GT FILOSOFIA E GÊNERO
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- Feminismos: número temático Ekstasis: revista de hermenêutica e fenomenologia
v. 8, n. 2 (2019) Feminismos Confira aqui. Editorial Juliana Lira Sampaio, Rebeca Furtado de Melo Dossiê Apresentação. Sobre gratidão e abundância: algumas palavras acerca do trabalho de e entre mulheres Rebeca Furtado de Melo Heideggerian Ecofeminism Trish Glazebrook Da margem no centro: deslocamentos do sujeito no feminismo Fernanda Alt Escavações para lidar com as ruínas e os soterramentos decorrentes do trauma colonial Angela Donini O compromisso feminista com a luta decolonial antirracista Susana de Castro A condição das mulheres em Mary Wollstonecraft e Simone de Beauvoir Ana Carla de Abreu Siqueira Fenomenologia de Eros e de Afrodite em Safo Fabíola Menezes Araújo Ilse Fusková. El cuerpo como archivo Karina Bidaseca Mbaima Metlon: Narrativas de mulheres indígenas em situação urbana Aline Rochedo Pachamama “Eu não sou sua princesa”: um diálogo entre mulheres Fernanda Vieira A sexualidade invisível e a escrita do gozo proibido Aline de Oliveira Rosa Transfeminismo e socialismo libertário: uma nota sobre suicídio, necrossexismo e imaginário social conservador Inaê Diana Ashokasundari Shravya da Costa Rossi Traduções Transformando o Círculo Interno: o Desafio de Dorothy Smith à Teoria Sociológica Patricia Hill Collins Feminismo, Capitalismo e Ecologia Johanna Oksala Ilse Fusková. O corpo como arquivo Karina Bidaseca Ecofeminismo heideggeriano Trish Glazebrook Entrevista Djamila Ribeiro: Uma voz para nosso tempo. Entrevista com Djamila Ribeiro Djamila Ribeiro, Deborah Moreira Guimarães, Juliana Lira Sampaio, Christiane Costa de Matos Fernandes, Rebeca Furtado de Melo #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #filosofasbrasil #ekstasis #uerj #feminismos
- Mulheres negras e o mercado de trabalho em tempos da pandemia no Brasil
Sandra Suely Lurine Guimarães Professora da Faculdade Faci Wyden. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito. sandralurine@yahoo.com.br. Loiane Prado Verbicaro Professora da Faculdade de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito. loianeverbicaro@uol.com.br. Sandra é professora doutora e pesquisadora do Grupo de Pesquisa “Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito”, com formação em filosofia e em direito. Para além de parceira acadêmica e das afinidades das nossas pautas de pesquisa, ela é também uma parceira de vida, daquelas que representam tão bem a dimensão de irmandade. Ela pesquisa o feminismo negro a partir de políticas públicas adequadas às demandas igualitárias das mulheres negras e me presenteou com a possibilidade de escrevermos juntas esse pequeno texto com reflexões e preocupações que nos são tão caras. Em tempos de Pandemia, causada pela COVID-19, tem sido quase um truísmo a afirmação de que o vírus causador da doença “é democrático porque atinge a todos de forma indistinta”. Essa afirmação é apenas parcialmente verdadeira, tendo em vista que se por um lado pessoas de todas as classes, raças e gêneros têm sido infectadas, os efeitos que essa pandemia causa na vida desses sujeitos, não ocorre de forma homogênea, em razão das assimetrias que são estruturantes na nossa sociedade. A verdade é que há uma perversa correlação entre epidemias e desigualdades. As classes vulneráveis são as mais afetadas, pois sentem mais diretamente os impactos da disseminação do vírus em razão dos marcadores de opressão e das fissuras e vulnerabilidades socioeconômicas. Nossa sociedade brasileira tem a mácula de um passado escravagista e colonial, que após a abolição da escravidão negligenciou completamente os povos negros recém-libertos, que não foram minimamente contemplados por quaisquer políticas públicas de inclusão social. Nesse sentido, importante destacar a profunda e entranhada desigualdade social como o maior legado da escravatura e do autoritarismo no país. Grassou, no Brasil, do Século XVI ao Século XIX, uma escandalosa injustiça amparada pela artimanha da legalidade. A escravidão foi bem mais do que um sistema econômico: ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez da raça e da cor marcadores de opressão e de diferença fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência, e criou uma sociedade marcada por uma hierarquia social muito estrita. A escravidão nos legou uma sociedade