GT FILOSOFIA E GÊNERO
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- Um brinde às mulheres filósofas!
Saúdo a todas com um singelo poema que fiz: Entre o homem e a mulher quando se quer xingar um homem chamam-no de mulher quando se quer elogiar uma mulher dizem o quão belamente seduz entre a espada e a cruz caminha a humanidade dividida seta inteiriça / seta penetrada entre ir para fora e voltar-se para dentro na penumbra que a tudo iguala mais vale a arte que a vala e se de recriação somos possuídos antes dos idos e sem remorso condoído possa a mulher ser mais sendo simplesmente o que quiser
- Agradecimentos pela III Jornada do GEMF
O GEMF agradece a todas que participaram e a tod@s que assistiram à III Jornada, dia 21/11! Foi motivante ver as filósofas em ação! #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil
- Livro: "Filosofia Africana"
FILOSOFIA AFRICANA: ANCESTRALIDADE E ENCANTAMENTO COMO INSPIRAÇÕES FORMATIVAS PARA O ENSINO DAS AFRICANIDADES O livro “Filosofia Africana: ancestralidade e encantamento como inspirações formativas para o ensino das africanidades” é resultado da pesquisa de Mestrado em Educação realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA) entre os anos 2012 e 2014. Por sua vez, a pesquisa resulta de uma década de andanças pelas trilhas das filosofias africanas e suas implicações nas Filosofias da Ancestralidade e do Encantamento em terras brasileiras, pesquisa essa que em 2019 completa 15 anos de andanças. Suas implicações pautam-se no intento de colaborar com uma educação antirracista, contribuir com a construção de currículos e metodologias afrorreferenciadas, como, também, com a descolonização do conhecimento. Quem escreve é uma filósofa que não nasceu em África, mas tem a África nascida em si. Uma filósofa tecida pela ancestralidade africana e fortalecida pelo encantamento. O livro encontra-se dividido em introdução, 3 capítulos e a in-conclusão. A introdução versa em torno da apresentação da autora e suas implicações com a pesquisa e o tema proposto. O primeiro capítulo dedica-se a conversar sobre a constituição da Lei 10.639 / 2003 e sua implementação. O segundo capítulo está implicado em dialogar sobre a construção de quem somos nós desde a experiência formativa no componente curricular História e Cultura Africana e Afro-brasileira do curso de Pedagogia (UFBA) e a vivência desde a Metodologia dos Odus, uma metodologia criada para o Ensino das Africanidades. No terceiro capítulo iremos passear pela Historiografia da Filosofia Africana Contemporânea, dialogando sobre sua “origem”, seus princípios e objetivos, suas correntes e principais autores e sua importância fundante para uma formação antirracista. Por fim, mas sem acabar, na in-conclusão caminharemos pelas Filosofia da Ancestralidade e Filosofia do Encantamento como inspirações formativas para o ensino das africanidades. Essas com-versas são tecidas por um corpo que se descobre sagrado, fonte de conhecimento, de vida... Um corpo que dança, que canta, que ama, que vive. Um corpo tecido pela ancestralidade e assim um corpo coletivo. O texto é tecido por diversos contos, mitos, músicas, poemas... Temos Eduardo Oliveira encantando com a apresentação, Wanderson Flor do Nascimento nos convidando, no prefácio, para Dançar com Exu e a nossa encantada Vanda Machado fechando o livro e fortalecendo nossa ancestralidade no posfácio. O livro é escrito por mim, entretanto, é tecido por minha ancestralidade de ontem, hoje e amanhã, por toda uma comunidade que me tece. Que seja uma leitura / com-partilha encantada! Gratidão! Adilbênia Freire Machado A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. É a herança de tudo aquilo que nossos ancestrais puderam conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram... Tierno Bokar
- http://www.cchla.ufpb.br/semp/contents/menu/apresentacao
http://www.cchla.ufpb.br/semp/contents/menu/apresentacao
- Simpósio Imagens de Gênero: Vieses na Filosofia
