GT FILOSOFIA E GÊNERO
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- A respeito do nome Escutas Feministas
Veja o vídeo aqui. Escutas Feministas. Tenho perguntas para as quais eu não tenho respostas. Quem disse que temos que escutar? Escutar o que e para que? Escutar é dar soluções? Para ouvir e levar adiante? Para aglomerar falas? Demandas? Pedidos? Ordens? Desabafos? Para armazenar falas? Para fazer ecoar falas que nós escutamos direito? Escutar para elaborar? Conseguimos escutar para elaborar? Quais são os silêncios e/ou barulhos posteriores às escutas? O silêncio? E se escuta nos calar, nos sobrecarregando? Talvez escutar seja importante também para escapar, para transpor, para ir a outros lugares? Escutas feministas? Por que feministas? A escuta é feminista quando se dá através de ouvidos de mulheres? Quem escuta muito pode ser surdo para os próprios barulhos? Escutar? Sim. Talvez. A depender. Escutar o que? Escutar, desde que escutar não signifique deixar de ir adiante. São muitas histórias não escutadas. A história dos povos negros e indígenas é uma das maiores gravidades da brutalidade das surdezes de nossa história. Também por causa disso, hoje é o dia da consciência negra. Um dia que não pode ser apenas um dia, mas que já não pode deixar de ter esse dia como um dia histórico entre nós. E quem venham mais dias para gritar contra tanta surdez, ignorância e protecionismos políticos. A respeito de Escutas Feministas dentro da Universidade, hoje também é um dia importante (creio que também seja o trajeto proveniente do mesmo caminho de luta de negras e negros contra a opressão). Há muito a ser pensando a respeito de Escutas Feministas num lugar onde, tradicionalmente, alguns falam, outros escutam, e entre quem fala, não necessariamente há escuta. E por parte de quem escuta, nem sempre há compreensão. Problemas da educação que cotidianamente precisamos enfrentar. Muitas vezes, somos e/ou estamos entre bocas falantes e ouvidos tapados. Muitas vezes são bocas que pedem e ouvidos que negam. Ainda assim, segue a construção do conhecimento. Segue ou já foi interceptado onde apenas um tipo de conhecimento é reconhecido? Segue a partilha do conhecimento? A saber. Por vezes, no máximo lemos (a depender do nosso escasso tempo, e da pontuação da revista na qual se deu a publicação do artigo científico, filosófico, "verdadeiro" do intelectual, se ele for renomado; se for uma leitura que “compensa”). Nossas surdezes acompanham o nível de nossas mentalidades. Nossa escuta também funciona sob o aval da convenção. É recorrente ouvir apenas as autoridades e, para ser ouvido, tornar-se uma autoridade. Também somos ouvidos que selecionam: quem escreveu? Qual a titulação? Qual a pontuação? Qual a fama? Qual o gênero? Qual a raça? Imitamos o hábito da seleção, da segregação. Nosso preconceito é gritante tanto quanto grita a fragilidade de nossa democracia. E para ser escutada? O que fazer? Quer falar para ser escutada? Imite a voz e a postura de um homem! Use da mesma razão. Imite tudo o que já está posto como verdade e eficiência. Este funcionamento ainda se dá, e as enferrujadas dobradiças não nos deixam escutar o barulho estrondoso que fazemos ao tomarmos a imitação um recurso para o feminismo. Em meio a isso, como parte disso, mas também contra isso, nos complicadíssimos processos pelos quais se arriscam todas as novas construções, aqui na UFG, desde 2017, levamos adiante o projeto de extensão Escutas Feministas. Para novos aprendizados é indispensável estender, porque ao olharmos apenas para o que é próprio, corremos o risco de percorrer uma linha que costura o apego aos próprios limites. Necessitamos de um projeto de extensão, não necessariamente porque “lá fora” precisem de nós, mas ao menos porque precisamos abrir nossos ouvidos já tão surdos e que ainda insistem em ecoar os modos atordoantes e inférteis de lidar com os conhecimentos já consagrados, assumidos como “nossos” nas relações acadêmicas que perpetuamos. A relevância de falar e escutar para fora é imensa. A respeito desta relevância, não é possível tratar neste momento. Que ao menos Paulo Freire seja lido e relido. É o mínimo. Mas escutar “lá fora”, para aprender, e quem sabe, conseguir ensinar, ainda é um movimento curto. O que não é cotidiano e cômodo é muito difícil ser mobilizado. Herdamos e sustentamos o pensamento elitista que acredita que se pode fazer sozinho e a partir da autorização de lados opostos: o lado de cima, sustentado pelos “a baixos”. Enquanto isso e por causa disso, mães, pais, empregadas e empregados sustentam com seus trabalhos nossa alimentação, vestimenta, transporte, limpeza do lar, enfim, sustentam algumas, muitas, senão todas as condições para a leitura, a escrita, o estudo, a pesquisa, o pensamento acadêmico. As intelectuais e os intelectuais pisam num solo bem fértil, embora por elas e eles mesmos muito desprezado ou até recusado. Pensamos só entre nós e a despeito de todas as demais e os demais que nos sustentam. E se alguns destes vieram para juntos de nós, não necessariamente os escutamos. De línguas outras sabemos das mais distantes. Se, para nós, quem é diferente pode ingressar, entre nós poucos conseguem permanecer e pertencer. Ainda assim, acredita-se que o conhecimento daqui é universalmente válido, mesmo sendo bem surdo. Mas quem, como eu, é filha de faxineira e de metalúrgico sabe muito bem que não é nada disso. Há sábios mais acessíveis em lugares bem distintos. O “lá fora” está aqui dentro, mas é ainda mais amplo. Um imenso desafio pra nós é essa "estória" de extensão. Perguntas não nos faltam, e precisamos não nos ensurdecer para elas. Estender para onde? A partir do que? Estender o que é curto? Por que estender? E como? O que temos a ofertar? Temos escutas para receber o que poderão nos falar? Falam certo? Falam coisas interessantes? Falam coisas válidas? Não se tratam mais de “ignorantes” inaptos para o conhecimento “avançado” que aqui se faz? O que já dissemos e pensamos a respeito do “fora”? Escutamos nossas próprias palavras, pensamentos, preconceitos? Ou seguimos "ensurdecidas" para nossa surdez para quem nos sustenta? Podemos também dar seguimento às formas cada vez mais usuais (e cada vez mais em vias de serem institucionalizadas) de diminuir quem não é economicamente favorecido? Embora a esta altura do campeonato (no 7 X 0 cotidiano), já vimos onde os intelectuais foram colocados neste jogo. Passamos por isso em nosso cotidiano político. Mas não sei o quanto lidamos com isso. A lida é algo para quem não ignora. De todo modo, Escutas Feministas se pretende projeto de extensão, nasceu a partir deste desejo. E para tanto está também enfrentando o imenso desafio de ser escutas internas das questões nem sempre escutadas dentro da Universidade e pela própria Universidade. Só enquanto aprendemos a nos escutar (e escutar as próprias surdezes e falas), podemos ser projeto de escutas. Não há antes e depois. O aprendizado não funciona neste tempo fracionado e dicotomizado, tal como alega ser o mercado e a produtividade, com suas promessas de soluções para cada coisa e para tudo. Então, precisamos enfrentar ao mesmo tempo o desafio de escutar-se e escutar. Qual a escuta suficiente é uma questão aberta. Quanto tempo precisaremos para escutar inclusive nossas brutalidades silenciadas, nossos posicionamentos e faltas de posicionamentos, nossos empacamentos, nossos elitismos e nossa reprodução de machismos? Se o feminismo é para todos (bell hocks), ainda temos muito a aprender sobre como ele está entre nós. Mas isso precisa se dar com o feminismo e a partir do feminismo. Isto, não por modismo, como insiste em afirmar quem quer nos diminuir (algo bem típico de clichês). O modismo passa, o feminismo nunca esteve de passagem. Feminismo não é grupinho de ajuda. E se o senso de coletividade é inegável ao feminismo, isso diz de problemas políticos/sociais e morais de uma sociedade exploratória. É importante analisar os slogans para não sobrecarregar ainda mais as mulheres. O senso internacionalista, que historicamente compõe a história do feminismo, é estratégia de sobrevivência. Precisamos do feminismo fortalecido, porque tal como outras formas de lutas contra opressões das mais diversas, ele é salutar para todas e todos façamo-nos viver de um modo mais decente do que nos moldes que têm sido hegemônicos. Mas não vai dar pra voltar atrás e aceitar mais demandas, sob o viés da moralidade e das definições. Nós mulheres não temos o dever de escutar mais ou menos do que quaisquer outras pessoas. Não vai dar pra ser feminista consentindo a reprodução dos machismos, entre eles, todos os deveres a nós já imputados. E necessário a escuta do barulho da repetição. Ao feminismo é muito caro aquilo que se dá no gerúndio e de modo genuíno. O feminismo começou há muito tempo, está em muitos lugares, mas ainda está se dando. O acabado não nos pertence. O pacote pronto não é vendido e não aceitaríamos comprá-lo. O custo é outro: a coletividade, difícil de ser mantida em meio a tantos egos; porém ela precisa ser cuidada, preservada, ao invés de disfarçada sob qualquer semelhança com slogan tal como “fala que eu te escuto”. Se escutar se transformar em mais uma ordem, mais uma gaveta, mais uma moralidade para nós, escutar não será algo do feminismo, mas mais um machismo sob vestes femininas. Sobre como ser feminista e qual a forma