autoritária e iníqua, a qual tratamos de reproduzir, o que nos legou uma série de problemas à nossa agenda republicana, em prejuízo ao aperfeiçoamento democrático e sua promessa de igualdade. (SCHWARCS, 2019). Nesta perspectiva, ocorreu uma certa naturalização da condição de subalternização e da desigualdade de direitos das pessoas negras, notadamente da mulher. Vale ressaltar que no início do movimento feminista, enquanto as mulheres brancas lutavam por direito ao voto, ao trabalho e à propriedade, as mulheres negras sequer eram vistas como seres humanos e incluídas nas reivindicações. Precisamente por essa razão, foi necessário apontar os limites do feminismo hegemônico, assim como a ideia de mulher branca como referência de luta. Desta feita, as primeiras feministas desconsideraram que suas pautas estavam longe de contemplar as especificidades das mulheres negras, o que resultou no feminismo negro. No contexto da pandemia, torna-se imprescindível uma reflexão concernente sobre seus efeitos na vida das mulheres, especialmente das mulheres negras. Isso porque mulheres negras estão na base da pirâmide social, na qual vem primeiro os homens brancos, mulheres brancas, homens negros e por último as mulheres negras. Por essa razão, a filósofa estadunidense, Angela Davis (2018) afirma que quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Considerando o lugar social ocupado pela mulher negra, a reflexão torna-se intrinsicamente relevante, tendo em vista que mesmo no período de normalidade social, suas vidas já são marcadas pela precarização, notadamente no mundo do trabalho, de modo que raramente ocupam posições de prestígio. Não se pode levar a cabo essa reflexão sem compreender que na sociedade brasileira, a mulher negra passou por longo período de reificação, vista como a mulata sexualizada ou a negra que desempenhava os trabalhos pesados não só na casa grande, mas também nas lavouras. Ocorre que essa realidade não é simplesmente um fato histórico, ou uma reminiscência do passado. Trata-se de uma mentalidade que permanece presente no imaginário social. Dessa forma, as mulheres negras estão majoritariamente nas ocupações menos valorizadas social e economicamente, certamente como resultado de um passado escravocrata e colonial. Nas palavras de Ribeiro (2019 p. 84): “As mulheres negras escravizadas eram tratadas como mercadoria, propriedade, portanto não tinham escolhas.”. A este respeito, Hooks (2019) faz uma interessante análise sobre os efeitos políticos e sociais do estupro da mulher negra norte americana que, com as devidas ressalvas, pode ser extensiva às mulheres negras brasileiras. A autora ressalta que os estupro como prática reiterada, que no Brasil teve como uma das consequências, a miscigenação do seu povo, não significou apenas a destruição da integridade física e sexual dessas mulheres. Essa prática violenta, que certamente é a forma mais brutal de submissão da mulher, já que o corpo também é sede da cidadania, deixou marcas indeléveis que o passado escravocrata não apagou. Ademais disso, no Brasil permanece a uma espécie de corrosão da identidade da mulher negra, amplamente veiculada na sociedade e utilizada para a manutenção da sua situação de inferioridade de modo que no mundo do trabalho há uma certa naturalização de que as funções que lhes são adequadas é a de empregada doméstica ou o desempenho de outras atividades desprovidas de prestígio social. Essa realidade fica particularmente evidente quando se constata que de acordo com o Censo Superior de Educação com dados de 2016, menos de 3% das docentes dos cursos de pós-graduação do Brasil, incluindo instituições públicas e privadas, são negras. Esse percentual, ínfimo, engloba as mulheres que se auto declararam pretas e pardas. Entretanto, quando se considera os dados sobre as mulheres que auto declararam pretas, o universo é ainda menor, em torno de 0,4%. O mesmo Censo apontou que as mulheres brancas representavam 19% das docentes. Contudo, quando se trata de trabalho doméstico, são as mulheres negras que majoritariamente executam esse trabalho. Considerando que atuar nos programas de pós-graduação, no Brasil, é conquistar o topo da carreira docente, esses dados revelam os traços inegáveis do racismo estrutural que se perpetua na sociedade brasileira, que é alimentado, dentre outras coisas, pelo não estranhamento da ausência de pessoas negras em espaços de poder, em