Unisinos, 11 a 13 de novembro O Simpósio Imagens de Gênero: vieses na Filosofia é uma iniciativa do DAFil (Diretório Acadêmico de Filosofia) que abre espaço para o debate acerca da atividade feminina na Filosofia, objetivando realçar as pesquisas realizadas por mulheres. O evento ocorrerá entre os dias 11 e 13 de novembro de 2019 (de segunda-feira à noite à quarta à noite, nos turnos da tarde e da noite) no campus de São Leopoldo da Unisinos e terá formato de oficinas e conferências. OBJETIVOS - Promover um debate ilustrado, aberto à comunidade acadêmica e à comunidade; em geral, sobre a atividade feminina na área da Filosofia; - Realçar as pesquisas realizadas por mulheres por meio do depoimento de filósofas que já estão fazendo carreira; - Discutir ações que dão visibilidade ao trabalho na Filosofia, focando no mercado de trabalho; - Esclarecer questões filosóficas relacionadas a acontecimentos importantes do mundo atual. PROGRAMAÇÃO 11/11/19 (Segunda-feira) - 19h30 às 22h - Local: Sala Conecta Atividade: Painel de abertura Tema: Genes e Memes na Filosofia: vieses humanos Profª Dra. Sofia Stein (Unisinos) Tema: Problemas de Gênero na produção do conhecimento: reflexões sobre Epistemologia Feminista Profª Dra. Patrícia Ketzer (UPF) Tema: Razão, emoção e cultura machista* Profª Dra. Cínthia Roso Oliveira (UPF) *via webconferência 12/11/19 (Terça-feira) - 14h30 às 17h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina É possível reformar o capitalismo? Análise da sociedade civil-burguesa em Marx e Honneth Profª Dra. Polyana Cristina Tidre (Unisinos) 12/11/19 (Terça-feira) - 19h30 às 22h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina Mulheres no ensino de Filosofia Profª Dra. Rúbia Vogt (CAP - UFRGS) 13/11/19 (Quarta-feira) - 14h30 às 17h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina As mulheres na Filosofia Profª Dra. Kelin Valeirão (UFPEL) 13/11/19 (Quarta-feira) - 19h30 às 22h - Local: Sala B10 100 Atividade: Oficina A Lógica no Cérebro: natural ou social? Profª Dra. Sofia Stein (Unisinos) ORGANIZAÇÃO DAFil Unisinos Profª Dra. Sofia Stein (Unisinos) INSCRIÇÕES No local. CERTIFICAÇÃO Certificado Online para todos os participantes. A ocasião contará com transmissão ao vivo, com link a ser divulgado na página do evento. PROMOÇÃO Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos Diretório Acadêmico de Filosofia - DAFil Unisinos
- DOSSIÊ FILÓSOFAS
Querida/o/es, A Revista Ideação (Qualis B1) lançará um dossiê, a ser publicado no segundo semestre de 2020, intitulado Filósofas. Receberemos artigos sobre as filósofas que fazem e fizeram parte de nossa história da filosofia, estrangeiras e brasileiras, e/ou sobre a própria filosofia produzida por elas/nós, bem como artigos que tratem de problemas filosóficos sobre questão de gênero na pesquisa, docência e história da filosofia. Nosso dossiê será um mais passo no movimento que estamos realizando de virada na história da filosofia com a presença cada vez mais proeminente de filósofas. O dossiê será coordenado pelas professoras Sílvia Faustino e Juliana Aggio, ambas professoras de Filosofia da UFBA. A submissão do artigo ou ensaio deve ocorrer até o dia 28 de fevereiro de 2020 pelo sistema da revista, seguindo as normas de formatação: http://periodicos.uefs.br/index.php/revistaideacao/about/submissions#onlineSubmissions Forte abraço e saudações universitárias e democráticas, Juliana Aggio
- Às filósofas que não são mulheres, ou sobre “A vida invisível” de Karim Aïnouz
Uma colega filósofa se candidatava a uma posição de prestígio nunca antes ocupada por uma mulher. Quando perguntada sobre a importância de ter uma mulher nesse cargo, ela respondeu: “O importante é o trabalho sério, que eu seja uma mulher é um acidente”. Um acidente, nos ensina Aristóteles, é um atributo que não modifica a essência. Minha colega aristotélica entende que somos essencialmente seres humanos, capazes de filosofar e de encontrar a felicidade nessa atividade; ser mulher não modifica isso. Uma outra colega, ao defender que não era necessária a presença de um membro feminino em uma comissão avaliativa, argumentou dizendo: “na razão pura somos todos iguais”. A tese de Kant iguala os seres humanos pela presença de uma racionalidade que tanto limita o modo como conhecemos o mundo, quanto nos marca essencialmente por nossa liberdade. A ideia dela era de