mais correta, funcional e ideal? A Universidade também não sabe. Para essa história em construção, não há ignorantes nem sábios. Seguiremos enquanto tantas formas de opressão ainda se der entre nós e que não aceitemos mudar de lado, porque o opressor nunca prestou. Seguimos assim: talvez com muitos erros e equívocos, que só ao serem respeitosamente apontados, poderão ser repensados, porque esta história de arrogância, negação, grosseria e certezas, para tentar ganhar em detrimento de outrem, diminuindo a/o outra/o, é coisa de macho. Nós preferimos as construções, as gravidezes, os partos, as colaborações, as parcerias. Dessas dores pode brotar vida. Se preciso for, também sabemos e podemos abortar. Somos nós que temos a oportunidade de gerar ou de interromper. Sim, precisamos de todas e todos, mas para os nascimentos, inclusive, os nossos nascimentos, algo tão caro neste lugar de competições e destruições (não é à toa o grande número de adoecimentos diagnosticados ou não, assumidos ou não, tratados ou não, ou negados e camuflados; não é à toa o número de assédios, de brutalidades descaradas ou sob a tentativa de justificativas ou até de regulamentos). Escutas feministas requer filtros. Nosso ouvido não pode ser pinico. Enquanto mulheres, não temos que escutar tudo o que vem e nem de qualquer modo. Nossos ouvidos não são funis por meio do qual escutaremos tudo, por nada, e em excesso. Não somos mais receptáculos e suportes de tudo o que vem. Já pudemos ser curadas deste tipo de exploração e isso se deu graças ao feminismo. Nossa escuta pode ser, finalmente, para quais são os nossos desejos, desejos de nascimentos. E, para tanto, escutar-se é indispensável. Não para movimentos individuais e isolados. Não para "Eus" inflados e carentes de razão e de obediências. Mas para saber o que se quer juntas, o que é possível fazermos juntas e se estamos buscando juntas, sem nos oprimir. Os “Eus” são perigosos, porque são obras dos outros. Feminismo não é vã reclamação e aglomerado de queixas. Se as fazemos é por estar faltando séria escuta. Somos bem-amadas, se nos amarmos, e somos artistas, se criarmos. E ainda podemos ter uma vantagem: nós podemos ir de mãos dadas, afinal, somos mulheres e temos a vantagem de, desde crianças, podermos andar de mãos dadas. Deixemos as correntes para seus inventores. Nós somos parte de quem quebrou a corrente, de pessoas que tiveram coragem de fugir do pelourinho, de pessoas que se recusaram a serem aprisionadas à cozinha, à casa e qualquer interioridade que submete. Somos de onde quisermos ser. Não somos meigas, nem estupidas; nem isso, nem aquilo. Temos ouvidos. Temos fala. Mas também podemos nos tornar surdas para as falas que tentem nos submeter. A fixidez das definições e das obrigações também são invenções de outros. Quem quer permanecer é quem tem algo a preservar. Nós temos a construir. Nós não saímos para carregar mais pesos. Precisar sofrer é uma demanda que disseram que nos pertence. Já escutamos demais essa história. Mas já rasgamos esses livros. Já abortamos essa exigência. E não ouviremos quem quer que seja que venha ditar “o que é”, e “como é”, e “como deve ser” o novo, cuja construção não é de hoje. Se há tradições a serem cuidadas, tradição alguma nos soterrará. Cuidamos somente até o ponto em que elas não nos sufoquem dentro dela. Nem cuidar é algo especificamente nosso. São muitas as inversões que não merecem mais ouvidos. Se estivermos sumindo, gritemos. Não temos patrões nem patroas; idealizadores, nem feitores, porque “o basta!” já começou a ser gritado e seguirá cada vez mais intenso, até que seja ainda mais escutado. O coro precisa aumentar e, por isso, o grito precisa ser para fora (e não contra nós mesmas), e precisa se dar a partir de muitas vozes, porque quem precisa do peso de alcançar algo sozinho, sofre muito. Não voltaremos mais e, para tanto, é importante estender o corpo todo e a alma, se ela não for, um peso a mais. Porque o que podemos quem sabe aceitar que temos é nosso poder de fazer nascer e de abortar. Que possamos assumir nossos poderes. Quando o corpo morrer, a alma que não pesa poderá ser levada adiante por outras que seguirão nos ouvindo, somente se nos estendermos. Trata-se de um grande movimento que não é individual ou de pequenos grupos. Antes de nós, muitas vieram, daqui de dentro e de lá de fora. Só por causa das escutas, elas seguem conosco. Se neste lugar da universidade cresceram e se fortaleceram os limites, é neste lugar que poderemos trazer o fora, para que ele seja mais universal; mas isso depende de quem escuta quais são os limites, não para adulá-los e fazê-los ainda mais fortes. A escuta não precisa se dar como receptáculo, mas pode ser para iniciar; pode ser condição para selecionar o que queremos e o que não queremos, e não nos demorar no que não queremos. Escuta pode ser passo adiante e não sala de recepção. Não sejamos surdas para o que se passa conosco. Que possamos aprender escutas para distintas linguagens, sinais e até silêncios, para saber dos assuntos, mas principalmente para alterá-los, conforme nos alterarmos. Se é necessário fazer e ouvir os gritos e os “bastas”, é salutar ter escutas para o que mobiliza tudo isso: os desejos. Feminismos desde sempre tem a ver com novas formas de pensamento e de vida, e para a saída de condições que tolhem. Se há queixas é para que elas deixem de se dar. Feminismo não traz a mesmice. Mas quem entre nós pode temer a diferença, se podemos ser gravidezes de nós mesmas? Ou somos o mesmo? Fica a pergunta. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil #escutasfeministas
- É preciso falar sobre assédio, sim
Uma mulher que entra no curso de filosofia já transgrediu uma série de interditos sociais e culturais da sociedade patriarcal *Entrevista de Silvana de Souza Ramos a Nádia Junqueira Ribeiro para a ANPOF Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof e professora de Filosofia da USP, Silvana de Souza Ramos fala nessa entrevista sobre assédio moral e sexual nos programas de pós-graduação em Filosofia e sobre a baixa presença das mulheres na área. A professora, que também coordena o Grupo de Estudos de Filosofia Política da USP, comenta sobre o documento publicado pela Anpof e elaborado pelo GT no fim de 2018 que contém diretrizes para combater assédio e sua importância, uma vez que as estudantes que sofreram ou que afirmam sofrer algum constrangimento ou violência, na maioria das vezes, não se sentem seguras para denunciar o fato às instituições a que pertencem, especialmente em casos de assédio sexual. Ainda que o documento preveja a avaliação qualitativa das ações de prevenção e de combate ao assédio como um elemento decisivo na avaliação dos PPGs pela Capes, ela reforça a necessidade de haver engajamento de todos e todas para que a recomendação se efetive. Para ela, isso passa pela necessidade de se estabelecer uma cultura de combate ao assédio em todas as universidades do país, o que exige a desnaturalização de relações opressivas generificadas e racializadas. Silvana, que também é Editora dos Cadernos Espinosanos, discute os números explicitados pela pesquisa da professora Carolina de Araújo que expressam a baixa presença das mulheres na Filosofia. Para a professora, a pesquisa é um marco para o debate a respeito da desigualdade de gênero em nossa área. Ela comenta que a simples descoberta do baixo percentual de mulheres na área já foi em si uma vitória. Ela salienta sua preocupação com o fato de haver um crescimento vertiginoso dos PPGs em Filosofia no país que, contudo, não enfrentou o desafio de desfazer desigualdades específicas, como as de gênero. Além de outras desigualdades, como as regionais, as de raça e as de classe. Para ela, é hora de enfrentar esses desafios. Para a professora, nossa área apresenta empecilhos para a implantação de mudanças nos parâmetros de avaliação de produtividade, os quais desconsideram as desigualdades de gênero. Silvana avalia o ambiente universitário hostil à presença pensante e autônoma de mulheres. Para a professora, é necessário não apenas detectar os fatores de evasão das mulheres, mas também combatê-los por meio de práticas eficazes. Ela indica a necessidade de colher mais dados sobre a entrada e as razões para descontinuidade delas na carreira. Ela propõe, ainda, que nossa área tenha como meta a manutenção da proporção da entrada nos níveis superiores da carreira. Por fim, a professora comenta de sua experiência enquanto professora em diálogo e debate com suas estudantes. Segundo Silvana, elas afirmam se sentir mais à vontade nas disciplinas ministradas por professoras, onde há diversidade de gênero, e querem conhecer a história das mulheres na filosofia, desejam reverter o processo de silenciamento a que as escritoras e pensadoras do passado foram submetidas. No final de 2018 o GT de Filosofia e Gênero elaborou um documento com diretrizes para se combater o assédio moral e o assédio sexual nos programas de pós-graduação em Filosofia. Como se deu essa iniciativa? Essa não é a primeira vez que o GT de Filosofia e Gênero elabora um documento dirigido à comunidade de pesquisadores e pesquisadoras em Filosofia no Brasil. Em dezembro de 2017, lançamos uma carta-manifesto sobre a representação da área de Filosofia na Capes (http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/forum-anpof/item/498-debate-sobre-a-coordenacao-de-area-da-capes-2017/14847-carta-do-gt-filosofia-e-genero-sobre-a-representacao-na-capes) por