uma sociedade constituída por uma população de maioria negra. O racismo estrutural, essa grande vergonha moral, no dizer de Almeida (2019, p. 50), é “uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural”. Uma das possibilidades de alterar essa realidade é começarmos a questionar por que não há pessoas negras, na mesma proporção que pessoas brancas, nos espaços de poder? Cabe perguntar ao leitor ou leitora, quantas professoras negras você teve em sua formação acadêmicas? Essa invisibilidade não pode ser naturalizada O processo contínuo e sistemático de discriminação e preconceito de todas as ordens concorre para a construção social de certos estereótipos da mulher negra como a mulata disponível ao sexo fácil, inclusive amplamente difundida no exterior, ou a da negra empregada doméstica. Dificilmente há uma assimilação à imagem de uma intelectual, por exemplo. Esse processo alimenta a destituição da humanidade dessas mulheres, de modo que, historicamente, seus corpos têm sido o elemento que assegura sua sobrevivência. O corpo violado, o ventre gerador para fins econômicos com o lucro da comercialização dos seus filhos, o corpo da ama-de-leite que não podia alimentar seus próprios filhos porque era obrigada a amamentar os filhos da sinhá e, atualmente, o corpo que suporta o pesado fardo do interminável trabalho subalterno. Ora, em razão de um passado escravagista marcado por extrema subalternização, as mulheres carregam múltiplos marcadores sociais traduzidos pela interseccionalidade, ou seja, pela intersecção de vários níveis de opressão como raça, gênero e classe. O cenário gerado pela COVID-19 nos provoca a refletir sobre a situação da mulher negra no que concerne sobre como elas estão assegurando sua sustentabilidade econômica, dado que constituem um universo considerável entre as mulheres com trabalhos precarizados e subalternos. Todavia, a despeito desse lugar social, elas não podem ser vistas, de acordo com Collins (2019 p.12), como super-heroínas destemidas, ou como vítimas oprimidas que precisam ser salvas. Trata-se de mulheres que, segundo o Instituto Locomotiva (2019), movimentam por ano em torno de 704 bilhões, ou seja, que resistem, que lutam para ser reconhecidas como pessoas que podem atuar de forma competente no espaço público. Todavia, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) aponta que mulheres negras apresentam uma vulnerabilidade ao desemprego, 50% maior que mulheres não negras. Dessa forma, estão mais vulneráveis aos efeitos nefastos da pandemia, embora seja necessário ressaltar que a vulnerabilidade não é um atributo do sujeito, mas uma condição sob a qual as pessoas são postas. Com o intuito de investigar os efeitos da pandemia na vida das mulheres negras, o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), uma organização que busca dinamizar a promoção racial no mundo do trabalho, realizou um levantamento com mais de 200 mulheres negras em 19 Estado e no Distrito Federal. Entre as respondentes haviam mulheres que atuam formalmente em empresas nacionais e multinacionais, assim como mulheres empreendedoras. O objetivo da pesquisa era verificar como elas estão enfrentando o atual momento de crise em razão da COVID-19. Os dados do levantamento apontam que as profissionais que atuam em empresas nacionais e multinacionais, em sua maioria em cargos do baixo escalão, 76,4% afirmaram que seu maior receio na pandemia é a perda do emprego. Certamente porque reconhecem que mesmo em tempos de normalidades, as portas das organizações são muito mais estreitas para mulheres negras do que para mulheres brancas. Esse receio é vivenciado como algo real, razão pela qual 39,7% delas apontaram para a necessidade de apoio psicológico. Entre essas mulheres, apenas 13,2% temem por sua saúde, o que revela que a maior preocupação é com a subsistência pessoal. De outro modo, 72% das respondentes se encaixam no perfil de empreendedoras. Entretanto, “empreender” não é necessariamente uma opção para essas mulheres, mas geralmente a única via para a subsistência em virtude de não conseguir um emprego. Isso fica particularmente claro quando se constata que 80% delas não dispõem de reserva financeira, tampouco de um plano de negócio ou planejamento que pudesse garantir sustentabilidade econômica em tempos de pandemia. O estudo revelou que 44% delas possuem recurso para manter o negócio por apenas mais um mês e