que, sendo os avaliadores tanto especialistas na matéria quanto agentes morais, o gênero não faria diferença no seu julgamento. Há nessas atitudes um elemento que diz respeito à dignidade humana, à nossa felicidade, à virtude, à liberdade e à filosofia. Isso é algo de que eu jamais abriria mão e de que ninguém deveria abrir mão. Mas há também um abismo entre o que esses valores expressam e o problema circunstancial que eles foram chamados a resolver. Qual é o lugar de ser mulher quando se trata do uso das nossas faculdades intelectuais? Que diferença faz para uma filósofa se ela é mulher? Karim Aïnouz faz Eurídice Gusmão justificar a sua relação com o piano dizendo: “quando eu toco, eu desapareço”. Quem desaparece no ato de tocar é a filha de seu Manuel e dona Ana, a mãe de Cecília, a esposa de Antenor. Com essas versões dela mesma vão-se todos os deveres que recaem sobre Eurídice pelo fato de ela ser a pessoa que é. O que fica no lugar deles é a sua essência, a liberdade, a felicidade. Ao fazer sua personagem explicar seu desaparecimento, Aïnouz vai muito além do romance de Martha Batalha no qual baseia seu filme. No romance, Eurídice foi frustrada em seu potencial: ela calcularia pontes, inventaria vacinas, escreveria clássicos, se assim lhe fosse dado. Essa Eurídice não chega perto da que vemos no filme, aquela que experimenta o “desaparecimento”, cujos dedos não conseguem parar de tocar, e que sabe muito bem quem ela é. Mas o filme de Aïnouz jamais se chamaria “A Vida Invisível” por essa grande experiência. A invisibilidade de Eurídice é a força contrária ao seu desaparecimento, é aquilo que o impede. Invisibilidade é o que faz com que ela apareça de um determinado modo, do modo ordinário, banal, que sobretudo as mulheres ocupam quando assumem como eixo central da sua existência o cuidado com os outros. Nancy Fraser relaciona esse tipo cuidado à função social da reprodução, historicamente atribuída às mulheres. Fraser insiste muito no fato de que o capitalismo se nega a remunerar o trabalho associado à reprodução (em última análise seríamos incapazes de arcar com tais custos) e por isso opera sistematicamente de modo a torná-lo invisível. O romance de Batalha levou essa invisibilidade à sua hipérbole: seu drama não é apenas que o trabalho do cuidado é invisível; é que ele nos torna invisíveis. Ele transforma a nossa vida na vida dos outros. Mas também quanto a esse ponto Aïnouz dá um passo à frente do romance. Enquanto Batalha faz questão de frisar o passado, e de dizer que essa é a vida das nossas avós, o filme de Aïnouz nos joga Eurídice na cara: ela ainda não passou. A invisibilidade de Eurídice é ainda a invisibilidade de muitos, de muitas. Isso porque a Eurídice do filme não é o potencial fracassado pela falta de oportunidade. Sua invisibilidade a vence no auge da sua conquista e da sua certeza de si mesma. Sua invisibilidade, paradoxalmente, é uma escolha. Mas que tipo de escolha? Certamente esse não é um ato imoral. Porém tampouco é simples encaixá-la em um ato que se conformaria às normas do imperativo moral. Ainda que uma ação pelo dever, ela se configura como um ato contra si própria cuja universalização não pode ser justificável, a não ser que... A não ser que ser mulher não seja um acidente, que seja uma propriedade que altera o que somos porque nos coloca em uma circunstância em que as capacidades que nos igualariam aos seres humanos simplesmente não podem ser desenvolvidas. Não podem, não por uma questão natural ou intrínseca a nós mesmas, mas porque o exercício de tais capacidades demanda um tempo que não temos por causa dos outros. A escolha de Eurídice é muito mais complexa do que essa versão simplificada que apresento aqui. Mas a versão simplificada me basta para contrastar o desaparecimento e a invisibilidade na minha resposta às minhas colegas. Aristóteles e Kant falharam sobre as mulheres, isso é fato comprovado pelos seus textos. Mas isso não é razão para que sejam desmerecidos, afinal eles formularam de modo lapidar o valor inviolável da virtude e da liberdade. Juntos esses dois fatores mostram como a invisibilidade de Eurídice é uma questão filosófica. Filosófica porque