meio da qual procuramos expressar nossas preocupações com o destino da pesquisa em Filosofia em nosso país. Nosso objetivo era chamar a atenção da comunidade filosófica para a baixa representatividade das mulheres nos programas de pós-graduação, nos altos cargos da burocracia universitária, nas agências de fomento à pesquisa e nas diferentes comissões de avaliação. Buscávamos abrir uma ampla reflexão sobre quem faz filosofia e sobre o que significa fazer filosofia no Brasil, levando-se em conta as diversidades regionais, de classe, de raça e de gênero que permeiam o estudo da filosofia e as condições segundos as quais se faz pesquisa na área em diferentes recantos do país. Defendemos ser necessário pensar sobre decisões institucionais e sobre práticas que muitas vezes são endossadas e replicadas sem a devida reflexão crítica. Assim, naquela ocasião, convidamos a todos e a todas à leitura de um manifesto sobre a própria ideia de representação em filosofia. Diante da evidente disparidade de gênero, de raça e de classe em nossa área, onde ainda subsistem feudos patriarcais, buscamos refletir sobre aquilo que sub-repticiamente estrutura nosso trabalho e nossas avaliações – valores e critérios, que poucas vezes são discutidos publicamente –, e sobre as consequências de determinadas posturas frente ao trabalho de formação e de pesquisa para o futuro de nossa área. O manifesto foi escrito coletivamente, e assinado por mais de uma centena de pesquisadoras e pesquisadores do país, o que por si só expressa a urgência para que se promova um sério debate sobre o assunto. Nesse segundo documento, novamente dirigido à comunidade de pesquisadores e pesquisadoras da área, apresentamos diretrizes para a prevenção e o combate ao assédio moral e ao assédio sexual nos PPGs em Filosofia. Trata-se, agora, de chamar a atenção para um problema mais específico, que atinge as mulheres ao longo da carreira em Filosofia (http://www.anpof.org/portal/images/Manifesta%C3%A7%C3%A3o_de_Apoio_e_Diretrizes_vers%C3%A3o_final_2.pdf). A escolha do tema não foi aleatória, pois de certo modo respondeu a uma demanda proveniente da comunidade de pesquisadoras em Filosofia. Em outubro de 2018, o GT de Filosofia e Gênero participou da realização de dois importantes eventos no Encontro da Anpof, em Vitória: a Homenagem às Mulheres Filósofas e a Plenária das Pesquisadoras em Filosofia. Durante a organização e a realização desses dois eventos, o problema do assédio moral e do assédio sexual foi levantado muitas vezes. Professoras, alunas, e pesquisadoras em geral, relataram diversas experiências de assédio, desde reclamações por conta de piadas e comentários desagradáveis e desrespeitosos em ambiente de trabalho, passando por coerções à pesquisa e enfrentamentos diversos, chegando ao testemunho de violências e de abusos sexuais. Muitas pesquisadoras e pesquisadores da área se mostraram preocupados com a situação, uma vez que aquelas que sofreram ou que afirmam sofrer algum constrangimento ou violência, na maioria das vezes, não se sentem seguras para denunciar o fato às instituições a que pertencem, especialmente em casos de assédio sexual. Elas temem retaliações, temem o peso da insígnia de abusadas, temem a desmoralização e o descrédito por parte da comunidade acadêmica. As diretrizes pretendem fomentar um amplo esclarecimento sobre esse assunto, de modo que ele seja abordado e enfrentado com cuidado e firmeza por cada um dos PPGs em Filosofia do país. O documento foi escrito e assinado por diversas pesquisadoras, algumas do GT de Filosofia e Gênero (além da minha participação, colaboraram Carla Damião, Ilze Zirbel, Carla Rodrigues e Susana de Castro), e outras, não integrantes do GT (Tessa Lacerda e Yara Frateschi). Durante todo o processo de elaboração das diretrizes, nosso GT reconheceu que era importante dar voz ao maior número possível de pesquisadoras, de diversas partes do país, para que formássemos uma ampla rede de colaboração capaz de produzir um documento coletivo sobre esse assunto. Assim que o documento ficou pronto, em dezembro de 2018, entramos em contato com o professor Nythamar de Oliveira, atual representante da área de Filosofia na Capes, para que ele nos recebesse em Brasília. Nythamar foi extremamente solícito, acolheu o documento e aceitou nossa sugestão para que as diretrizes fossem apresentadas aos coordenadores dos PPGs em Filosofia do país que estivessem presentes na reunião de área, realizada no dia 12 de dezembro de 2018. Todos os coordenadores e coordenadoras que compareceram à reunião se mostraram sensíveis ao problema, aprovaram o documento com as diretrizes, e se comprometeram a fomentar o estabelecimento de práticas de prevenção e de combate ao assédio moral e sexual em seus respectivos programas. Em seguida, os coordenadores dos PPGs e a direção da Anpof iniciaram o processo de divulgação do documento para a comunidade filosófica em geral. A nossa expectativa é que essas diretrizes cheguem ao conhecimento do maior número possível de pesquisadores e de pesquisadoras, e que, além disso, sejam um ponto de partida para o estabelecimento de relações mais justas e igualitárias em nossa área de pesquisa. Há muito o que fazer nesse sentido e acredito que o combate ao assédio moral e ao assédio sexual seja um importante avanço a ser fomentado por todos e todas. Há possibilidade de haver algum acompanhamento para saber se essas diretrizes estão, de fato, chegando até nossas alunas e mudando a realidade de assédio em nossos programas? Essa é uma questão importantíssima. O próprio documento recomenda o desenvolvimento de atividades de divulgação das diretrizes e de esclarecimento a respeito do tema nos PPGs de Filosofia do país. Todos os PPGs se comprometeram com as diretrizes e estão dispostos, portanto, a estabelecer políticas de prevenção e de combate ao assédio em suas instituições sede. É preciso romper o silêncio sobre o assunto, trata-lo com a delicadeza e a firmeza exigidas pelo tema. Ora, isso só será possível se a divulgação e o debate forem capazes de envolver todos os pesquisadores e pesquisadoras em filosofia, não apenas as mulheres. O documento fornece balizas para a tipificação dos diversos tipos de assédio, além de solicitar que o assunto seja incluído como um dos itens de avaliação dos PPGs, a constar nos relatórios internos dos programas em Filosofia submetidos à avaliação da Capes, de modo que estes possam expor as ações realizadas e os avanços conquistados na prevenção e no combate ao problema do assédio. Em outras palavras, o documento prevê a avaliação qualitativa das ações de prevenção e de combate ao assédio como um elemento decisivo na avaliação dos PPGs pela Capes. Essa recomendação, porém, não será efetiva se não houver engajamento de todos e todas. É preciso estabelecer uma cultura de combate ao assédio em todas as universidades do país, o que exige a desnaturalização de relações opressivas generificadas e racializadas, seja no âmbito do ensino, seja no âmbito da orientação de pesquisas de mestrado e doutorado, e da coordenação dos trabalhos de pesquisa em geral. Este documento é uma das iniciativas importantes para inibir os assédios em nossos programas. Quais outras julga serem necessárias para que essa realidade seja transformada? O documento tem por finalidade fomentar o debate sobre o problema do assédio moral e do assédio sexual, reconhecendo que esse problema é também atravessado pela discriminação de gênero, de classe e de raça. Sobre esse último ponto, é necessário pôr em relevo o fato de que temos pouquíssimas professoras negras, indígenas ou transexuais em nossos PPGs. O primeiro passo foi dado no sentido de estabelecer parâmetros tanto para o reconhecimento desse tipo de violência – o assédio na universidade – quanto para o debate acerca de suas consequências no que diz respeito ao reforço de desigualdades de gênero, de classe e de raça no contexto acadêmico da pesquisa em Filosofia. Penso que cabe aos PPGs e aos cursos de Filosofia em geral a tarefa de abrir espaço para o estudo desse tema, e a responsabilidade por garantir o estabelecimento e a continuidade de ações de prevenção, de investigação e de punição em casos de assédio moral e sexual, se necessário e cabível. Cada PPG tem uma realidade, cada universidade está ancorada em estatutos próprios, de modo que o documento que lançamos não pretende oferecer um pacote pronto de soluções. Pelo contrário, cada PPG terá de encontrar soluções compatíveis com estatutos e realidades particulares. Isso não significa, contudo, que a troca de experiências e de informações entre os PPGs e entre os diversos pesquisadores e pesquisadoras do país não possa ser útil e enriquecedora. Há programas que lidam há mais tempo com a questão do assédio, há outros que estão começando a discutir o assunto. Há poucos PPGs em cujo quadro docente encontramos um número significativo de professoras, pois a desigualdade numérica é uma realidade na maior parte dos casos. Essa situação impõe um constrangimento adicional às possíveis vítimas de assédio, pois elas não podem contar com o apoio de um número significativo de mulheres, as quais poderiam fornecer o acolhimento inicial necessário para a sua proteção e orientação. Uma das soluções encontradas para esse problema