que o custo médio mensal do empreendimento é de R$ 1mil a R$ 5mil reais, portanto, valor bem acima do auxílio emergencial concedido pelo poder público. Em virtude disso, a maior necessidade apontada pelas empreendedoras é de capital de giro para a manutenção do negócio. Diante do exposto, é cabal a necessidade de elaboração de políticas públicas, notadamente tendo a interseccionalidade como metodologia para a concretização de políticas eficazes, que leve em conta que sobre os corpos de mulheres negras incidem vários eixos de subordinação como raça, classe e gênero, e que qualquer medida pública ou privada que não considere essa perversa realidade, está fadada ao insucesso. O receio de perder o emprego, assim como de não conseguir manter o próprio negócio e perder a subsistência não foram engendrados pela crise da COVID-19. Foram agravados em razão das consequências dramáticas da crise sanitária, econômica e humanitária. A verdade é que eles têm raízes históricas fincadas em uma sociedade com profunda desigualdade social, de modo que é urgente a eficiência na distribuição de recursos e créditos. É preciso também considerar que no momento em que a presença da mulher negra em espaços de poder e visibilidade não for uma exceção, teremos bases sólidas de uma sociedade que promove e constrói identidades diversificadas, assim como fomenta representações indispensáveis a qualquer sociedade que se pretenda democrática, justa e plural. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #filosofaemquarentena #mulheresnegrasemercadodetrabalho #pandemia REFERÊNCIAS ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019 COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política de empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019 DAVIS, Angela. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018 HOOKS, Bell. Teoria Feminista negra: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019 HOOKS, Bell. E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro; Rosa dos tempos, 2019 RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das letras, 2019. SCHWARCS, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
- Palabras en llamas: filosofas sobre filosofas - Live
Nossas irmãs argentinas da Universidade General Sarmiento apresentam uma série de micro-programas sobre filósofas por filósofas. Todos os sábados às 19 hs, pelo canal Facebook: https://www.facebook.com/unitvungs Um subproduto do patriarcado foi sempre a desvalorização - quando não a invisibilidade - das produções artísticas, científicas, culturais, filosóficas, etc, das mulheres. Palabras en llamas é uma ação cultural que se reconhece orgulhosamente como uma pequena parte das milhares que compõem as distintas reivindicações dos distintos feminismos. 23/5 María Elena Díaz apresenta Christine de Pizan 30/5 Diana Maffia apresenta Hannah Arendt 6/6 María Gardella apresenta Hipatia de Alexandria 13/6 Virginia Aspe Armella apresenta Sor Juana Inés de la Cruz #redebrasileirademulheresfilosofas #redlatinoamericanademujeresfilosofas #filosofasOrg #filosofasbrasil #unitvungs #palabrasenllamas
- Fazer morrer, deixar viver: modos de operação do racismo da biopolítica à necropolítica
ISABELA SIMÕES BUENO (UFPR) isabelasimoesbueno@gmail.com http://lattes.cnpq.br/5831321959235068 Dissertação de mestrado Data prevista de defesa: 31/01/2021 Buscamos desenvolver, ao longo da dissertação de mestrado, a temática do racismo e sua forma de operar dentro de um contexto no qual se verifica a existência de uma biopolítica, e, posteriormente, de uma necropolítica, com enfoque no seu potencial de dividir e estigmatizar populações. Nesse sentido, nosso objetivo principal é identificar a atuação do racismo de Estado – trabalhado por Michel Foucault – e de outras formas de racismo no cenário capitalista em dois momentos distintos: o primeiro, englobando o período de atuação da biopolítica, e o segundo, a partir da segunda metade do século XX, em que verifica-se a insurgência do que o pensador camaronês Achille Mbembe chama de necropolítica. Durante curso ministrado no Collège de France entre os anos de 1975 e 1976, editado posteriormente e publicado sob o título Em Defesa da Sociedade (1976), Michel Foucault versa a respeito do advento, no final do século XVII e começo do século XVIII, de um poder que se distingue do poder soberano verificado até então. As relações de soberania não mais são