não vemos a invisibilidade dos outros. Filosófica porque a nossa própria invisibilidade nos causa tamanho amargor que preferimos não a ver. Do amargor Batalha diz: “E foi assim que concluiu que não deveria pensar”. O lugar de ser mulher quando se trata do uso das nossas faculdades intelectuais é a concorrência entre o cuidado de si e o cuidado dos outros, entre o desaparecimento e a invisibilidade. Porque elas vivem neste tempo e neste espaço, as filósofas têm que se posicionar em relação a essa concorrência. Muitas foram as que, na coragem por defender seu desaparecimento, rejeitaram totalmente a invisibilidade e os papeis sociais do cuidado dos outros, assumindo uma androginia que parece se encaixar bem na prática da razão pura. Elas tomam a posição libertária e igualitária – são iguais aos homens na sua opção – e rejeitam os deveres que as tornam invisíveis. O problema dessa posição é que a pretensão de sua universalidade levaria ao desaparecimento da espécie humana, cuja existência requer cuidados sobretudo na sua primeira e terceira idades. Isso quer dizer que, como mostrou Fraser, essa posição se compromete com a delegação das funções de cuidado – em geral transferidas a mulheres de classes sociais mais baixas, de raças e etnias minoritárias – e consequentemente com a manutenção da invisibilidade alheia. Outras filósofas enfrentaram o desafio de dividir seu tempo entre o cuidado de si e o dos outros. Persuadidas do argumento sobre a universalidade da virtude e da atividade natural, elas não admitem que ser mulher faça diferença na prática filosófica, e com isso vivem duas vidas. A questão é que o tempo unifica a nossa existência em uma sequência causal única e dividir-se é um modo de não estar plenamente em nenhuma das alternativas. Nesse cabo de guerra cotidiano, elas dificilmente escapam do amargor. No escuro do quarto, lamentam-se e inferiorizam-se, seja por não cuidarem dos outros como deveriam, seja por não brilharem como deveriam. Dessas filósofas mulheres, algumas repetem a escolha de Eurídice: abandonam a filosofia, tornam-se totalmente invisíveis e adicionam mais um caso na dura estatística da diminuição do número de filósofas em nossas instituições e em nossas estantes. Outras dentre essas insistem, esforçam-se por se contentar com níveis de produção e reconhecimento mais tímidos que os das suas contrapartes masculinas ou que os daquelas colegas que optaram por não se dividir. Elas engrossam as estatísticas que parecem confirmar a posição dos filósofos de que as mulheres não são assim tão aptas ao exercício filosófico. Há um outro caminho, aquele que torna a invisibilidade visível. Para tratar dele, Aïnouz optou abrir mão de sua preferência por uma estética não narrativa e explorar o gênero do melodrama. Mas eu creio que é possível mostrar a invisibilidade por argumentos. A investigação filosófica pode prestar-se bem a explorar a força dos papeis sociais na constituição da moralidade, da liberdade e da virtude. Talvez ela já tenha inclusive se defrontado com esse desafio. A tese socrática da unidade das virtudes e de que o cuidado dos outros depende do cuidado de si pode ter sido uma tentativa de iluminar a virtude invisível da sophrosune. Mas muitos outros caminhos estão se abrindo, caminhos abertos por filósofas que hoje se entendem mulheres e que reivindicam uma epistemologia, uma teoria moral ou uma filosofia política que expliquem a “Vida Invisível”. Hoje, 27 de novembro de 2019, é lançada a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas. As duas últimas palavras desse título não são redundantes. Elas ressaltam o trajeto tortuoso das filósofas que chegaram às nossas estantes. Elas propõem uma questão verdadeiramente filosófica sobre os limites de nossa liberdade. E eu gostaria que elas convidassem as duas colegas que mencionei – e muitas outras que com elas se identifiquem – a uma auto-investigação e a uma atenção às suas práticas cotidianas de exercício da filosofia. Ainda que elas se sintam confortáveis nas suas conquistas, talvez possam pensar em suas alunas, e na chance de que elas possam repetir a escolha de Eurídice Gusmão. Carolina Araújo, UFRJ #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil @FilosofasOrg #karimainouz #avidainvisivel