é o estabelecimento de redes transversais de apoio, por meio das quais estudantes e pesquisadoras trocam experiências e solicitam ajuda, quando necessário. Na Universidade de São Paulo, há, por exemplo, a Rede Não Cala (https://redenaocala.tumblr.com/), entidade composta por professoras e pesquisadoras de diversas áreas que lutam contra a violência sexual e de gênero na instituição, e dão apoio às vítimas que denunciam casos de assédio e abuso. Penso que iniciativas desse tipo no âmbito da pesquisa em Filosofia no país possam trazer bons frutos no que diz respeito ao combate ao assédio. De qualquer modo, precisamos combater a cultura de culpar as vítimas pelo assédio moral e assédio sexual. Elas devem ser respeitadas, e suas denúncias devem ser acolhidas e seriamente investigadas pelas instituições. Uma investigação precisa, aliada à contabilidade e ao estudo dos casos por parte de pesquisadores do assunto, trará esclarecimento sobre o tema e fornecerá às instituições a clareza a respeito da real dimensão do problema. A partir daí, poderemos estabelecer políticas mais eficazes de combate à violência de gênero, de raça e de classe em nossas instituições de ensino e pesquisa. Sabemos que se trata de um assunto delicado e difícil, mas não podemos simplesmente fingir que ele não existe. Em 2016 Carolina Araújo, professora da UFRJ, publicou uma pesquisa que mostra que nossa presença na universidade decresce ao longo da carreira. Somos 38% entre os graduados em Filosofia, 28% nos cursos de pós-graduação e 20% entre o corpo docente do curso de Filosofia. Você acredita que o assédio moral e sexual tenha relação com essa baixa presença das mulheres na Filosofia? Em primeiro lugar, gostaria de salientar a importância dessa iniciativa da professora Carolina Araújo. A pesquisa quantitativa feita por ela e divulgada pela primeira vez em 2016, quando da criação do GT de Filosofia e Gênero da Anpof, é um marco para o debate a respeito da desigualdade de gênero em nossa área. Ela conseguiu dar visibilidade e assim tornar palpável o problema que precisamos enfrentar enquanto comunidade de pesquisadores e pesquisadoras dedicados à mesma área de estudo. Da baixa presença das mulheres nos PPGs em Filosofia – apenas 21%, conforme último relatório Quadrienal da Capes (https://capes.gov.br/images/documentos/Relatorios_quadrienal_2017/20122017-Filosofia_relatorio-de-avaliacao-2017_final.pdf), no qual pela primeira vez, depois da pesquisa de Araújo, foram contabilizados quantos homens e mulheres estão atuando em pesquisa atualmente – ao imenso número de alunas da Graduação que não conseguem dar sequência à carreira e, assim, chegar ao Doutorado e à docência universitária, percebemos que a Filosofia tem sido uma área resistente a mudanças estruturais, que reverteriam esse quadro de desigualdade, mas também a uma mudança de postura nas relações no interior de uma academia que guarda ainda muitos traços autoritários. Por um lado, há empecilhos para a implantação de mudanças nos parâmetros de avaliação de produtividade, os quais desconsideram as desigualdades de gênero; por outro lado, as relações estabelecidas no interior da academia fortalecem posturas patriarcais, as quais sujeitam as mulheres a situações de assédio moral e sexual, pois o ambiente universitário é hostil à presença pensante e autônoma delas. Segundo o parecer de várias pesquisadoras, a simples descoberta do baixo percentual de mulheres na área já foi em si uma vitória, pois até o lançamento de uma campanha #QuantasFilósofas no encontro da Anpof de 2016, não havia sequer a informação de como somos poucas. Os números mostraram que há uma desigualdade na entrada, algo revelador do machismo estrutural vigente em nossa sociedade. O lugar do pensamento abstrato não é socialmente destinado às mulheres – basta olhar para a coleção Os Pensadores, da Editora Abril, cuja primeira publicação se deu entre 1973 e 1975, tornando-se, por sua vez, um marco da popularização da filosofia em nosso país, para perceber que o cânone filosófico é primordialmente masculino, branco, heterossexual, grego-ocidental. Estamos emblemática e absurdamente sub-representadas nessa coleção, e esse déficit não foi revertido desde os anos 1970. Pelo contrário, o estudo de Araújo e a computação dos dados pelo Relatório da Capes mostram que a tendência predominante é ainda a da evasão das mulheres da área. Em um texto dedicado a Marilena Chaui, sem dúvida uma das maiores mestras em Filosofia que esse país já conheceu, Maria Isabel Limongi expressou com perfeição o sentimento proveniente da análise desses números: Os dados são eloquentes: entre docentes e discentes da comunidade de pós-graduação em filosofia no Brasil apenas 27% são mulheres, sendo que a proporção de mulheres diminui em 48%, conforme se avança na carreira. Tão eloquentes que apenas confirmam e sistematizam o que já era bem sensível a qualquer um, e, em especial, a toda mulher que, como eu, se embrenhou na área, graduando-se, pós-graduando-se e atuando como professora universitária e pesquisadora em Filosofia. Todas nós sentimos na pele o peso desses dados.(http://anpof.org/portal/index.php/en/comunidade/coluna-anpof/981-a-filosofia-e-a-desigualdade-de-genero). A ausência de mulheres em nosso cotidiano, a pressão a que somos submetidas pela necessidade de mostrar que somos capazes, a vulnerabilidade ao assédio moral e sexual nos afastam da Filosofia. É interessante notar que todos os documentos de Área da Capes atestam o crescimento vertiginoso dos PPGs em Filosofia no país. Esse crescimento, contudo, não enfrentou o desafio de desfazer desigualdades específicas, como as de gênero. Há ainda outras desigualdades, como as regionais, as de raça e as de classe... É chegada a hora de enfrentar esse desafio. Por isso, o cuidado com nossas estudantes deve começar desde a recepção dos calouros e calouras. Deve prosseguir nos grupos de pesquisa, nas seletivas dos PPGs e na distribuição de bolsas, tanto por parte dos cursos de Filosofia quanto por parte das agências de fomento à pesquisa. Há estudos que indicam que as mulheres em geral demoram mais tempo (por volta de cinco anos a mais de trabalho) para conseguir uma Bolsa Produtividade do CNPq, por exemplo. Então, eu diria que é difícil quantificar o impacto negativo do assédio moral e do assédio sexual sobre o desenvolvimento da carreira de uma pesquisadora em Filosofia, pois são pouquíssimos os incentivos para que elas avancem e alcancem postos mais altos. Seria necessário fazer um estudo mais detalhado para obter uma resposta. Porém, eu arrisco afirmar que o impacto é imenso. Estar numa sala de aula em que em muitos casos há 70%, 80% de homens é por si só um elemento de constrangimento. Não é raro sermos a única mulher na sala de aula, a única pesquisadora do grupo, a única estudiosa a falar em determinado congresso. Lidamos cotidianamente com a solidão. Essa situação nos torna vulneráveis a piadas e insinuações de todo tipo. Trata-se de algo que faz parte de nosso dia a dia na academia, sofremos constantemente pequenas violências que acabam por ser naturalizadas, algo com que os homens não precisam lidar com tanta frequência. Ainda que não tenhamos dados precisos sobre a área de Filosofia, vários estudos mostram que, em geral, situações de assédio sexual, por exemplo, podem comprometer drasticamente a vida de uma pessoa, especialmente a vida profissional, ainda mais quando ela precisa continuar a conviver com o agressor. Se nossas estudantes e pesquisadoras estão vulneráveis à violência de gênero, ao assédio moral e ao assédio sexual, precisamos combater esses fatores, pois eles certamente prejudicam o desenvolvimento da carreira das mulheres na área de Filosofia. Há ainda situações como a maternidade, evento que acarreta um intervalo na produção acadêmica das mulheres, uma lacuna perfeitamente justificável no Lattes, mas que só agora começa a ser reconhecido enquanto tal. Ora, muitas mulheres sofrem assédio moral por colocar “em risco” a avaliação de seus PPGs no período em que estão dedicadas ao trabalho da maternidade. É preciso discutir esses problemas com serenidade para que possamos inclusive rever os critérios de avaliação segundo os quais quantificamos e qualificamos nosso trabalho de pesquisa, para que não sejam negligenciadas as desigualdades de gênero e suas implicações para a vida acadêmica. Ainda não temos uma pesquisa qualitativa que possa nos indicar as razões que expliquem esses números. O que mais pode justificar, em sua opinião, essa baixa presença? Além do que já foi dito na resposta à pergunta anterior, eu acrescentaria a ausênciade um volume expressivo de políticas afirmativas que deem suporte à presença das mulheres na área. Penso ser necessário não apenas detectar os fatores de evasão das mulheres, mas também combatê-los por meio de práticas eficazes. Precisamos colher mais dados sobre a entrada e as razões para descontinuidade delas na carreira. Penso que deveríamos ter como meta para a área pelo menos a manutenção da proporção da entrada nos níveis superiores da carreira. Essa pesquisa mostra que o corredor fica mais estreito para as mulheres em nossa carreira. Quais outras iniciativas devem ser necessárias para que as estudantes de Filosofia permaneçam na universidade e seja possível atingir paridade na docência? Para responder a essa pergunta, eu gostaria de fazer