capazes de englobar as formas de manifestação do poder e suas tecnologias nesse novo contexto, à medida que retiram do poder sobre a morte a principal característica de exercício do poder. Além disso, a partir do momento em que os corpos passam a ser rentáveis e funcionar como força produtiva dentro do sistema capitalista, a preocupação por aprimorar dispositivos que permitam o fazer viver torna-se central ao exercício do poder. Grosso modo, como o próprio nome sugere, o biopoder relaciona-se com o controle sobre a vida, e diz respeito a fazer viver e deixar morrer. A produção e manutenção da vida em larga escala, no que tange tanto ao corpo quanto à sociedade, configura-se como base de um sistema econômico no qual a produtividade é a palavra-chave. É necessário ressaltar, entretanto, quem são esses corpos cujas vidas interessam. Isso porque, acompanhando a necessidade de fazer viver, vem também a negligência em deixar morrer alguns outros. A partir da reflexão sobre o problema da possibilidade do exercício do poder de morte dentro de um sistema político centrado no biopoder, Foucault identificará o racismo como o corte principal, a linha divisória entre os indivíduos intitulados a viver e aqueles que devem morrer. Ele atua como uma maneira de defasar alguns grupos no interior da população em relação a outros e, a partir disso, fragmenta o campo biológico que é incumbência do poder. Ao exercer o biopoder, o Estado tem por função eliminar os potenciais perigos à vida, a fim de preservá-la. Dessa maneira, sendo ele o “protetor da integridade, da superioridade e da pureza da raça”, Foucault (1976) enfatiza a principal função do racismo: estigmatizar, marcar, segmentar o outro, para que seja possível transformá-lo em inimigo e possibilitar a “morte da raça ruim, da raça inferior (ou do degenerado, ou do anormal)” (Ibidem) e a proteção da vida em geral. A raça e o racismo atuam como uma ideologia necessária para justificar a expansão do capitalismo, o colonialismo, a escravização de povos africanos, a submissão e destruição de populações indígenas, e, por outro lado, as teorias a respeito da supremacia branca, da pureza racial e da superioridade do Homem europeu em detrimento de outras populações. Referimo-nos, com a utilização do termo “Homem”, ao projeto universal de humanidade notoriamente desenvolvido a partir de ideias iluministas, que, conforme demonstraremos, ampara-se fortemente na produção do discurso sobre raças e na divisão e hierarquização de povos humanos. Nesse sentido, Homem, com “H” maiúsculo, refere-se àqueles inseridos nesse projeto de modo a serem considerados superiores, mais evoluídos ou mais esclarecidos que os demais. E, embora tais conceitos façam parte de uma narrativa imaginária, seus efeitos sobre o mundo são muito reais. Apontado por Foucault como aparato fundamental de controle e disciplina sobre os corpos na biopolítica e, de maneira mais abrangente, no biopoder, o racismo é o mecanismo de divisão entre aqueles que devem viver e aqueles que são deixados para morrer. Dizemos “de maneira mais abrangente” porque, na esteira do pensamento foucaultiano, define-se biopoder a partir de duas formas: por um lado refere-se ao corpo, em uma anátomo-política, e por outro faz menção à população, quando assume o nome de biopolítica. Quando falamos a respeito do biopoder exercido sobre o corpo, referimo-nos aos dispositivos disciplinares que têm por objetivo extrair do corpo humano, a partir do controle, sua força produtiva e colocá-la a serviço do capital. Já a biopolítica, por sua vez, atua de maneira análoga, porém com foco em regular as massas através da gestão das taxas de natalidade, dos fluxos de migração, do controle de epidemias e de tecnologias capazes de aumentar a longevidade. Contudo, a maior preocupação no capitalismo atual não se direciona mais à força de trabalho. Na verdade, em termos de economia, o aumento da composição orgânica do capital e a automatização de diversas etapas da linha de produção reduz drasticamente o interesse na manutenção de corpos vivos: os corpos dóceis e disciplinados deixam de ser valiosos, ou, pelo menos, têm seu valor diminuído. Politicamente falando, se outrora a produção da vida adequada à forma social figurava como principal interesse, manifestado através da biopolítica, agora parece-nos mais adequado falar a respeito de uma necropolítica. Falamos de vidas cuja força