revolucionárias para o seu tempo e chocaram filósofos de todos os tempos.


Nessa obra, Platão se propôs a discutir os problemas que foram próprios de seu tempo e pensar propostas concretas para eles. Todo seu esforço teórico teve como mote sua prática dentro e fora da Academia. Ele buscou entender como as dimensões da ética, da política, da ontologia, da epistemologia, da metafísica e ou da linguagem se relacionavam com a própria vida, com a cultura e com a pólis.


Os problemas que cercam a questão sobre a justiça, apontados por Platão, são ainda problemas nossos, porque são questões que fazem parte das próprias relações criadas por nós. Entretanto, os territórios subjetivos, geográficos e políticos, nos quais esses se apresentam hoje, têm outros componentes. Assim, as questões são as mesmas, mas com matizes tão variados que talvez pudéssemos nos questionar: por que ir até aqueles textos antigos para pensar questões de justiça e de gênero hoje?


Escolher os textos antigos como campo de trabalho é fazer o exercício do estranhamento e da recepção da diferença. O que me interessa não é somente entender qual foi o projeto político que Platão pensou para a cidade, mas se as propostas desse projeto podem contribuir na formação de novos sistemas de paradigmas com vista à construção de uma cidade justa em nossos dias.


Compreender o texto da República, clássica obra de Filosofia Política, no seu aspecto ético-político, proposta da tese, exigiu um esforço que é aquele do exercício da epokhé, ou seja, uma suspensão do juízo diante da diferença. Tomar essa postura para si, por um lado, é importante para não ressuscitarmos valores do passado, que já não nos servem mais, sobretudo os que subjugaram e excluíram. Por outro lado, é importante para não silenciarmos e invisibilizarmos as diferenças dos modos de vida, nas compreensões de ser humano e das construções das relações sociais que se configuraram na antiguidade clássica.


A presença das diversas maneiras de estar no mundo são flagrantes nas obras de autores antigos. Platão, é, assim, um dos expoentes que manifesta desejo por relações de convívio diferentes das estabelecidas no seio da soberania da pólis. Na República lemos a narrativa de mais de uma noção sobre o que é justiça e é nesse diálogo que Platão imprime uma crítica à política feita para poucos e propõe outra forma de se relacionar com o poder que assegura a governança para todas as pessoas.


O Filósofo demonstra que a existência de grande desigualdade na cidade deve-se ao elemento do desejo de ter sempre mais (hybris), que conduz a prática dos indivíduos de forma desenfreada e, por sua vez, esse elemento teria efeito reduzido a partir de uma educação com foco nas relações justas. A kallipolis, a cidade bela, é um projeto utópico, porém, verossímil. Mas a sua realização depende do esforço de todos que partilham a mesma pólis. Se faz necessário desenvolver nos indivíduos as virtudes da sabedoria, da coragem e da temperança para finalmente ver crescer a virtude da justiça.


O trabalho teve, primeiro, como objetivo entender o conceito de justiça platônico, conceito que ao longo do estudo foi ganhando cada vez mais traços de noções coletivistas e comunitaristas, algo que se deve, de acordo com a pesquisa, à influência que Platão teve do modo de vida pitagórico. Acrescenta-se à motivação central para a pesquisa entender de que modo o conceito de justiça que Platão esboça é gerador das propostas relativas aos direitos sociais e políticos das mulheres de seu tempo. E, como hoje podemos nos inspirar na crítica feita pelo filósofo aos costumes de sua época e aos regimes de governo, a fim de pensar sociedades com relações mais justas para todas as pessoas?


As conclusões que tiramos não foram muito diferentes daquelas do filósofo. Para mudarmos o estado de injustiça, comecemos por conhecer e cuidar de si mesmo. Essa prática será ampliada para as nossas relações com o Outrem e é na comunidade que a mudança ocorrerá.


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