um pequeno depoimento. Não tenho dúvida de que me tornei mais consciente desse problema ao entrar em contato com as estudantes. A minha primeira fala pública como professora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo foi sobre as mulheres e a filosofia, e isso se deu em decorrência de um convite do Centro Acadêmico de Filosofia da USP. Desde então, tenho sido constantemente convidada a falar sobre o assunto, especialmente depois que me tornei Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof. A experiência da desigualdade de gênero mudou muito em nossa sociedade e isso se reflete na forma pela qual as mulheres encaram a vida acadêmica. Nossas alunas de hoje buscam se espelhar em suas professoras, querem conhecer suas trajetórias. É comum vê-las frequentar as disciplinas ministradas por mulheres, ou os grupos de estudos liderados por professoras. Elas afirmam se sentir mais à vontade nesses ambientes, onde há diversidade de gênero, e querem conhecer a história das mulheres na filosofia, desejam reverter o processo de silenciamento a que as escritoras e pensadoras do passado foram submetidas. Como professora e pesquisadora, penso que tanto a minha geração quanto as gerações anteriores têm uma enorme responsabilidade para com as gerações que estão chegando. Penso que temos uma enorme responsabilidade em relação à forma pela qual esse desejo será canalizado, pois ele é profundamente transformador da nossa visão sobre quem e sobre o que significa fazer filosofia no Brasil. É comovente e, ao mesmo tempo, estimulante do ponto de vista intelectual perceber o quanto é importante para essas novas alunas que a bibliografia do curso traga mulheres, e é impressionante perceber o quanto isso foi negligenciado ao longo dos anos. Não é raro encontrar livros, dissertações de mestrado, teses de doutorado, ementas de disciplinas e programas de curso onde apenas pouquíssimas mulheres, ou mesmo nenhuma, são citadas. Prestem atenção aos cartazes de eventos: ainda hoje, acontecem colóquios e congressos para os quais nenhuma pesquisadora é convidada a falar. Isso é inaceitável nos dias atuais, pois, na maioria absoluta dos casos, há excelentes pesquisadoras em todas as subáreas da Filosofia. Não há nada que justifique a ausência delas nos eventos, nas publicações, na bibliografia de cursos e nas disciplinas. É com certeza desanimador para uma estudante de Filosofia perceber que seu trabalho dificilmente se tornará bibliografia de referência, que a batalha será árdua, e o caminho longo. Acredito que o déficit de representação das mulheres na área seja um elemento de desestímulo. É um peso que carregamos desde o primeiro seminário que apresentamos no curso: percebemos que nossa presença é incômoda, que por alguma razão deveríamos estar no lugar de escuta, nunca no de fala. Uma mulher que entra no curso de filosofia já transgrediu uma série de interditos sociais e culturais da sociedade patriarcal: ela recusou ocupar apenas a posição de objeto, de estímulo, de apoio, de suporte, e de plateia para outrem. Essa recusa inicial deve encontrar suporte na academia, e não ser cerceada por atitudes de assédio. Eu penso que a permanência das mulheres na carreira de Filosofia depende de nosso empenho enquanto pesquisadores e pesquisadoras, de nosso trabalho diário em encorajá-las para que elas se formem e assumam postos importantes em nossa área de pesquisa. Entrevista publicada em http://anpof.org/portal/index.php/en/2014-01-07-15-22-21/entrevistas/2011-entrevista-com-silvana-ramos-uma-mulher-que-entra-no-curso-de-filosofia-ja-transgrediu-uma-serie-de-interditos-sociais-e-culturais-da-sociedade-patriarcal #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil #assedio
- Precisamos falar sobre assédio
Precisamos falar sobre assédio. Moral e sexual. Pelas razões expostas pela Yara Frateschi, o assédio é um fator de expulsão das mulheres da Filosofia: começa na graduação e vai adiante, mestrado, doutorado, pós-doutorado, professora de ensino médio, de graduação, de pós-graduação. O assédio é uma constante mesmo que a mulher em questão faça parte do privilegiado grupo de professoras que são pesquisadoras em Filosofia no país - a princípio, o topo da carreira acadêmica. E será ainda mais perverso se essa mulher ocupar algum cargo de comando, como chefe, coordenadora, diretora, reitora ou decana. Seria ingenuidade supor que a misoginia estrutural na sociedade brasileira não se manifestaria nas universidades. Está lá, presente todos os dias. Gostaria de especular sobre uma das causas que venha a dar contornos mais nítidos ao fenômeno da discriminação contra as mulheres na Filosofia. Primeiro, seria preciso reconhecer que, dentro do grande grupo das Ciências Humanas, onde estão pesquisadores/as em Filosofia, filósofos sustentam, implicita ou explicitamente, a posição de que a Filosofia é um saber mais elevado, mais digno, mais importante e mais difícil do que os outros. Essa é uma queixa recorrente que ouço quando trabalho com colegas de outras áreas de Humanas. É mais ou menos óbvio que o professor que defende essa suposta superioridade confere a si mesmo antes de mais nada um aspecto ridículo, qual seja, o de precisar se dizer numa posição de importância que ele mesmo se atribuiu. Tomemos essa estrutura para aplicá-la na relação entre homens e mulheres : ora, a nós, mulheres, também é mais ou menos óbvio que são os homens e toda a estrutural social, cultural e institucional que cultivam a sua suposta superioridade em relação às mulheres. Nós sabemos que isso é uma farsa. Não só sabemos, como também denunciamos, lutamos e reivindicamos igualdade e liberdade (há séculos, é bom observar). Como hipótese, o problema do assédio contra as mulheres na Filosofia seria apenas a reprodução interna dessa farsa, reaplicada por filósofos em relação a filósofas. O problema, como bem descreve Frateschi, são as consequências. Alunas que dizem “a filosofia é um lugar muito opressor” - no que elas têm razão - ; alunas que desistem; alunas que não escrevem ou, quando escrevem, não publicam,; alunas que não se inscrevem em concursos ou, quando se inscrevem, não fazem ou, quando fazem, não são aprovadas. Mas é porque essas alunas existem que nós estamos também nos movimentando. Há cerca de três anos, participei, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, de uma comissão para redigir um documento de diretrizes de prevenção contra assédio moral e sexual. Era resultado de uma luta de coletivos de alunas que não suportavam mais o assédio recorrente de professores. Na reunião em que o documento foi levado à aprovação, essas alunas estavam presentes e puderam testemunhar como nós, as professoras que estavam apresentando o documento, também éramos alvo de assédio moral por parte de professores que achavam a iniciativa "desnecessária". Aqui a escolha da palavra “alvo” é fundamental ao meu próximo argumento: a reivindicação de fim do assédio moral e sexual tem levado muitas de nós a buscar os caminhos de perseguição e punição dos agressores, estabelecendo uma relação algoz/vítima que não considero nem produtiva nem efetiva para enfrentar o problema (aqui seria preciso abrir uma longa discussão sobre as relações entre lutas feministas e punitivismo, mas não é nem o lugar nem o momento). O recurso à punição me parece que deve ser o último, se e somente se antes dele nada mais tiver sido possível. Isso porque estamos diante de necessidade de transformação cultural ou, mais ainda, da necessidade de um novo pacto social que seja escrito a partir da perspectiva da igualdade e da liberdade para mulheres, e não apenas. Para pessoas negras, para pessoas trans, para pessoas que não sejam mais julgadas por suas escolhas de objeto sexual, para pessoas que não sejam discriminadas pelos seus corpos. Então, se por um lado a redação das diretrizes foi uma experiência fundamental para começar a repactuação da qual falava uma das professoras da comissão, a antropóloga Daniela Manica; por outro lado é preciso que haja firmeza na decisão das mulheres de não adotarem como estratégia apenas a vitimização. Isso porque, para falar com Foucault e Butler, como vítimas, entregamos nosso bem político mais precioso, a nossa capacidade de agenciamento. O problema da permanência das mulheres na Filosofia é ainda mais grave no âmbito da pós-graduação, onde estão disputas por toda sorte de recursos: financeiros, humanos, políticos. Diante isso, um grupo de trabalho dentro do GT de Filosofia e Gênero sugeriu para a Capes um documento de diretrizes contra o assédio moral e sexual que possa ser adotado nos programas e venha a fazer parte da avaliação de desempenho. É mais uma forma de apontar para repactuação, propondo mudanças que admitem a existência do problema e que indiquem possibilidades de solução fora do par vítima/algoz. Por fim, e talvez o mais importante, está a escuta apontada no texto de Frateschi. Somos nós, mulheres filósofas, que podemos ouvir as que estão manifestando o desejo de seguir por esses caminhos. Escutar, apoiar e acolher são gestos de hospitalidade a um sofrimento que também é nosso e que começa por admitir que eu, como professora, ainda preciso, todos os dias, reivindicar meu reconhecimento na Filosofia. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil #assedio
- Quebrar o silêncio e estreitar laços. Juntas contra o assédio e a violência sexual.