- Nísia Floresta em Bayreuth
Entre os dias 02 e 03 de dezembro ocorreu, na Universidade de Bayreuth/Alemanha, a primeira Conferência Mulheres na Filosofia Bayreuth. Organizado pela Professora (brasileira) Alice Pinheiro Walla e pela doutoranda (também brasileira) Maria Eugênia Zanchet, o evento contou com a presença de oito palestrantes de cinco nacionalidades (Alemanha, Brasil, Índia, Inglaterra e Irã) e de várias instituições distintas. O público esteve composto essencialmente por estudantes de filosofia da universidade anfitriã, mas também de colegas e estudantes de outros departamentos (como Geografia e Ciências Sociais). Apesar de ser nomeado como Conferência, o evento fluiu muito mais como um Workshop, pois boa parte das apresentações foram de verdadeiros trabalhos em andamento, seguidas de discussões intensas e construtivas. A apresentação de Tanu Biswass foi, nesse sentido, emblemática: sua palestra ocorreu um dia antes de sua banca de doutorado. O título da apresentação de Tanu é, em livre tradução, "Ideias Infantistas para uma Pedagogia da Filosofia em um Mundo Superaquecido" [Childist Ideas for a Pedagogy of Philosophy in an Overheated World]. A partir de um referencial metodológico inspirado na tradição fenomenológica, bem como em reflexões sobre o antropoceno neoliberal, Tanu mostrou como um determinado tipo de atividade filosófica com/para crianças pode ser não apenas uma maneira de ensinar-lhes a brincar com conceitos, mas (de modo talvez mais importante), de nos ensinar, aos adultos filosofantes, como fazer de nossas práticas filosóficas (mas não apenas) algo menos pesado e acelerado. Mais valioso para o mundo que estamos deixando para as crianças, um mundo superaquecido. No dia seguinte, quando a defesa já havia terminado, Tanu contou que sabe um pouco da nossa língua (ela havia usado a palavra brincar em português na apresentação do dia anterior, o que havia me deixado curiosa), e que os trabalhos de nosso colega Walter Kohan sobre filosofia e infância foram importantes em seu percurso de pesquisa. Outras apresentações de work-in-progress que merecem ser destacadas foram as de Shirin Assa, doutoranda da Faculdade de Línguas e Literatura que falou sobre Resistência Interseccional, e a de Sophie-Grace Chappell, professora da Universidade Aberta do Reino Unido, que nos presenteou com uma performance sutil e provocadora, lendo trechos dos capítulos sete e oito do livro que está em fase de finalização, Epifanias. Sophie-Grace criticou forte e tenazmente as teorias éticas e meta-éticas contemporâneas por não darem conta da dimensão concreta e comum dos valores morais na vida humana, oferecendo uma abordagem - seu socialismo desenvolvimentista-psicológico - baseado no que os bebês podem nos ensinar quanto à primazia de qualidades (e valores) complexos sobre o que filósofos como Hume e Locke consideram como os tijolos de nossa percepção, as qualidades primárias. A palestra de Sophie-Grace foi uma verdadeira aula de como fazer filosofia sem usar antolhos categoriais (filosofia analítica versus continental e outros quetais), e sem pretender fazer teoria filosófica, mas esclarecer conceitos que determinam nossas mais valiosas experiências como seres humanos. Todas as palestras foram bastante diversas, e mais ou menos complementares entre si. Estivemos discutindo sexismo e desrespeito (com Christine Bratu), direitos indígenas (com Kerstin Reibold), o alegado sentido moral do ressentiment (com outra filósofa brasileira, Christine Lopes), e ainda sobre como se sentir com relação a assim chamada inteligência artificial emocional (com Eva Weber-Guskar). A participação mais abrasileirada do evento foi a da que vos escreve - um trabalho em andamento, continuação da colaboração com Nastassja Pugliese sobre ensino de lógica, acerca da, ou com a, filosofia de Nísia Floresta. A ideia principal é combinar nossos esforços em favor de uma didática mínima da lógica para estudantes de filosofia com outros esforços, os de incluir tópicos de história da filosofia em aulas introdutórias de lógica, mais especialmente