produtiva torna-se desnecessária ao modus operandi do capitalismo atual. Vidas que agora são consideradas supérfluas, marginalizadas, criminalizadas, e não mais interessam vivas: convertem-se em vidas matáveis. Assim atua a necropolítica, conceito explicitado pelo pensador camaronês Achille Mbembe com o intuito de expandir o conceito de biopoder e a análise biopolítica foucaultiana aos tempos atuais e, principalmente, às periferias do capitalismo, onde o estado de exceção torna-se regra e a política pode ser traduzida como a destruição material dos corpos e populações humanas julgadas como descartáveis e supérfluas. Considerando tal percurso, nosso principal objetivo nesta pesquisa é identificar a atuação do racismo de Estado tal qual explicitado por Foucault e também de outras manifestações do racismo e suas principais distinções no contexto da biopolítica e da necropolítica.Cabe, doravante, indagar: qual o ponto de inflexão da biopolítica para uma necropolítica? Em outras palavras, considerando também o aspecto econômico como fator de influência, de que maneira as crises do capitalismo contribuíram para uma transição entre uma forma de poder preocupada com a produção de vidas dóceis para um contexto de aniquilação em larga escala? Ainda, quem são esses indivíduos/grupos aniquiláveis? Buscando complementar e continuar a análise feita a respeito da biopolítica e o racismo de Estado, de que maneira o componente racial – traduzido contemporaneamente pela difusão de ideias de supremacia branca, pelas práticas de racismo, entre outros – atua na manutenção do poder nas periferias do capitalismo? A coluna Em curso divulga as pesquisas de pós-graduandas na filosofia para contribuir para a visibilidade das pesquisas de filósofas no Brasil. Quer publicar a sua pesquisa? Basta preencher o formulário. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #emcursofilósofas #filosofasbrasil #necropolítica #mulheresnapesquisaemcurso #autoras
- A importância da Rede brasileira de Mulheres Filósofas
Gostaria de lhes contar por que, a meu ver, a Rede é tão importante para nós, mulheres filósofas. Começo contando um episódio marcante na minha trajetória acadêmica. Diante da absoluta ausência de filósofas nos currículos da graduação e pós-graduação na USP, onde me formei, cheguei a me perguntar: será que existem mulheres filósofas? O que me levou imediatamente a uma pergunta de fundo: será que a mulher é capaz de filosofar? Acreditar que eu, mulher, seria capaz de fazer filosofia é muito mais difícil diante de uma história da filosofia que omite filósofas. É muito mais difícil em um ambiente acadêmico que nos diminui, oprime e até assedia. É muito mais difícil em uma sociedade machista, patriarcal que desqualifica a mulher e desvaloriza a filosofia. Pois bem, a Rede veio para nos ajudar a superar essas dificuldades. Para além da divulgação de nossos trabalhos, para além das possibilidades de nos conectarmos, para além da conquista de visibilidade e do reconhecimento acadêmico e social da filosofia feita por mulheres, está a compreensão de que esse silenciamento e essa opressão são um problema estrutural e não um evento particular que sofre uma ou outra filósofa. A Rede vem construindo o que se poderia chamar de consciência de classe ou de grupo: a consciência de que nós, mulheres filósofas, encontramos em nós mesmas força e coragem para nos expormos mais e produzirmos filosofia com mais audácia e liberdade.
- Carmel Ramos entrevista Carolina Araújo na série Podcast do PPGLM: Quantas Filósofas?
Desde 2016 Carolina Araújo elabora uma pesquisa orientada à questão das mulheres na carreira acadêmica em Filosofia no Brasil. A pesquisa "Quantas Filósofas?" tem caráter crítico e estatístico. Nesse episódio Carmel Ramos conversa com a professora da UFRJ sobre o seu trabalho de reunir dados antes não organizados e debatidos a respeito da proporção de mulheres que integram os programas de pós-graduação em Filosofia no país. Ouça o podcast em https://www.spreaker.com/user/12553643/ppglm-ep1-quantasfilosofas Leia o artigo: Quatorze anos de desigualdade: mulheres na carreira acadêmica de Filosofia no Brasil entre 2004 e 2017: https://www.revistas.usp.br/filosofiaalema/article/view/155750 #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil #filosofasOrg #ppglm #podcastppglm
- Estética feminista por Carla Damião: quinta aula do curso de Introdução ao Feminismo.