Na transformação do silêncio em linguagem e em ação, é essencial que cada uma de nós estabeleça ou analise seu papel nessa transformação e reconheça que seu papel é vital nesse processo (Audre Lorde) No dia 27 de novembro de 2019 foi lançada a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas. Comemoro a criação da Rede e espero poder contribuir da melhor maneira possível. Em um país de dimensões continentais como Brasil, a Rede é capaz de diminuir distâncias, de nos fazer conhecer umas às outras e nos colocar em comunicação. Estou muito feliz por ver, todos os dias, que há muitos eventos e iniciativas acontecendo no país inteiro relacionados ao nosso tema: mulheres na filosofia. Repetindo Juliana Aggio: um brinde às mulheres filósofas! Estamos aqui para compartilhar as coisas boas e também as difíceis, hoje eu vou com as difíceis e dolorosas. Sabemos, pelos artigos publicados por Carolina Araujo, que não há apenas uma enorme desigualdade de gênero na área de filosofia, mas também que as mulheres são continuamente “expulsas” ao longo da carreira e têm muito menos chances do que os homens de chegarem ao topo. A pergunta que estamos nos fazendo é: por que? Quais são as causas materiais e simbólicas que contribuem para essa evasão? Por que a carreira parece impor mais dificuldades às mulheres do que aos homens? Eu gostaria de contribuir com uma reflexão a esse respeito, que não faço sozinha, mas a partir das rodas de conversa das quais eu e outras colegas temos participado em diversas universidades, das entrevistas que tenho feito com estudantes de graduação e pós-graduação para a pesquisa “Mulheres na Filosofia” e dos depoimentos compartilhados em eventos que tematizam o problema. Neste post eu escolhi destacar um tema, extremamente grave, relacionado às perguntas que fiz acima: assédio e violência sexual. As rodas de conversa ou entrevistas costumam operar com alguma tranquilidade, até que o tema aparece e sempre aparece. Neste momento, a temperatura do ambiente sobe, raiva, desespero, humilhação, impotência. Definitivamente, as nossas instituições não estão preparadas para lidar com o assunto e as alunas não confiam que a universidade vá apoiá-las e dar prosseguimento às denúncias, principalmente quando o assediador é um professor. A assimetria de poder faz com que a aluna tenha, com razão, muito medo de levar adiante uma denúncia; ela sabe, também com razão, que há grandes chances de outros professores armarem um colchão de proteção para o assediador; ela sabe, com razão, que ficará marcada pela denúncia e que pode ser prejudicada em processos seletivos e até mesmo bancas de contratação. Se esses medos não fossem razoáveis, por que permaneceria calada? São dois os destinos mais comuns: a aluna abandona o curso ou fica sofrendo calada. Mas quem pode aprender e ser feliz sofrendo calada os efeitos do assédio ou da violência? Precisamos considerar que a evasão de algumas mulheres pode estar relacionada a essas dores. Precisamos levar a sério que o custo afetivo de permanecer seja alto demais. O que nós, docentes, podemos fazer? Esta é a pergunta que eu abro para a nossa conversa e deixo aqui algumas reflexões e sugestões, esperando poder ouvir as colegas da Rede. Penso que precisamos, antes de tudo, contribuir para quebrar o silêncio e criar espaços favoráveis para que as nossas alunas falem sobre o que as aflige e sobre as violências que sofrem: coletivos, rodas de conversa, portas abertas, ouvidos atentos. Nós temos autoridade e condições mais objetivas para cumprir a nossa responsabilidade de enfrentar o machismo toda vez que ele se apresenta, acolhendo as nossas alunas, educando os nossos alunos, levando o tema para sala de aula, para as reuniões de docentes, congregações, institutos e reitoria. Na Unicamp nós demos um passo importante referente ao tema do assédio e da violência sexual. No ano passado, a reitoria determinou que um Grupo de Trabalho estudasse o tema e o documento resultante propôs a criação de uma secretaria especial para recebimento e encaminhamento de denúncias. O Conselho Universitário acatou a proposta e aprovou a abertura da Secretaria Especial de Atenção às Vitimas de Violência Sexual, com equipe especializada. Com isso a instituição dá um passo muito importante, pois está assumindo que há um problema sério e dizendo para a sociedade que não é conivente. No entanto, como todas as medidas jurídicas e punitivas, esta também é insuficiente e precária se não vier acompanhada de educação e práticas feministas. Precisamos liderar campanhas contra o assédio desde o ingresso dos nossos estudantes. Alunos, alunas e alunes precisam saber, desde o primeiro dia em que pisam na Universidade, que a instituição está em luta pedagógica contra o machismo e todo tipo de preconceito vinculado ao gênero e à sexualidade. Em 2019 as alunas da filosofia receberam os ingressantes com uma cartilha contra assédio e violência sexual feita por elas mesmas (isso sim é pedagógico!), eu vou gostar de compartilhar com vocês. E também gostaria de pedir que compartilhassem iniciativas nesse sentido, assim como materiais. Mas não podemos nos iludir. No caso do assédio cometido por professor, mesmo que haja canais e mecanismos institucionais aperfeiçoados de acolhimento e denuncia, a aluna vai continuar a ter receio pela sua carreira. Outro dia uma me disse: “se eu denunciar, ele vai me buscar no inferno”. Se nós não queremos pedir às mulheres mais um sacrifício, muito menos individual, precisamos pensar juntas o que fazer. Acolher, em primeiro lugar. Em segundo lugar, conversar. A Rede pode nos ajudar nisso. Vamos conversar umas com as outras sobre como enfrentar cada caso que se apresenta. Somos poucas em alguns departamentos, mas somos muitas espalhadas pelo Brasil. A nossa articulação em rede nos ampara e protege as nossas alunas. Vamos nos juntar, quebrar o silêncio e estreitar laços. Por fim, mas não menos importante. Precisamos buscar a cooperação dos nossos colegas que podem efetivamente ser parceiros na criação de um ambiente acadêmico mais respeitoso com as mulheres. Vamos chamá-los à responsabilidade. Como lembra bell hooks, o feminismo é para todo mundo e será uma batalha perdida se for apenas das mulheres. Vamos nos ajudar a transformar o silêncio em linguagem e em ação (Audre Lorde). PS: a imagem que ilustra este post é uma homenagem ao grupo de mulheres LasTesis que criou a performance que se alastra pelo mundo inteiro contra o assédio e a violência sexual. #redebrasiliraemulheresfilosofas #filosofiasbrasil #assedio
- Um brinde às mulheres filósofas!
Saúdo a todas com um singelo poema que fiz: Entre o homem e a mulher quando se quer xingar um homem chamam-no de mulher quando se quer elogiar uma mulher dizem o quão belamente seduz entre a espada e a cruz caminha a humanidade dividida seta inteiriça / seta penetrada entre ir para fora e voltar-se para dentro na penumbra que a tudo iguala mais vale a arte que a vala e se de recriação somos possuídos antes dos idos e sem remorso condoído possa a mulher ser mais sendo simplesmente o que quiser
- Agradecimentos pela III Jornada do GEMF
O GEMF agradece a todas que participaram e a tod@s que assistiram à III Jornada, dia 21/11! Foi motivante ver as filósofas em ação! #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil
- Livro: "Filosofia Africana"
FILOSOFIA AFRICANA: ANCESTRALIDADE E ENCANTAMENTO COMO INSPIRAÇÕES FORMATIVAS PARA O ENSINO DAS AFRICANIDADES O livro “Filosofia Africana: ancestralidade e encantamento como inspirações formativas para o ensino das africanidades” é resultado da pesquisa de Mestrado em Educação realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA) entre os anos 2012 e 2014. Por sua vez, a pesquisa resulta de uma década de andanças pelas trilhas das filosofias africanas e suas implicações nas Filosofias da Ancestralidade e do Encantamento em terras brasileiras, pesquisa essa que em 2019 completa 15 anos de andanças. Suas implicações pautam-se no intento de colaborar com uma educação antirracista, contribuir com a construção de currículos e metodologias afrorreferenciadas, como, também, com a descolonização do conhecimento. Quem escreve é uma filósofa que não nasceu em África, mas tem a África nascida em si. Uma filósofa tecida pela ancestralidade africana e fortalecida pelo encantamento. O livro encontra-se dividido em introdução, 3 capítulos e a in-conclusão. A introdução versa em torno da apresentação da autora e suas implicações com a pesquisa e o tema proposto. O primeiro capítulo dedica-se a conversar sobre a constituição da Lei 10.639 / 2003 e sua implementação. O segundo capítulo está implicado em dialogar sobre a construção de quem somos nós desde a experiência formativa no componente curricular História e Cultura Africana e Afro-brasileira do curso de Pedagogia (UFBA) e a vivência desde a Metodologia dos Odus, uma metodologia criada para o Ensino das Africanidades. No terceiro capítulo iremos passear pela Historiografia da Filosofia Africana Contemporânea, dialogando sobre sua “origem”, seus princípios e objetivos, suas correntes e principais autores e sua importância fundante para uma formação antirracista. Por fim, mas sem acabar, na in-conclusão caminharemos pelas Filosofia da Ancestralidade e Filosofia do Encantamento como inspirações formativas para o ensino das africanidades. Essas com-versas são tecidas por um corpo que se descobre sagrado, fonte de conhecimento, de vida... Um corpo que dança, que canta, que ama, que vive. Um corpo tecido pela ancestralidade e assim um corpo coletivo. O texto é tecido por diversos contos, mitos, músicas, poemas... Temos Eduardo Oliveira encantando com a apresentação, Wanderson Flor do Nascimento nos convidando, no prefácio, para Dançar com Exu e a nossa encantada Vanda Machado fechando o livro e fortalecendo nossa ancestralidade no posfácio. O livro é escrito por mim, entretanto, é tecido por minha ancestralidade de ontem, hoje e amanhã, por toda uma comunidade que me tece. Que seja uma leitura / com-partilha encantada! Gratidão! Adilbênia Freire Machado A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. É a herança de tudo aquilo que nossos ancestrais puderam conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram... Tierno Bokar
- http://www.cchla.ufpb.br/semp/contents/menu/apresentacao
http://www.cchla.ufpb.br/semp/contents/menu/apresentacao