textos de autoras obliteradas do cânone que nos é transmitido na escolas e universidades. Com relação ao último ponto, não deveria ser novidade para a audiência deste site que passa da hora de nos dedicarmos ao resgate das mulheres que fizeram filosofia ao longo da história do Brasil, sendo Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) um nome inultrapassável. A despeito da confusão em torno de seu primeiro escrito (publicado em 1832 como uma livre tradução de Reivindicação dos direitos das mulheres, de Mary Wollstonecraft), não há muito o que duvidar sobre Floresta ser a precursora da literatura sobre os direitos das mulheres em nosso país, tendo: • publicado mais de 15 livros (em quatro idiomas) versando sobre os assuntos mais prementes de seu tempo (a educação das mulheres em diferentes momentos históricos e regiões do mundo, seu papel na sociedade, a situação indígena, o papel do nacionalismo no desenvolvimento das civilizações, a escravidão, a função da religião e da moral na educação, dentro outros); • fundado e dirigido um colégio com currículo liberal para meninas no Rio de Janeiro; • se correspondido e ter se tornado amiga de Auguste Comte; • influenciado o desenvolvimento de um imaginário mais favorável aos direitos das mulheres no país, e muito provavelmente outras escritoras, como Ana de Barandas. Minha contribuição ao evento foi dividida em quatro partes: uma primeira com notas biográficas (sintetizadas a partir da leitura de sua mais completa biografia, escrita pela professora Constância Lima Duarte, e cotejadas com as de Adauto Câmara e Maria Simonetti Gadêlha Grilo); uma segunda parte na qual expus os aspectos filosóficos - temas e problemas - da obra de nossa precursora; na terceira foquei na filosofia da educação da "primeira Nísia" (1832-1853), e por fim propus algumas questões para seguir a conversa. A mais importante de todas, nesse momento da pesquisa, diz respeito aos critérios que se podem exigir de uma obra para que seja considerada filosófica, em especial de como a obra de juventude de Nísia satisfaz tais critérios. A literatura secundária não é muito abundante diante dessa questão (vide Hammond-Mathews 2012, por exemplo), muito embora um passo importante tenha sido recentemente dado pelo Professor Paulo Marguti com seu Nísia Floresta, uma brasileira desconhecida: feminismo, positivismo e outras tendências (2019). A reescrita do cânone desde o ponto de vista das mulheres filósofas é uma tarefa complexa e cheia de desafios metodológicos e históricos, em especial para o caso de autoras brasileiras e latino-americanas, como já mostrou Ana Miriam Wuensch. Nesse sentido, o resgate dos aspectos filosóficos da obra de Nísia Floresta é indispensável, um trabalho que merece muita atenção e dedicação (um grupo de pesquisa não cairia mal) e para o qual, de nossa parte, estamos colaborando com uma singela fração: mapeando os argumentos que nos permitirão auscultar seus textos didático-filosóficos com o diapasão adequado à sua natureza e finalidade. Uma das perguntas que me dirigiam em Bayreuth foi sobre a existência de traduções da obra de Floresta para o inglês - estavam todos muito curiosos, querendo saber mais e mais sobre tão interessante desconhecida. Minha resposta foi simples e algo melancólica: pois somente um de seus escritos está disponível na língua de Wollstonecraft (Woman, traduzido do italiano por sua filha Lívia Augusta de Faria Rocha). Mas do que isso, em nossa língua mãe nem sequer temos ainda reunidas as obras completas daquela que talvez possa ser pleiteada como nossa primeira filósofa. E talvez feminista. #redebrasileirademulheresfilosofas #filosofasbrasil #nisiafloresta #reescritadocanone #porumanovahistoriadafilosofia
- Entrevista com Yara Frateschi - Feminismo Negro
“As nossas bibliografias de curso ainda são muito conservadoras, é tempo de democratizá-las” http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/2014-01-07-15-22-21/entrevistas/2388-entrevista-com-yara-frateschi-feminismo-negro
- Unesco / Red de Mujeres Filosofas de América Latina
Montevideo, 03 de dezembro de 2019
- Sejamos linguisticamente subversivas e politicamente utópicas!