Assista aqui. Carla Damião trata de como a teoria feminista desafiou o caráter universal e atemporal da arte, além dos conceitos de beleza e gênio; fala também do olhar opositivo e da estética indígena. Essa é a quinta aula do curso online de Introdução ao Feminismo oferecido pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas sob a organização de Rita Machado (UEA). Veja o programa de curso e a bibliografia em www.filosofas.org/cursofeminismo. Carla Milani Damião é professora associada na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás, dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PGFIL) e Arte e Culturas Visuais (PPGACV) na mesma Universidade. Publicou e organizou livros, sendo o último Estéticas Indígenas. Atua principalmente na área de Estética e Filosofia da Arte e participa com entusiasmo das discussões feministas como membro fundadora do GT de Filosofia e Gênero da ANPOF. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2366404598683251 #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #filosofasbrasil #introducaoaofeminismo #esteticafeminista #carladamiao
- Filósofas participam do "Papo de cultura"
Essa semana, teremos duas lives com as filósofas Isabela Pinho e Juliana de Moraes Monteiro. A primeira acontecerá segunda-feira, dia 25 de maio, às 20h, e a segunda será 28 de maio, também às 20h. Participaremos de uma entrevista com Ana Paula Simonaci no instagram do Revistas de Cultura. Falaremos um pouco das nossas pesquisas na filosofia, atravessadas por questões de gênero, e aproveitaremos para divulgar o curso "Ética e filosofia política no tempo do agora" , organizado pelo Laboratório Filosofias do Tempo do Agora(UFRJ), do qual fazemos parte, em parceria com a Casa de Mulheres da Maré, que realiza o projeto "Maré de Sabores", parte da campanha " Maré diz NÃO ao coronavírus". link Casa das Mulheres da Maré: http://www.redesdamare.org.br/br/info/36/casa-das-mulheres-da-mare O curso está aberto para inscrições no nosso site: https://tempodoagora.wixsite.com/tempodoagora E o instagram da entrevista é @revistasdecultura! Isabela Pinho é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi pesquisadora visitante na Universidade de Munique (LMU) e nos Arquivos Walter Benjamin em Berlim. Autora de Tagarelar (schwätzen): itinerários entre linguagem e feminino (Relicário/PUC-Rio, 2020, prelo) e coorganizadora de AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de Giorgio Agamben (Ape’ku, 2020). Oferece cursos de extensão de Filosofia e Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Juliana de Moraes Monteiro é doutora em filosofia pela PUC-Rio (2019), onde defendeu a tese “O que a Esfinge ensina a Édipo: os limites da interpretação, o demoníaco e o infamiliar na arte contemporânea”. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado no programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ, como bolsista nota 10 da Faperj, sob orientação da professora Carla Rodrigues. É co-autora de Trauma/arte contemporânea brasileira (Editora Circuito, 2020, no prelo) e co-organizadora do livro AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de Giorgio Agamben, publicado pela Editora Ape´ku em 2020.
- Conversações Filosóficas com Caio Souto: Crise Democrática e Neoliberalismo
Conversamos sobre a crescente rota de autocratização e crise democrática no Brasil à luz do neoliberalismo como sistema de acumulação que é incompatível com uma igualitária e inclusiva. Anos de culto ao individualismo e de (i)liberalismo mal engendrado fragilizaram valores democráticos, bem como o enfrentamento de uma crise sanitária na escala da pandemia. A política de austeridade fiscal, projetada para financiar cortes de programas sociais e de pesquisas científicas e promover flexibilização de direitos, tornou-se incompatível com a promessa democrática de inclusão socioeconômica. Entrevista completa no link: https://www.youtube.com/watch?v=nCytJ37otvk
- Uma Filósofa por Mês - em meio à pandemia