- Simpósio Imagens de Gênero: Vieses na Filosofia
Unisinos, 11 a 13 de novembro O Simpósio Imagens de Gênero: vieses na Filosofia é uma iniciativa do DAFil (Diretório Acadêmico de Filosofia) que abre espaço para o debate acerca da atividade feminina na Filosofia, objetivando realçar as pesquisas realizadas por mulheres. O evento ocorrerá entre os dias 11 e 13 de novembro de 2019 (de segunda-feira à noite à quarta à noite, nos turnos da tarde e da noite) no campus de São Leopoldo da Unisinos e terá formato de oficinas e conferências. OBJETIVOS - Promover um debate ilustrado, aberto à comunidade acadêmica e à comunidade; em geral, sobre a atividade feminina na área da Filosofia; - Realçar as pesquisas realizadas por mulheres por meio do depoimento de filósofas que já estão fazendo carreira; - Discutir ações que dão visibilidade ao trabalho na Filosofia, focando no mercado de trabalho; - Esclarecer questões filosóficas relacionadas a acontecimentos importantes do mundo atual. PROGRAMAÇÃO 11/11/19 (Segunda-feira) - 19h30 às 22h - Local: Sala Conecta Atividade: Painel de abertura Tema: Genes e Memes na Filosofia: vieses humanos Profª Dra. Sofia Stein (Unisinos) Tema: Problemas de Gênero na produção do conhecimento: reflexões sobre Epistemologia Feminista Profª Dra. Patrícia Ketzer (UPF) Tema: Razão, emoção e cultura machista* Profª Dra. Cínthia Roso Oliveira (UPF) *via webconferência 12/11/19 (Terça-feira) - 14h30 às 17h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina É possível reformar o capitalismo? Análise da sociedade civil-burguesa em Marx e Honneth Profª Dra. Polyana Cristina Tidre (Unisinos) 12/11/19 (Terça-feira) - 19h30 às 22h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina Mulheres no ensino de Filosofia Profª Dra. Rúbia Vogt (CAP - UFRGS) 13/11/19 (Quarta-feira) - 14h30 às 17h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina As mulheres na Filosofia Profª Dra. Kelin Valeirão (UFPEL) 13/11/19 (Quarta-feira) - 19h30 às 22h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina A Lógica no Cérebro: natural ou social? Profª Dra. Sofia Stein (Unisinos) ORGANIZAÇÃO DAFil Unisinos Profª Dra. Sofia Stein (Unisinos) INSCRIÇÕES No local. CERTIFICAÇÃO Certificado Online para todos os participantes. A ocasião contará com transmissão ao vivo, com link a ser divulgado na página do evento. PROMOÇÃO Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos Diretório Acadêmico de Filosofia - DAFil Unisinos
- DOSSIÊ FILÓSOFAS
Querida/o/es, A Revista Ideação (Qualis B1) lançará um dossiê, a ser publicado no segundo semestre de 2020, intitulado Filósofas. Receberemos artigos sobre as filósofas que fazem e fizeram parte de nossa história da filosofia, estrangeiras e brasileiras, e/ou sobre a própria filosofia produzida por elas/nós, bem como artigos que tratem de problemas filosóficos sobre questão de gênero na pesquisa, docência e história da filosofia. Nosso dossiê será um mais passo no movimento que estamos realizando de virada na história da filosofia com a presença cada vez mais proeminente de filósofas. O dossiê será coordenado pelas professoras Sílvia Faustino e Juliana Aggio, ambas professoras de Filosofia da UFBA. A submissão do artigo ou ensaio deve ocorrer até o dia 28 de fevereiro de 2020 pelo sistema da revista, seguindo as normas de formatação: http://periodicos.uefs.br/index.php/revistaideacao/about/submissions#onlineSubmissions Forte abraço e saudações universitárias e democráticas, Juliana Aggio
- Às filósofas que não são mulheres, ou sobre “A vida invisível” de Karim Aïnouz
Uma colega filósofa se candidatava a uma posição de prestígio nunca antes ocupada por uma mulher. Quando perguntada sobre a importância de ter uma mulher nesse cargo, ela respondeu: “O importante é o trabalho sério, que eu seja uma mulher é um acidente”. Um acidente, nos ensina Aristóteles, é um atributo que não modifica a essência. Minha colega aristotélica entende que somos essencialmente seres humanos, capazes de filosofar e de encontrar a felicidade nessa atividade; ser mulher não modifica isso. Uma outra colega, ao defender que não era necessária a presença de um membro feminino em uma comissão avaliativa, argumentou dizendo: “na razão pura somos todos iguais”. A tese de Kant iguala os seres humanos pela presença de uma racionalidade que tanto limita o modo como conhecemos o mundo, quanto nos marca essencialmente por nossa liberdade. A ideia dela era de que, sendo os avaliadores tanto especialistas na matéria quanto agentes morais, o gênero não faria diferença no seu julgamento. Há nessas atitudes um elemento que diz respeito à dignidade humana, à nossa felicidade, à virtude, à liberdade e à filosofia. Isso é algo de que eu jamais abriria mão e de que ninguém deveria abrir mão. Mas há também um abismo entre o que esses valores expressam e o problema circunstancial que eles foram chamados a resolver. Qual é o lugar de ser mulher quando se trata do uso das nossas faculdades intelectuais? Que diferença faz para uma filósofa se ela é mulher? Karim Aïnouz faz Eurídice Gusmão justificar a sua relação com o piano dizendo: “quando eu toco, eu desapareço”. Quem desaparece no ato de tocar é a filha de seu Manuel e dona Ana, a mãe de Cecília, a esposa de Antenor. Com essas versões dela mesma vão-se todos os deveres que recaem sobre Eurídice pelo fato de ela ser a pessoa que é. O que fica no lugar deles é a sua essência, a liberdade, a felicidade. Ao fazer sua personagem explicar seu desaparecimento, Aïnouz vai muito além do romance de Martha Batalha no qual baseia seu filme. No romance, Eurídice foi frustrada em seu potencial: ela calcularia pontes, inventaria vacinas, escreveria clássicos, se assim lhe fosse dado. Essa Eurídice não chega perto da que vemos no filme, aquela que experimenta o “desaparecimento”, cujos dedos não conseguem parar de tocar, e que sabe muito bem quem ela é. Mas o filme de Aïnouz jamais se chamaria “A Vida Invisível” por essa grande experiência. A invisibilidade de Eurídice é a força contrária ao seu desaparecimento, é aquilo que o impede. Invisibilidade é o que faz com que ela apareça de um determinado modo, do modo ordinário, banal, que sobretudo as mulheres ocupam quando assumem como eixo central da sua existência o cuidado com os outros. Nancy Fraser relaciona esse tipo cuidado à função social da reprodução, historicamente atribuída às mulheres. Fraser insiste muito no fato de que o capitalismo se nega a remunerar o trabalho associado à reprodução (em última análise seríamos incapazes de arcar com tais custos) e por isso opera sistematicamente de modo a torná-lo invisível. O romance de Batalha levou essa invisibilidade à sua hipérbole: seu drama não é apenas que o trabalho do cuidado é invisível; é que ele nos torna invisíveis. Ele transforma a nossa vida na vida dos outros. Mas também quanto a esse ponto Aïnouz dá um passo à frente do romance. Enquanto Batalha faz questão de frisar o passado, e de dizer que essa é a vida das nossas avós, o filme de Aïnouz nos joga Eurídice na cara: ela ainda não passou. A invisibilidade de Eurídice é ainda a invisibilidade de muitos, de muitas. Isso porque a Eurídice do filme não é o potencial fracassado pela falta de oportunidade. Sua invisibilidade a vence no auge da sua conquista e da sua certeza de si mesma. Sua invisibilidade, paradoxalmente, é uma escolha. Mas que tipo de escolha? Certamente esse não é um ato imoral. Porém tampouco é simples encaixá-la em um ato que se conformaria às normas do imperativo moral. Ainda que uma ação pelo dever, ela se configura como um ato contra si própria cuja universalização não pode ser justificável, a não ser que... A não ser que ser mulher não seja um acidente, que seja uma propriedade que altera o que somos porque nos coloca em uma circunstância em que as capacidades que nos igualariam aos seres humanos simplesmente não podem ser desenvolvidas. Não podem, não por uma questão natural ou intrínseca a nós mesmas, mas porque o exercício de tais capacidades demanda um tempo que não temos por causa dos outros. A escolha de Eurídice é muito mais complexa do que essa versão simplificada que apresento aqui. Mas a versão simplificada me basta para contrastar o desaparecimento e a invisibilidade na minha resposta às minhas colegas. Aristóteles e Kant falharam sobre as mulheres, isso é fato comprovado pelos seus textos. Mas isso não é razão para que sejam desmerecidos, afinal eles formularam de modo lapidar o valor inviolável da virtude e da liberdade. Juntos esses dois fatores mostram como a invisibilidade de Eurídice é uma questão filosófica. Filosófica porque não vemos a invisibilidade dos outros. Filosófica porque a nossa própria invisibilidade nos causa tamanho amargor que preferimos não a ver. Do amargor Batalha diz: “E foi assim que concluiu que não deveria pensar”. O lugar de ser mulher quando se trata do uso das nossas faculdades intelectuais é a concorrência entre o cuidado de si e o cuidado dos outros, entre o desaparecimento e a invisibilidade. Porque elas vivem neste tempo e neste espaço, as filósofas têm que se posicionar em relação a essa concorrência. Muitas foram as que, na coragem por defender seu desaparecimento, rejeitaram totalmente a invisibilidade e os papeis sociais do cuidado dos outros, assumindo uma androginia que parece se encaixar bem na prática da razão pura. Elas tomam a posição libertária e igualitária – são iguais aos homens na sua opção – e rejeitam os deveres que as tornam invisíveis. O problema dessa posição é que a pretensão de sua universalidade levaria ao desaparecimento da espécie humana, cuja existência requer cuidados sobretudo na sua primeira e terceira idades. Isso quer dizer que, como mostrou Fraser, essa posição se compromete com a delegação das funções de cuidado – em geral transferidas a mulheres de classes sociais mais baixas, de raças e etnias minoritárias – e consequentemente com a manutenção da invisibilidade alheia. Outras filósofas enfrentaram o desafio de dividir seu tempo entre o cuidado de si e o dos outros. Persuadidas do argumento sobre a universalidade da virtude e da atividade natural, elas não admitem que ser mulher faça diferença na prática filosófica, e com isso vivem duas vidas. A questão é que o tempo unifica a nossa existência em uma sequência causal única e dividir-se é um modo de