O que faz de uma filósofa uma insurgente feminista em plenos séculos de privações genereficadas e misérias misóginas de inumeráveis tipos? O que faz de uma mulher uma filósofa em plenos séculos de insulamento e domesticidade forçada e planejada de longa data? Uma domesticidade iletrada a serviço do casamento e da propriedade de linhagem masculina – jamais passada a suas filhas. Só a reclusão herdada de suas mães. O que faz de uma dama uma revoltada? Ora, me parece que o que faz de uma filósofa uma feminista em plenos séculos de obscurantismo retrocedente é a imposição de uma perda continuada sobre o seu status de cidadã de direito. Não há qualquer outra alternativa possível. A cidadania incluindo aqui a outorga e a legitimidade da escritura – o direito de ser levada a sério como escritora e filósofa; o direito de uma “autonomia filosófica e literária”. Para as mulheres da modernidade o direto à rebelião passa pelo direito à palavra – à escrita, à fala pública, à publicidade daquilo que Donna Haraway chama – inclusive para os nossos dias ainda – de “poder de significar”. Uma insurreição e uma política do texto, da escrita e da linguagem. Porque, em última instância, é este o poder, de fato. O poder, propriamente dito. Eu tenho feito essa defesa junto de duas mulheres em dois países e séculos diferentes: a inglesa Margaret Cavendish, nascida Lucas em 1623, e a francesa Olympe de Gouges, nascida Marie Gouze, em 1748 – embora eu pudesse também recorrer a outras modernas tais como a dramaturga inglesa Aphra Behn (1640-1689), a francesa Marie de Gournay (1565-1645), ou àquelas a quem a feminista Margaret Walters chama de “amazonas da pena” (Walters, 2005 p.26): Mary Astell (1666-1731), a historiadora e contratualista inglesa Catharine Macaulay (1731-1791) e, evidentemente, Mary Wollstonecraft (1759-1797). Em especial, eu tenho feito essa defesa junto das obras O Mundo Resplandecente, a utopia filosófica de Margaret Cavendish, e a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã de Olympe de Gouges, a primeira escrita em 1666 – e que ecoa, no meu entender, aquilo que Christine de Pizan já fizera à sua maneira na Cidade das Damas em 1405 – e a segunda escrita em 1791, na França Revolucionária; que talvez o tenha sido bem menos do que se pretendia, claro.Infelizmente, e como é habitual para uma história da filosofia que é canonicamente construída sobre a masculinidade de seus padrões de excelência, Margaret Cavendish é uma de nossas desconhecidas, e tenho tentado recuperá-la para minhas reflexões sobre aquilo que creio ser uma política incessante, a luta política pelo poder de significar o mundo autonomamente com nossas próprias palavras. Para o que deixo aqui o acesso possível a seu único livro traduzido para o português - a utopia com tintas de ficção científica e um projeto de independência e autonomia intelectual, literária, política e econômica, um projeto de domínio sobre o próprio destino, um projeto de criação de um vínculo ou laço comum, de uma memória coletiva, de um espaço político próprio, de um teto todo seu: https://www.amazon.com.br/Mundo-Resplandecente-Margaret-Cavendish-ebook/dp/B07SH2CPNC