O projeto "Uma Filósofa por Mês" tem por objetivo a produção e veiculação de material sobre filósofas. Nosso plano inicial era o de apresentar um conjunto de atividades mensais que englobariam uma palestra, um minicurso e uma atividade cultural focada em uma filósofa específica a cada mês. A pandemia nos pegou de surpresa no início de nossas atividades, mas não paramos. Passamos a desenvolver nossas pesquisas a partir de outros suportes, e aprendemos a gravar podcasts, fazer entrevistas, e a interagir com meios virtuais de divulgação. No mês de março, fizemos extensa pesquisa sobre as Pitagóricas, e disponibilizamos materiais no nosso blog: tradução dos textos das autoras pesquisadas e de comentários, um amplo levantamento bibliográfico e documentos a respeito de citações antigas, variações dos nomes das filósofas em outros idiomas, além de três podcasts e ensaios filosóficos: https://germinablog.wordpress.com/marco-as-pitagoricas/ No mês de abril, tivemos a colaboração dos historiadores Semíramis Corsi Silva e Daniel de Figueiredo para contemplarmos Hipátia de Alexandria. Além de um podcast e de uma entrevista com estes pesquisadores, disponibilizamos ensaios filosóficos sobre questões imagéticas, questões de repercussão em obras literárias e artísticas, traduções de referências antigas e modernas à filósofa neoplatônica e uma lista de indicações bibliográficas: https://germinablog.wordpress.com/abril-hipatia-de-alexandria/ Todas estas pesquisas e documentos seguem em construção e novas contribuições são sempre bem-vindas. Para este semestre ainda apresentaremos duas filósofas da Idade Média: HIldegarda de Bingen e Christine de Pizan. Estamos realmente na fase inicial do projeto. Queremos, no futuro, apresentar pensadoras que não estejam atreladas a esse eixo eurocêntrico que nos foi apresentado pela História da Filosofia como sendo o eixo que compõe "A Filosofia", tanto do ponto de vista do gênero quanto da cultura, da geografia e do tempo histórico propostos. A nossa maior ambição é poder ser um local de apoio para quem quiser trabalhar com alguma filósofa, tenha ela recebido ou não esse "título". Para isso, gostaríamos de lançar aqui um pedido: se você está trabalhando com uma autora filósofa ou intelectual entre em contato conosco: umafilosofapormes@gmail.com Gostaríamos de poder criar um banco de dados sobre quem são as autoras que estão sendo trabalhadas e quem está trabalhando com elas e em que lugar (qual parte do país, qual cidade…). E, se você deseja trabalhar uma filósofa ou autora específica, queremos poder ser um ponto de contato a partir do qual você possa vir a encontrar material de apoio. Se isso não for possível nesse momento, talvez o seja no futuro. A cada ano, queremos ter mais e mais material disponível. Aproveitamos, igualmente, para informar que esta semana começaremos as postagens sobre Hildegarda de Bingen. Imagem de Hildegarda de Bingen; criação de Shayenne Bruna Alves
- HuMANAS: pesquisadoras em rede
HuMANAS: pesquisadoras em rede surge da necessidade de enfrentar os problemas de gênero e as interseccionalidades que estruturam e condicionam o mundo acadêmico. O grupo pretende promover reflexões críticas e ações colaborativas, através do diálogo transdisciplinar, da intervenção efetiva nos espaços públicos e da defesa dos valores e ideais democráticos. Conheça a página Facebook Ouça aqui o primeiro episódio do podcast HuMANAS pesquisadoras em rede: “Novo vírus, velhos problemas: Com a historiadora Nathalia Sanglard e a filósofa Katarina Pitasse Fragoso. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #filosofasbrasil #humanas #mulherespodcasters
- Feminismos subalternos por Susana de Castro: sexta aula do curso de Introdução ao Feminismo
Assista aqui. Susana de Castro trata do conceito de subalternidade e de sua relação com o colonialismo. Apresenta o desenvolvimento do feminismo decolonial latino-americano e a a sua oposição ao sistema moderno colonial de gênero. Essa é a última aula do curso online de Introdução ao Feminismo oferecido pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas sob a organização de Rita Machado (UEA). Veja o programa de curso e a bibliografia em www.filosofas.org/cursofeminismo. Susana de Castro é Professora associada do departamento de filosofia da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ. Coordenadora do Laboratório Antígona de Filosofia e Gênero. Autora dos livros Filosofia e Gênero (7Letras, 2014) e As mulheres das tragédias gregas: poderosas? (Manole, 2011), e do capítulo “Condescendência: estratégia pater-colonial de poder” (In: Hollanda, Heloisa Buarque, org. Pensamento feminista Hoje: Perspectivas decoloniais, Bazar, 2020), entre outros. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7714162590268606 #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasOrg #filosofasbrasil #introducaoaofeminismo #feminismossubalternos #susanadecastro