não estar plenamente em nenhuma das alternativas. Nesse cabo de guerra cotidiano, elas dificilmente escapam do amargor. No escuro do quarto, lamentam-se e inferiorizam-se, seja por não cuidarem dos outros como deveriam, seja por não brilharem como deveriam. Dessas filósofas mulheres, algumas repetem a escolha de Eurídice: abandonam a filosofia, tornam-se totalmente invisíveis e adicionam mais um caso na dura estatística da diminuição do número de filósofas em nossas instituições e em nossas estantes. Outras dentre essas insistem, esforçam-se por se contentar com níveis de produção e reconhecimento mais tímidos que os das suas contrapartes masculinas ou que os daquelas colegas que optaram por não se dividir. Elas engrossam as estatísticas que parecem confirmar a posição dos filósofos de que as mulheres não são assim tão aptas ao exercício filosófico. Há um outro caminho, aquele que torna a invisibilidade visível. Para tratar dele, Aïnouz optou abrir mão de sua preferência por uma estética não narrativa e explorar o gênero do melodrama. Mas eu creio que é possível mostrar a invisibilidade por argumentos. A investigação filosófica pode prestar-se bem a explorar a força dos papeis sociais na constituição da moralidade, da liberdade e da virtude. Talvez ela já tenha inclusive se defrontado com esse desafio. A tese socrática da unidade das virtudes e de que o cuidado dos outros depende do cuidado de si pode ter sido uma tentativa de iluminar a virtude invisível da sophrosune. Mas muitos outros caminhos estão se abrindo, caminhos abertos por filósofas que hoje se entendem mulheres e que reivindicam uma epistemologia, uma teoria moral ou uma filosofia política que expliquem a “Vida Invisível”. Hoje, 27 de novembro de 2019, é lançada a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas. As duas últimas palavras desse título não são redundantes. Elas ressaltam o trajeto tortuoso das filósofas que chegaram às nossas estantes. Elas propõem uma questão verdadeiramente filosófica sobre os limites de nossa liberdade. E eu gostaria que elas convidassem as duas colegas que mencionei – e muitas outras que com elas se identifiquem – a uma auto-investigação e a uma atenção às suas práticas cotidianas de exercício da filosofia. Ainda que elas se sintam confortáveis nas suas conquistas, talvez possam pensar em suas alunas, e na chance de que elas possam repetir a escolha de Eurídice Gusmão. Carolina Araújo, UFRJ #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil @FilosofasOrg #karimainouz #avidainvisivel
- Nísia Floresta em Bayreuth
Entre os dias 02 e 03 de dezembro ocorreu, na Universidade de Bayreuth/Alemanha, a primeira Conferência Mulheres na Filosofia Bayreuth. Organizado pela Professora (brasileira) Alice Pinheiro Walla e pela doutoranda (também brasileira) Maria Eugênia Zanchet, o evento contou com a presença de oito palestrantes de cinco nacionalidades (Alemanha, Brasil, Índia, Inglaterra e Irã) e de várias instituições distintas. O público esteve composto essencialmente por estudantes de filosofia da universidade anfitriã, mas também de colegas e estudantes de outros departamentos (como Geografia e Ciências Sociais). Apesar de ser nomeado como Conferência, o evento fluiu muito mais como um Workshop, pois boa parte das apresentações foram de verdadeiros trabalhos em andamento, seguidas de discussões intensas e construtivas. A apresentação de Tanu Biswass foi, nesse sentido, emblemática: sua palestra ocorreu um dia antes de sua banca de doutorado. O título da apresentação de Tanu é, em livre tradução, "Ideias Infantistas para uma Pedagogia da Filosofia em um Mundo Superaquecido" [Childist Ideas for a Pedagogy of Philosophy in an Overheated World]. A partir de um referencial metodológico inspirado na tradição fenomenológica, bem como em reflexões sobre o antropoceno neoliberal, Tanu mostrou como um determinado tipo de atividade filosófica com/para crianças pode ser não apenas uma maneira de ensinar-lhes a brincar com conceitos, mas (de modo talvez mais importante), de nos ensinar, aos adultos filosofantes, como fazer de nossas práticas filosóficas (mas não apenas) algo menos pesado e acelerado. Mais valioso para o mundo que estamos deixando para as crianças, um mundo superaquecido. No dia seguinte, quando a defesa já havia terminado, Tanu contou que sabe um pouco da nossa língua (ela havia usado a palavra brincar em português na apresentação do dia anterior, o que havia me deixado curiosa), e que os trabalhos de nosso colega Walter Kohan sobre filosofia e infância foram importantes em seu percurso de pesquisa. Outras apresentações de work-in-progress que merecem ser destacadas foram as de Shirin Assa, doutoranda da Faculdade de Línguas e Literatura que falou sobre Resistência Interseccional, e a de Sophie-Grace Chappell, professora da Universidade Aberta do Reino Unido, que nos presenteou com uma performance sutil e provocadora, lendo trechos dos capítulos sete e oito do livro que está em fase de finalização, Epifanias. Sophie-Grace criticou forte e tenazmente as teorias éticas e meta-éticas contemporâneas por não darem conta da dimensão concreta e comum dos valores morais na vida humana, oferecendo uma abordagem - seu socialismo desenvolvimentista-psicológico - baseado no que os bebês podem nos ensinar quanto à primazia de qualidades (e valores) complexos sobre o que filósofos como Hume e Locke consideram como os tijolos de nossa percepção, as qualidades primárias. A palestra de Sophie-Grace foi uma verdadeira aula de como fazer filosofia sem usar antolhos categoriais (filosofia analítica versus continental e outros quetais), e sem pretender fazer teoria filosófica, mas esclarecer conceitos que determinam nossas mais valiosas experiências como seres humanos. Todas as palestras foram bastante diversas, e mais ou menos complementares entre si. Estivemos discutindo sexismo e desrespeito (com Christine Bratu), direitos indígenas (com Kerstin Reibold), o alegado sentido moral do ressentiment (com outra filósofa brasileira, Christine Lopes), e ainda sobre como se sentir com relação a assim chamada inteligência artificial emocional (com Eva Weber-Guskar). A participação mais abrasileirada do evento foi a da que vos escreve - um trabalho em andamento, continuação da colaboração com Nastassja Pugliese sobre ensino de lógica, acerca da, ou com a, filosofia de Nísia Floresta. A ideia principal é combinar nossos esforços em favor de uma didática mínima da lógica para estudantes de filosofia com outros esforços, os de incluir tópicos de história da filosofia em aulas introdutórias de lógica, mais especialmente textos de autoras obliteradas do cânone que nos é transmitido na escolas e universidades. Com relação ao último ponto, não deveria ser novidade para a audiência deste site que passa da hora de nos dedicarmos ao resgate das mulheres que fizeram filosofia ao longo da história do Brasil, sendo Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) um nome inultrapassável. A despeito da confusão em torno de seu primeiro escrito (publicado em 1832 como uma livre tradução de Reivindicação dos direitos das mulheres, de Mary Wollstonecraft), não há muito o que duvidar sobre Floresta ser a precursora da literatura sobre os direitos das mulheres em nosso país, tendo: • publicado mais de 15 livros (em quatro idiomas) versando sobre os assuntos mais prementes de seu tempo (a educação das mulheres em diferentes momentos históricos e regiões do mundo, seu papel na sociedade, a situação indígena, o papel do nacionalismo no desenvolvimento das civilizações, a escravidão, a função da religião e da moral na educação, dentro outros); • fundado e dirigido um colégio com currículo liberal para meninas no Rio de Janeiro; • se correspondido e ter se tornado amiga de Auguste Comte; • influenciado o desenvolvimento de um imaginário mais favorável aos direitos das mulheres no país, e muito provavelmente outras escritoras, como Ana de Barandas. Minha contribuição ao evento foi dividida em quatro partes: uma primeira com notas biográficas (sintetizadas a partir da leitura de sua mais completa biografia, escrita pela professora Constância Lima Duarte, e cotejadas com as de Adauto Câmara e Maria Simonetti Gadêlha Grilo); uma segunda parte na qual expus os aspectos filosóficos - temas e problemas - da obra de nossa precursora; na terceira foquei na filosofia da educação da "primeira Nísia" (1832-1853), e por fim propus algumas questões para seguir a conversa. A mais importante de todas, nesse momento da pesquisa, diz respeito aos critérios que se podem exigir de uma obra para que seja considerada filosófica, em especial de como a obra de juventude de Nísia satisfaz tais critérios. A literatura secundária não é muito abundante diante dessa questão (vide Hammond-Mathews 2012, por exemplo), muito embora um passo importante tenha sido recentemente dado pelo Professor Paulo Marguti com seu Nísia Floresta, uma brasileira desconhecida: feminismo, positivismo e outras tendências (2019). A reescrita do cânone desde o ponto de vista das mulheres filósofas é uma tarefa complexa e cheia de desafios metodológicos e históricos, em especial para o caso de autoras brasileiras e latino-americanas, como já mostrou Ana Miriam Wuensch. Nesse sentido, o resgate dos aspectos filosóficos da obra de Nísia Floresta é indispensável, um trabalho que merece muita atenção e dedicação (um grupo de pesquisa não cairia mal) e para o qual, de nossa parte, estamos colaborando com uma singela fração: mapeando os argumentos que nos permitirão auscultar seus textos didático-filosóficos com o diapasão adequado à sua natureza e finalidade. Uma das perguntas que me dirigiam em Bayreuth foi sobre a existência de traduções da obra de Floresta para o inglês - estavam todos muito curiosos, querendo saber mais e mais sobre tão interessante desconhecida. Minha resposta foi simples e algo melancólica: pois somente um de seus escritos está disponível na língua de Wollstonecraft (Woman, traduzido do italiano por sua filha Lívia Augusta de Faria Rocha). Mas do que isso, em nossa língua mãe nem sequer temos ainda reunidas as obras completas daquela que talvez possa ser pleiteada como nossa primeira filósofa. E talvez feminista. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil #nisiafloresta #reescritadocanone #porumanovahistoriadafilosofia










